"Ela Nasceu Duas Vezes" PARTE 10
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A cidade de Munique amanheceu com uma sensação estranha naquele dia, como se algo invisível tivesse se rompido sob a superfície da ordem.
Não era apenas um escândalo.
Era um colapso.
Nos jornais econômicos europeus, o nome Hartmann já não aparecia como símbolo de sucesso, mas como centro de uma investigação internacional em cadeia.
E, dentro desse turbilhão, Rodrigo Hartmann estava sozinho em uma sala de vidro no topo da sua empresa.
Dessa vez, ele não controlava a cidade.
Ele estava sendo observado por ela.
A tela à sua frente mostrava manchetes sucessivas:
“Hartmann Group sob investigação por manipulação de fundos educacionais”
“Transferências suspeitas ligadas a projeto genético europeu”
“Autoridades alemãs congelam ativos corporativos”
Rodrigo não piscava.
Mas seus dedos estavam tensos.
"Isso não deveria ter vazado assim."
A assistente ao lado dele tentou falar:
"Senhor, as autoridades estão pedindo explicações imediatas…"
Rodrigo cortou:
"Eu não devo explicações. Eu devo resultados."
Mas sua voz já não tinha a mesma força de antes.
Na mansão Von Berger, o ambiente era outro.
Não havia mais telas piscando.
Não havia mais técnicos correndo.
Havia silêncio.
E Augusto Von Berger sentado sozinho diante de uma mesa vazia.
Conceição entrou devagar.
Pela primeira vez naquela história, ela não parecia uma funcionária do passado.
Parecia alguém que carregava a verdade inteira nas costas.
"Você destruiu essa família uma vez."
Ela disse sem elevar a voz.
Augusto não respondeu imediatamente.
Depois disse:
"Eu destruí… sem saber o que estava destruindo."
Conceição deu um passo à frente.
"Isso não muda o resultado."
Silêncio.
Augusto fechou os olhos por um segundo longo.
E então falou:
"Eu sei."
Naquele instante, algo mudou.
Não no sistema.
Não nos relatórios.
Mas nele.
Augusto levantou-se lentamente.
E pela primeira vez em anos, não parecia um homem de poder.
Parecia um homem cansado.
"Helena não deveria ter sido tratada como foi."
Conceição olhou fixamente para ele.
"Você não diz isso agora como desculpa."
Augusto assentiu lentamente.
"Não. Eu digo isso como verdade."
Ele respirou fundo.
"E isso me destruiu mais tarde do que deveria."
Em outro ponto da cidade, Rodrigo assistia sua empresa desmoronar em tempo real.
Um dos diretores entrou apressado na sala:
"Senhor, os bancos suspenderam crédito. Há uma ordem de auditoria completa."
Rodrigo não virou o rosto.
"Isso é temporário."
O diretor hesitou.
"Não parece temporário. Parece coordenado."
Rodrigo finalmente levantou o olhar.
"Coordenado por quem?"
Silêncio.
A resposta veio baixa:
"Há indícios de participação indireta da fundação ligada à família Berger."
Rodrigo fechou os olhos.
"Eles estão conectados a isso…"
Na mansão, Augusto caminhava lentamente pelo corredor.
Conceição o seguia.
"Você não pode simplesmente dizer que se arrepende e achar que isso resolve tudo."
Augusto parou.
"Eu não estou tentando resolver."
Ele virou o rosto.
"Eu estou tentando admitir."
Conceição ficou em silêncio por um instante.
E então falou:
"Helena não precisava do seu arrependimento. Precisava da sua escolha."
Essas palavras atingiram Augusto com força.
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Ele não respondeu.
Porque não havia defesa possível.
Naquele mesmo momento, Isabela estava no apartamento pequeno em Schwabing.
Ela desenhava no chão.
Mas não desenhava brincando.
Desenhava rostos.
Sem saber exatamente por quê.
Conceição entrou devagar.
E a encontrou parada.
"Vovó… por que eu sinto que tudo está ficando pesado sem eu entender?"
Conceição se ajoelhou.
"Porque você está no meio de coisas que começaram antes de você nascer."
Isabela olhou para ela.
"E minha mãe?"
Conceição hesitou.
"Ela está… no centro disso tudo."
Na Hartmann Group, o colapso era visível.
Rodrigo agora estava diante de uma reunião emergencial.
Mas ninguém mais parecia obedecer completamente.
"Isso é sabotagem interna."
Ele disse.
Uma advogada respondeu:
"Ou é revelação inevitável."
Rodrigo a encarou.
"Você está do lado de quem?"
Ela respondeu:
"Do lado dos fatos."
Silêncio.
No mesmo dia, Augusto tomou uma decisão inesperada.
Ele ligou para uma linha antiga.
Uma conexão direta com arquivos hospitalares centrais.
"Quero acesso total aos registros selados de Helena Santos."
A voz do outro lado hesitou:
"Senhor, esses arquivos estão sob proteção jurídica internacional."
Augusto respondeu com firmeza:
"Eu sou a origem desses arquivos."
Silêncio.
E então o acesso foi liberado.
Conceição entrou na sala.
"Eles não vão te perdoar por isso."
Augusto respondeu:
"Eu não estou pedindo perdão deles."
Ele pausou.
"Eu estou tentando encontrar ela."
Rodrigo, por sua vez, recebeu um novo documento.
Era curto.
Direto.
E impossível de ignorar:
“Movimentação não autorizada detectada em ativo humano identificado como Isabela Santos.”
Ele levantou-se imediatamente.
"O quê isso significa?"
A assistente respondeu:
"Senhor… ela foi retirada da custódia provisória."
Rodrigo ficou imóvel.
"Quem autorizou isso?"
Silêncio.
Depois:
"Ordem externa não identificada."
Na mansão Von Berger, Augusto abriu o arquivo final.
E algo inesperado apareceu.
Um vídeo.
Antigo.
Gravado.
Ele hesitou antes de reproduzir.
Conceição ficou atrás dele.
"Se você fizer isso… não tem volta."
Augusto respondeu:
"Já não há volta há muito tempo."
O vídeo começou.
E o rosto de Helena apareceu.
Viva.
Cansada.
Mas viva.
Conceição deu um passo para trás.
Augusto ficou completamente imóvel.
E Isabela, em outro lugar, sem ver nada disso ainda, levantou a cabeça de repente como se tivesse sentido algo no ar.
No vídeo, Helena falou:
"Se alguém está vendo isso… então falhei em proteger o que mais importa."
E naquele instante, a tela piscou.
E a imagem travou por um segundo.
No escritório de Rodrigo, um alarme soou.
"Senhor… a localização de Isabela foi comprometida."
Ele virou-se imediatamente.
"Onde ela está?"
A resposta veio rápida:
"Em deslocamento não rastreado."
Na mansão, Augusto olhou para a tela congelada de Helena.
E sussurrou:
"Eles a encontraram primeiro…"
Conceição correu em direção à porta.
"Isabela!"
Mas já era tarde.
No último segundo, uma mensagem apareceu em todos os sistemas conectados ao mesmo tempo:
“Transferência final executada.”
E o nome do destino apareceu na tela de Augusto, de Rodrigo e de Conceição simultaneamente:
Helena Santos.
E, no instante seguinte, o telefone de Augusto tocou sozinho.
Ele atendeu.
E uma voz feminina, fraca, quase impossível de reconhecer, disse apenas:
"Não deixem… eles levarem ela também."
A linha caiu.
E antes que alguém pudesse reagir…
Isabela havia desaparecido.
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