"Ela Nasceu Duas Vezes" PARTE 9
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O céu de Munique naquela noite parecia mais escuro do que o normal, como se a cidade inteira estivesse escondendo algo que não queria ser descoberto.
No laboratório privado da família Berger, o ar já não era técnico.
Era caótico.
Monitores piscavam.
Relatórios eram reprocessados automaticamente.
E ninguém ali tinha mais controle total do que estava acontecendo.
Isabela estava sentada na mesma cadeira branca, mas agora parecia menor do que antes.
Não fisicamente.
Mas emocionalmente.
Conceição permanecia ao lado dela, rígida, como uma barreira viva.
Augusto Von Berger estava em pé, imóvel, olhando para a tela principal.
E pela primeira vez em anos, seu rosto não mostrava autoridade.
Mostrava fissura.
Na tela, uma linha repetia em loop:
“Inconsistência genética irreversível entre bancos de referência.”
Augusto respirou fundo.
"Isso não deveria existir."
Conceição virou-se imediatamente.
"O quê isso significa agora?"
Ele não respondeu de imediato.
Porque algo pior estava chegando.
Do outro lado da cidade, Rodrigo Hartmann já não estava sentado.
Ele andava pelo escritório como um animal preso em vidro.
Os relatórios haviam mudado de categoria.
De análise genética…
para investigação estrutural.
Um dos seus analistas falou com cautela:
"Senhor… os registros de Helena Santos foram revisitados."
Rodrigo parou.
"Quem autorizou isso?"
O analista hesitou.
"O sistema Berger cruzou automaticamente com bases hospitalares antigas da Baviera."
Rodrigo apertou os dentes.
"E o resultado?"
Silêncio.
Depois:
"Helena Santos pode não ter morrido."
Na mansão Berger, o impacto foi físico.
Conceição deu um passo para trás.
Augusto fechou os olhos por um segundo longo demais.
Isabela não entendeu.
"Minha mãe… não morreu?"
A pergunta saiu como algo pequeno.
Mas caiu como explosão.
Augusto abriu os olhos lentamente.
"Isso não é confirmado ainda."
Mas sua voz não tinha mais firmeza.
Tinha medo.
Conceição se aproximou imediatamente.
"Você está dizendo isso agora? Depois de anos?"
Augusto respondeu:
"Eu estou dizendo que os registros foram manipulados."
Ele respirou fundo.
"E isso não é erro administrativo."
Isabela levantou-se da cadeira.
"Alguém mentiu sobre ela?"
Silêncio.
Ninguém respondeu rápido o suficiente.
E isso já era resposta.
Na tela do sistema, um novo alerta apareceu automaticamente.
“Registros de óbito inconsistentes detectados.”
E abaixo:
“Possível remoção não autorizada de paciente Helena Santos.”
Rodrigo, no escritório, lia as mesmas linhas.
E seu rosto endurecia a cada segundo.
"Remoção…?"
Ele repetiu.
"Isso não é hospital. Isso é operação."
Augusto virou-se rapidamente para o técnico.
"Quem mais teve acesso a esses registros?"
O técnico respondeu nervoso:
"Além da família Berger… há uma entidade corporativa vinculada a investimentos externos."
Augusto franziu a testa.
"Nome."
O sistema piscou.
E então apareceu:
Hartmann Group
Silêncio absoluto.
Conceição olhou para Augusto.
Depois para Isabela.
E finalmente entendeu.
Do outro lado da cidade, Rodrigo viu o mesmo nome aparecer na tela dele.
E pela primeira vez naquela noite…
ele não reagiu com controle.
Reagiu com choque.
"Isso não é possível…"
Ele sussurrou.
No laboratório, Isabela deu um passo para trás.
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"Vocês estão falando da minha mãe como se ela fosse um arquivo."
Conceição tentou segurá-la.
"Isabela, espera…"
Mas já era tarde.
A menina olhou diretamente para Augusto.
"Você sabe onde ela está?"
Augusto não respondeu imediatamente.
E esse silêncio foi mais forte que qualquer palavra.
Ele finalmente disse:
"Eu sabia o que aconteceu… não onde ela está agora."
Conceição explodiu:
"Então vocês destruíram uma vida inteira e agora fingem investigação?"
Augusto respondeu, mais baixo:
"Não foi eu sozinho."
Naquele momento, os sistemas começaram a emitir um novo aviso automático.
Todos os dispositivos conectados piscaram ao mesmo tempo.
E uma nova linha apareceu:
“Protocolo de contenção de identidade ativado.”
Rodrigo leu aquilo e congelou.
"Contenção…?"
Ele virou-se imediatamente para a equipe.
"Quem ativou isso?"
Ninguém respondeu.
No laboratório, as portas automáticas travaram.
Um som seco ecoou.
CLACK.
Conceição olhou para a saída.
"Eles estão nos bloqueando?"
Augusto virou-se rapidamente.
"Não fui eu."
Isabela ficou imóvel.
"Eu não posso sair?"
E então o sistema respondeu sozinho.
Sem comando humano.
Sem autorização manual.
Apenas lógica interna:
“Sujeito Isabela Santos incluído em protocolo de contenção ativa.”
Conceição empalideceu.
"O quê… é isso?"
Augusto deu um passo para trás.
E pela primeira vez sua voz falhou:
"Isso não era para ser ativado agora…"
Rodrigo, do outro lado da cidade, levantou-se bruscamente.
"Eles ativaram o protocolo sem mim?"
Ele olhou para a tela.
E viu algo ainda pior:
“Acesso ao sujeito restrito por múltiplas entidades simultâneas.”
Conceição puxou Isabela para trás.
"Fique atrás de mim."
Augusto olhou para a tela.
E sussurrou:
"Então é verdade… alguém já sabia que ela existia antes de nós."
Isabela respirou fundo.
"Eu estou em perigo?"
Ninguém respondeu.
E então, o sistema fez algo inesperado.
Todas as portas do laboratório foram destravadas por três segundos.
Como se alguém tivesse dado uma chance.
E nesse intervalo, uma mensagem apareceu em todos os terminais ao mesmo tempo:
“Transferência de custódia iniciada.”
Conceição gritou:
"O quê está acontecendo?!"
Augusto tentou interromper o sistema.
Mas já era tarde.
Rodrigo viu a mesma mensagem surgir no seu painel.
E disse lentamente:
"Não fui eu…"
No laboratório, passos foram ouvidos no corredor externo.
Vários.
Rápidos.
Decididos.
Conceição puxou Isabela para trás novamente.
"Não olhe!"
Augusto ficou imóvel.
E murmurou:
"Eles chegaram antes da decisão final…"
As portas se abriram.
E uma voz fria veio do corredor:
"Estamos autorizados a levar o sujeito Isabela Santos."
Isabela se virou lentamente.
"Me levar?"
Conceição gritou:
"NÃO!"
Mas já era tarde.
E enquanto os agentes entravam no laboratório, o sistema central exibiu uma última linha automática, piscando em vermelho:
“Transferência executada por ordem de origem desconhecida.”
E logo abaixo, uma única palavra apareceu como assinatura final:
Hartmann.
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