"A Noiva de Máscara de Madeira" PARTE 2
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A Catedral de São Miguel do Império ainda estava em choque quando o silêncio começou a pesar mais do que qualquer grito.
O rosto de Eveline Duarte Lima continuava exposto sob a luz dourada dos vitrais, a cicatriz em sua bochecha agora visível para todos os nobres que minutos antes riam dela.
Caio Montenegro Vasconcelos não se movia.
Seu corpo parecia preso entre o passado e o presente, como se o mundo tivesse perdido a lógica.
“Isso… não pode ser você”, ele disse, finalmente, com a voz quebrada.
Eveline não desviou o olhar.
“Mas é.”
O Rei Augusto de Alencar deu um passo à frente.
A presença dele mudou o ar da catedral. Não havia mais cerimônia, não havia mais espetáculo. Apenas peso.
“Chegou o momento que eu evitei por vinte e seis anos”, disse ele, olhando para todos.
Os convidados começaram a se entreolhar.
Alguns ainda tentavam rir, mas não conseguiam.
Algo maior estava acontecendo.
Algo perigoso.
Caio deu um passo para frente, ainda tentando recuperar o controle da situação.
“Majestade, isso é absurdo. Essa mulher era filha de uma lavadeira em Vila Santa Aurora. Eu conheci a infância dela.”
O rei fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, sua voz estava mais dura.
“Você conheceu a versão que eu permiti que existisse.”
Um murmúrio percorreu a catedral.
Eveline apertou as mãos contra o vestido.
“Do que ele está falando?”, ela perguntou, mas sua voz já não era de dúvida. Era de medo.
O rei a encarou com uma dor antiga.
“Seu nome verdadeiro não é Eveline Duarte Lima.”
Silêncio.
“Seu nome é Isabela de Alencar.”
A palavra “Alencar” caiu como um trovão.
Alguns nobres levantaram-se imediatamente.
Outros recuaram como se a própria catedral tivesse mudado de forma.
Eveline deu um passo para trás.
“Isso é mentira…”
Sua respiração falhou.
“Eu cresci em Vila Santa Aurora… eu vivi com minha mãe…”
O rei interrompeu.
“Mariana Duarte não era sua mãe.”
A frase pareceu rasgar o ar.
Eveline balançou a cabeça lentamente.
“Não…”
Mas sua voz já não tinha força.
Caio observava aquilo com um brilho estranho nos olhos.
Não era mais apenas choque.
Era cálculo.
“O senhor está destruindo a própria história do império”, ele disse, tentando recuperar autoridade.
Mas o rei não olhou para ele.
Ele olhava apenas para Eveline.
“Você foi levada do palácio quando tinha apenas dois anos.”
O silêncio ficou absoluto.
“A noite da sua captura foi a mesma noite em que anunciaram sua morte oficial.”
Eveline começou a tremer.
“Isso não aconteceu…”
Sua voz ficou mais baixa.
“Eu lembro da minha infância…”
O rei deu um sorriso triste.
“Memórias implantadas não são lembranças reais.”
Aquelas palavras atingiram Eveline como uma queda.
Ela levou a mão à cabeça.
“Não… não…”
Caio deu uma risada curta, quase nervosa.
“Isso é loucura política. Ela é uma fraude construída para justificar poder.”
O rei finalmente olhou para ele.
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E naquele olhar havia algo que fez até Caio hesitar.
“Seu pai ajudou a construir essa fraude.”
O silêncio voltou mais pesado.
Eveline ergueu os olhos imediatamente.
“O que ele disse?”
O rei respirou fundo.
“Casa Vasconcelos de Minas participou da sua remoção do palácio.”
Um choque percorreu a catedral inteira.
Um dos velhos duques deixou cair sua taça.
Outro fez o sinal da cruz sem perceber.
Caio ficou imóvel.
“Isso é falso”, ele disse lentamente.
Mas sua voz já não tinha certeza.
O rei continuou.
“Eles disseram que você havia morrido de febre.”
“Mas na verdade… você foi entregue a uma família falsa em Minas Gerais.”
Eveline começou a recuar, como se o chão estivesse instável.
“Eu fui criada… como filha de ninguém…”
Sua voz falhou.
“Eu passei fome…”
O rei deu um passo em sua direção.
“Você passou fome porque queriam que você esquecesse quem era.”
Caio apertou os punhos.
“E por que alguém faria isso?”, ele perguntou, agora mais agressivo.
O rei olhou diretamente para ele.
“Porque você seria a única herdeira capaz de impedir que sua família tomasse o trono.”
O impacto dessa frase foi imediato.
Alguns nobres começaram a sair lentamente dos bancos.
Outros tentavam entender se aquilo era uma encenação.
Mas não era.
Eveline estava pálida.
“Eu… herdeira?”, ela sussurrou.
O rei assentiu.
“Você nasceu com sangue de Alencar.”
Ele caminhou até o altar e retirou de dentro de sua capa um pequeno relicário dourado.
Abriu lentamente.
Dentro havia metade de um pingente em forma de sol.
Ele levantou o objeto.
“Isso foi tudo o que restou quando você foi levada.”
Eveline hesitou.
Suas mãos tremiam enquanto ela também retirava algo de dentro do vestido.
Um pingente idêntico.
Metade.
O mundo pareceu parar.
A catedral inteira prendeu a respiração.
O som metálico dos dois pedaços se aproximando ecoou como destino inevitável.
Quando se encaixaram perfeitamente, um clique seco soou.
Eveline soltou o ar de forma abrupta.
“Isso… isso é meu…”
Sua voz quebrou.
“Eu sempre tive isso…”
O rei fechou os olhos.
“Era o único vínculo que conseguiram deixar com você.”
Caio deu um passo para trás.
Agora ele entendia.
Mas não queria entender.
“Isso não muda nada”, ele disse rapidamente. “Mesmo que ela seja… o que vocês dizem… ela foi criada fora da corte.”
O rei virou-se lentamente para ele.
“E ainda assim sobreviveu ao que ninguém da corte sobreviveria.”
O silêncio ficou mais cruel.
Eveline olhou para Caio.
E algo dentro dela começou a se quebrar.
“Você sabia?”, ela perguntou.
Caio hesitou.
“Não.”
Mas a resposta veio tarde demais.
Ela já tinha visto a hesitação.
Eveline respirou fundo.
“Eu não sou uma lembrança perdida…”
Ela olhou para o rei.
“Sou um erro escondido.”
O rei respondeu com voz baixa:
“Não.”
“Você é a verdade que tentaram enterrar.”
Nesse momento, um dos guardas reais entrou apressado pela lateral da catedral.
Ele estava ofegante.
“Majestade… o arquivo do sequestro… foi acessado novamente esta noite.”
O rei congelou.
Eveline levantou os olhos imediatamente.
“Que arquivo?”
O guarda hesitou.
“O registro original da noite em que a princesa foi retirada do palácio…”
Ele olhou diretamente para Eveline.
“…foi alterado há poucos minutos.”
Caio empalideceu.
E o rei sussurrou, quase sem voz:
“Então alguém aqui ainda está tentando apagar você.”
E todos na catedral perceberam a mesma coisa ao mesmo tempo.
O perigo não tinha terminado.
Ele tinha acabado de recomeçar.
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