"A Outra Mulher Que Vive a Minha Vida" PARTE 2
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O som das luzes fluorescentes do Hospital Santa Cecília parecia mais agressivo naquela manhã em São Paulo.
Isabela ainda estava sentada na cama, com os olhos fixos na televisão no canto do quarto. As imagens do jornal ao vivo continuavam passando, mas ela não conseguia processar mais nada com clareza.
A repórter sorria enquanto falava sobre um casamento de alto padrão realizado na região dos Jardins. Atrás dela, câmeras registravam uma cerimônia luxuosa em tempo real. Flores brancas, convidados elegantes, música clássica suave.
E então ela viu.
Ela mesma.
Vestida de noiva.
Sorrindo para Rafael Albuquerque como se aquele fosse o dia mais normal da sua vida.
Isabela sentiu o corpo travar.
“Isso não é possível…” — ela sussurrou, quase sem voz.
O médico ao lado dela manteve a postura neutra, observando a reação com atenção clínica.
“É uma transmissão ao vivo do casamento de hoje.” — ele disse calmamente.
Isabela virou lentamente o rosto em direção a ele.
“Hoje?” — a palavra saiu quebrada. — “Mas… eu estou aqui.”
Ninguém respondeu imediatamente.
A mãe dela ainda estava no canto do quarto, sentada, os olhos vermelhos. O pai andava de um lado para o outro, inquieto, como se não soubesse onde colocar as próprias mãos.
Isabela apontou para a televisão.
“Então quem é aquela mulher?”
O médico hesitou por um segundo.
“Essa é a pessoa que todos reconhecem como Isabela Monteiro Vasconcelos há dois anos.”
Isabela soltou uma risada curta e nervosa.
“Não… não, isso é impossível. Eu sou a Isabela.”
A mãe finalmente falou, com a voz baixa:
“Filha… nós não sabemos mais como explicar isso.”
Isabela virou para ela rapidamente.
“Você me viu crescer. Você me criou. Como você pode dizer isso?”
A mãe abaixou o olhar.
“Porque… nós também convivemos com ela.”
O silêncio no quarto ficou pesado.
Isabela sentiu o ar faltar por um segundo.
“Conviveram com ela?” — repetiu lentamente.
O pai finalmente parou de andar.
“Ela voltou para casa dois anos atrás. Depois do acidente… tudo mudou.”
Isabela balançou a cabeça.
“Não, não mudou. Eu não saí daqui. Eu não vivi nada disso.”
O médico abriu um tablet e deslizou algumas imagens.
“Esses são registros sociais dos últimos dois anos.”
Fotos apareceram.
Eventos em São Paulo.
Reuniões empresariais na Avenida Faria Lima.
Campanhas publicitárias.
Entrevistas.
E sempre ela.
A outra Isabela.
Isabela sentiu o estômago revirar.
“Isso não sou eu…” — ela disse com firmeza, mas a voz já tremia.
O médico olhou diretamente para ela.
“Os biomarcadores faciais confirmam 99,8% de correspondência genética.”
Isabela arregalou os olhos.
“Então vocês estão dizendo que existem duas pessoas iguais?”
O médico não respondeu imediatamente.
A mãe levantou-se devagar e se aproximou da cama.
“Ela sabia coisas que só você sabia.”
Isabela olhou para ela.
“Isso não prova nada.”
O pai interveio.
“Ela também assinou contratos. Fez reuniões. Assumiu a empresa.”
Isabela apertou os lençóis da cama com força.
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“Que empresa?”
O médico respondeu:
“Grupo Albuquerque Saúde.”
Isabela congelou.
“Isso é do Rafael…”
A mãe confirmou com a cabeça.
“Ela administra com ele agora.”
Isabela sentiu uma onda de náusea.
“E ele… ele sabe disso?”
O médico respondeu com cuidado:
“Ele está com ela neste momento.”
Isabela ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois soltou lentamente:
“Você quer dizer… que ele casou com ela?”
Ninguém respondeu.
O silêncio foi suficiente.
Isabela começou a respirar mais rápido.
“Isso é um erro. Um erro enorme.”
A mãe tentou tocar o braço dela.
“Isabela, você precisa se acalmar…”
Ela puxou o braço com força.
“Não me toca!”
O quarto ficou em silêncio novamente.
