"O Homem Que Aprendeu a Amar Tarde Demais" PARTE 2
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Na Zona Oeste de São Paulo, a noite já havia caído sobre o bairro de Perdizes. As luzes amarelas dos postes refletiam nas ruas molhadas por uma garoa leve, típica do clima paulistano.
O som distante de ônibus passando e carros freando formava uma trilha constante, quase cansada, como se a cidade nunca dormisse de verdade.
Dentro de um pequeno apartamento no terceiro andar de um prédio antigo, Helena Costa Ribeiro trabalhava sem parar.
Uma máquina de costura ocupava quase metade da sala. Tecidos empilhados, linhas coloridas, moldes improvisados sobre a mesa de jantar. O espaço era ao mesmo tempo sala, oficina e refúgio.
Helena inclinava o corpo sobre uma peça de roupa social masculina, ajustando uma barra com precisão quase dolorosa. Seus olhos estavam cansados, vermelhos de noites mal dormidas, mas suas mãos não paravam.
Ela não podia parar.
Cada ponto era dinheiro. Cada encomenda era sobrevivência.
Ao fundo, o som baixo da televisão falava sobre o trânsito da Marginal Tietê, mas Helena não prestava atenção. O mundo externo já não parecia pertencer a ela há muito tempo.
“Se eu errar essa costura, eu perco o cliente…”, ela sussurrou para si mesma, apertando os lábios.
Na cozinha pequena, uma lancheira infantil aberta revelava metade de um pão com queijo e uma fruta cortada. Era tudo o que havia sido preparado para Lívia naquela noite.
Helena olhou rapidamente para o relógio.
22:48.
“Ela ainda não dormiu…”, murmurou preocupada.
Nesse momento, uma voz suave veio do corredor.
“Mamãe…”
Helena suspirou, sem levantar a cabeça.
“Lívia, já devia estar na cama.”
A menina apareceu na porta, descalça, segurando um ursinho velho com um olho costurado. Seu olhar ainda carregava a mesma seriedade do parque.
“Eu não consegui dormir.”
Helena finalmente parou a máquina.
O silêncio dentro do apartamento ficou pesado.
“Vem cá”, ela disse, abrindo os braços por um segundo.
Lívia se aproximou lentamente e encostou a cabeça na mãe.
Mas havia algo diferente nela.
Helena percebeu.
“Você está estranha desde hoje de manhã… o que aconteceu no parque?”, perguntou com cautela.
Lívia ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois falou.
“Eu conheci um homem.”
Helena imediatamente se afastou um pouco.
“Que homem?”
“Um homem no parque.”
O tom de Helena mudou.
“Lívia… você falou com desconhecido?”
“Ele não parecia perigoso.”
“Isso não importa!”, Helena respondeu mais firme. “Você não fala com estranhos, entendeu?”
Lívia abaixou o olhar.
“Mas ele foi gentil.”
Helena respirou fundo, tentando controlar o nervosismo.
“Você não pode confiar nas pessoas assim.”
Mas a menina não estava ouvindo o medo da mãe.
Ela estava lembrando de outra coisa.
O olhar dele.
A forma como ele respondeu.
A calma.
E principalmente: o fato de ele estar sozinho.
Na manhã seguinte, o parque Ibirapuera parecia ainda mais vivo.
Helena havia levado Lívia à escola pública próxima, depois de uma longa manhã de trabalho extra. Mesmo exausta, ela sempre fazia o caminho a pé de volta, economizando cada centavo possível.
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Mas naquele dia, algo parecia puxá-la de volta ao parque.
Ela não sabia explicar por quê.
Talvez fosse o desconforto da conversa da noite anterior.
Talvez fosse o medo de que Lívia estivesse criando fantasias.
Ou talvez fosse outra coisa.
Ela apertou a alça da bolsa e continuou andando.
Do outro lado da cidade, Ethan Monteiro Vasconcelos estava novamente no mesmo banco.
Mesmo horário.
Mesmo silêncio.
Mas algo tinha mudado.
Ele não sabia dizer o quê.
A imagem da menina não saía da sua cabeça.
“Escolher alguém para ser meu pai…”
Ele repetiu mentalmente.
Isso não era algo comum.
Não era uma brincadeira.
Era um critério.
Uma decisão.
E isso o incomodava profundamente.
Ele, que havia fechado contratos milionários, negociado empresas inteiras, nunca tinha sido “escolhido” por ninguém dessa forma.
De repente, ele não era o homem mais rico do banco.
Era apenas um homem que tinha sido avaliado por uma criança.
“Você voltou aqui de novo.”
A voz feminina o tirou dos pensamentos.
Ethan virou o rosto.
Helena estava ali.
Em pé, alguns metros à frente.
Cansada. Desconfiada. Em alerta.
“Eu não estava te procurando”, ele respondeu calmamente.
“Então por que está aqui?”
Ethan hesitou por um segundo.
“Porque sua filha deixou uma pergunta na minha cabeça.”
Helena imediatamente ficou tensa.
“Eu sabia…”
“Não”, ele interrompeu suavemente. “Não é o que você está pensando.”
Ela cruzou os braços.
“Eu não quero que você confunda isso com algo maior do que é.”
Ethan olhou diretamente para ela.
“E o que exatamente é?”
Helena ficou em silêncio.
Porque ela mesma não tinha certeza.
Nesse momento, uma pequena figura correu entre as árvores.
“EU VI ELE!”
Lívia apareceu sorrindo.
Helena ficou em choque.
“Lívia! O que você está fazendo aqui?”
A menina parou na frente de Ethan como se nada mais existisse.
“Eu sabia que você viria de novo.”
Ethan sorriu de leve, sem perceber.
“Você tem certeza disso?”
“Eu tenho.”
Helena se aproximou rapidamente e segurou a mão da filha.
“Lívia, vamos embora agora.”
Mas a menina não se mexeu.
Ela continuava olhando para Ethan.
“Hoje eu não vim sozinha”, ela disse.
Ethan franziu a testa.
“Como assim?”
Lívia respirou fundo, como se estivesse prestes a revelar algo muito importante.
“Eu vim para mostrar pra minha mãe.”
Helena congelou.
“Mostrar o quê?”
Lívia apontou para Ethan.
“Que ele é diferente.”
O silêncio caiu imediatamente.
Helena puxou a filha com mais força.
“Chega!”
Mas Ethan não desviou o olhar.
Ele estava observando algo que não conseguia ignorar.
Não era apenas a menina.
Era a forma como ela confiava nele.
Era a forma como ela tinha decidido, sozinha, que ele “poderia ser alguém”.
E isso era perigoso.
Não para ela.
Para ele.
Porque algo dentro de Ethan começou a se mover pela primeira vez em anos.
Algo que ele não planejava sentir.
Interesse.
Não apenas curiosidade.
Mas um tipo de conexão silenciosa, inexplicável.
Helena percebeu.
E isso a assustou mais do que deveria.
“Vamos embora agora”, ela repetiu.
Lívia finalmente obedeceu, mas antes de sair, virou-se uma última vez.
E disse algo quase inaudível para Ethan:
“Você ainda não respondeu tudo.”
E então elas foram embora.
Ethan ficou sozinho novamente.
Mas o parque não parecia mais o mesmo.
Porque agora ele sabia.
Aquela menina não estava apenas fazendo perguntas.
Ela estava selecionando algo.
Ou alguém.
E o pior pensamento veio sem aviso:
Talvez ele já tivesse sido escolhido.
Mesmo sem saber.
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