Isabela olhou para todos ao redor, como se buscasse apoio, mas encontrou apenas hesitação.
“Vocês estão me dizendo que eu fui substituída.”
O médico corrigiu:
“Nós estamos dizendo que há duas versões consistentes de você.”
Isabela riu de forma curta.
“Versões?”
O médico continuou:
“Uma delas está integrada socialmente. A outra… está aqui.”
Isabela sentiu os olhos arderem.
“E vocês decidiram que a outra é real?”
A mãe chorou em silêncio.
“Não foi uma decisão fácil…”
Isabela interrompeu com raiva crescente.
“Mas foi uma decisão.”
O pai falou baixo:
“Ela não apresentou falhas sociais ou legais.”
Isabela encarou ele.
“E eu?”
O médico respondeu antes dele:
“Você não apresenta registros ativos nos últimos dois anos.”
Isabela fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, sua expressão tinha mudado.
Menos choque.
Mais medo.
“Então eu não existo para o mundo.”
Ninguém respondeu.
Ela virou lentamente para a televisão novamente.
O casamento ainda estava ao vivo.
A outra Isabela estava agora ao lado de Rafael no altar.
Sorrindo.
Segurando a mão dele com naturalidade.
Como se sempre tivesse sido assim.
Isabela sussurrou:
“Olha para ela…”
O médico perguntou:
“Você reconhece essa pessoa?”
Isabela ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois respondeu:
“Sim.”
Todos olharam para ela.
Isabela continuou:
“Ela é eu.”
A mãe levou a mão à boca.
O pai pareceu desconfortável.
O médico franziu levemente a testa.
“Mas você insiste que não é ela?”
Isabela virou o rosto lentamente.
“Eu não sou ela.”
Uma pausa.
“Mas ela também não deveria existir.”
O médico anotou algo no tablet.
Isabela continuou olhando para a televisão.
Rafael beijou a outra Isabela no altar.
A cerimônia foi aplaudida.
Isabela sentiu algo quebrar por dentro de forma silenciosa.
“Ele nem hesitou…” — ela sussurrou.
A mãe tentou se aproximar novamente.
“Isabela…”
Ela interrompeu:
“Ele nunca hesita comigo.”
O pai abaixou a cabeça.
O médico fechou o tablet.
“Precisamos considerar uma possibilidade neurológica mais complexa.”
Isabela virou rapidamente.
“Que possibilidade?”
O médico hesitou.
“Que sua percepção de continuidade de identidade pode ter sido interrompida.”
Isabela respondeu imediatamente:
“Ou que alguém está mentindo.”
Silêncio.
A mãe começou a chorar mais forte.
“Por favor… isso está fora do nosso controle.”
Isabela respirou fundo.
Depois falou com uma calma assustadora:
“Então me levem até ela.”
O médico respondeu:
“Isso não é recomendado neste momento.”
Isabela olhou para ele fixamente.
“Eu não estou pedindo recomendação.”
O médico sustentou o olhar.
“Há risco de choque psicológico severo.”
Isabela deu um sorriso curto.
“Já aconteceu.”
Silêncio.
Ela apontou para a televisão.
“Ela está vivendo a minha vida neste exato momento.”
O pai tentou intervir:
“Isabela, você precisa entender—”
Ela interrompeu:
“Não. Eu preciso ver.”
O médico finalmente fechou a pasta.
“Se insistir, teremos que autorizar supervisão total.”
Isabela respondeu:
“Então autorize.”
A mãe chorava agora sem controle.
“Isso vai te destruir mais ainda.”
Isabela olhou para ela com uma expressão firme.
“Eu já fui destruída.”
O quarto ficou em silêncio por alguns segundos.
O médico finalmente assentiu.
“Vamos preparar o deslocamento.”
Isabela voltou a olhar para a televisão.
O casamento terminava com aplausos e flashes de câmera.
Rafael segurava a mão da outra Isabela.
Os dois se beijaram novamente diante das câmeras.
Isabela fechou os olhos.
Quando abriu, disse apenas:
“Eu preciso entender por que ela está sorrindo com a minha vida.”
E naquele instante, pela primeira vez desde que acordou, ela percebeu algo ainda mais perturbador do que ter sido substituída.
Se havia outra vivendo sua vida…
alguém tinha permitido isso acontecer.
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