"A Música do Homem que Não Morreu" PARTE 4
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A palavra “morto” ainda ecoava na cabeça de Sofia como uma nota mal resolvida.
Ela não piscava.
Não respirava direito.
E pela primeira vez naquela noite, Helena não sabia o que fazer com as próprias mãos.
Victor Albuquerque Vasconcelos observava tudo em silêncio absoluto.
Mas agora era um silêncio diferente.
Não era mais curiosidade.
Era controle em risco.
Helena finalmente falou, quase sem voz:
— Isso não deveria estar na sua frente…
Sofia ainda segurava o celular que Victor tinha mostrado.
O documento ainda estava aberto.
A palavra “ELIMINAÇÃO” parecia pulsar na tela.
— Por que esse nome está aqui? — Sofia perguntou.
Victor não respondeu imediatamente.
Ele virou o rosto.
Como se estivesse decidindo se aquela conversa ainda era permitida.
Helena deu um passo à frente.
— Você não devia ter visto isso.
Sofia olhou para ela.
— Eu já vi antes.
O salão pareceu congelar de novo.
Victor estreitou os olhos.
— Antes?
Sofia respondeu calmamente:
— Nos arquivos da empresa.
Helena fechou os olhos com força.
Como se aquilo fosse inevitável.
Victor observou Helena agora com mais atenção.
— Então você sabia que ela mexia nesses arquivos.
Helena engoliu seco.
— Não era assim… eu não deixei ela ver nada.
Victor deu um sorriso leve.
— Mas deixou ela crescer aqui dentro da minha estrutura.
A frase caiu como uma acusação silenciosa.
Helena não respondeu.
Sofia puxou a mão da mãe.
— Mãe… por que ele está no documento?
Helena tentou falar, mas a voz falhou.
Victor se aproximou lentamente.
— Porque sua mãe assinou algo.
Sofia olhou para ele.
— O quê?
Victor virou-se para uma mesa lateral.
Abriu uma gaveta.
Retirou uma pasta preta.
E jogou sobre a mesa com calma.
— Um acordo de confidencialidade.
Helena fechou os olhos imediatamente.
Sofia se aproximou.
Victor abriu a pasta.
Documentos impressos.
Assinaturas.
Carimbos jurídicos.
E no topo:
“ACORDO DE SILÊNCIO – HELENA DUARTE”
Sofia olhou para a mãe.
— Isso é seu?
Helena não conseguiu responder.
Victor continuou:
— Ela assinou cinco anos atrás.
Silêncio.
O ar ficou mais pesado.
— Em troca de proteção — Victor disse.
Sofia olhou para ele.
— Proteção de quem?
Victor hesitou meio segundo.
Mas respondeu:
— De mim.
Helena reagiu imediatamente:
— NÃO ERA ASSIM!
A voz dela quebrou o salão.
— Você distorce tudo!
Victor não se alterou.
— Eu ofereci segurança.
Helena tremia.
— Você ameaçou me tirar tudo.
Victor respondeu friamente:
— Eu tirei apenas o que era necessário.
Sofia ficou entre os dois.
— Eu não entendo.
Helena se ajoelhou na frente dela.
— Sofia… escuta… isso não é simples…
Mas Sofia não tirava os olhos do documento.
— Está dizendo que você me vendeu?
Helena congelou.
Victor observou em silêncio.
Helena respondeu rápido:
— NÃO! Nunca!
Mas a voz não era firme.
Era quebrada.
Victor cruzou os braços.
— Explique então.
Helena respirou fundo.
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E finalmente falou.
— Quando você nasceu… seu pai já estava sendo perseguido.
Sofia ficou imóvel.
Helena continuou:
— Elias tinha descoberto algo dentro da Vasconcelos Music… algo grande demais.
Victor apertou os olhos.
— Mentira.
Helena ignorou.
— Ele ia expor tudo.
Sofia olhou para Victor.
— O quê ele ia expor?
Victor não respondeu.
Helena respondeu por ele:
— Roubo de composições.
Silêncio imediato.
Helena continuou:
— Eles pegavam músicas de compositores desconhecidos… e vendiam como se fossem de artistas internacionais.
Sofia olhou para o piano atrás dela.
Como se estivesse vendo aquilo pela primeira vez.
Helena tremia.
— Elias era o único que tinha provas.
Victor interrompeu:
— Ele não tinha nada.
Helena virou-se para ele com raiva:
— Você apagou tudo!
Victor deu um passo à frente.
— Eu salvei a empresa.
Helena riu, mas sem humor.
— Você destruiu vidas.
Sofia levantou a mão.
— Então… meu pai descobriu isso?
Helena assentiu.
— Sim.
Sofia olhou novamente para Victor.
— E você o expulsou?
Victor respondeu imediatamente:
— Ele saiu.
Helena gritou:
— ELE FOI AMEAÇADO!
Silêncio pesado.
Victor perdeu por um segundo a paciência.
— Ele queria controlar a empresa inteira sozinho.
Helena respondeu:
— Ele queria justiça!
Sofia ficou no meio da discussão como se estivesse montando um quebra-cabeça impossível.
— Então… por que ele desapareceu?
Ninguém respondeu.
E esse silêncio foi a resposta mais assustadora.
Victor finalmente falou:
— Ele não desapareceu por causa de mim.
Helena sussurrou:
— Você sabe que isso não é verdade.
Victor virou o rosto.
— Ele sumiu porque não queria escolher um lado.
Helena deu um passo à frente.
— Você ameaçou ele.
Victor respondeu seco:
— Eu negociei.
Sofia interrompeu:
— Com dinheiro?
Victor olhou para ela.
— Com realidade.
Helena soltou uma risada amarga.
— Ele recusou.
Silêncio.
Victor não negou.
Sofia deu um passo atrás.
— Então vocês fizeram isso com ele.
Helena tentou se aproximar.
— Sofia, escuta…
Mas Sofia levantou a mão.
— Não.
Ela olhou para os dois.
— Vocês dois.
O salão pareceu parar.
Sofia respirou fundo.
— Então ninguém é inocente.
Helena começou a chorar.
— Eu só tentei te proteger…
Sofia olhou para ela.
— Protegendo me escondendo?
Helena não respondeu.
Victor observava aquilo com um interesse estranho.
Como se algo estivesse finalmente encaixando.
Sofia voltou a olhar para o documento.
E algo mudou.
Ela percebeu um detalhe.
Um pequeno selo vermelho no canto inferior.
Ela se aproximou.
Aproximou mais.
E viu uma linha adicional, quase escondida.
Helena tentou impedir:
— NÃO LÊ ISSO!
Mas já era tarde.
Sofia leu em voz baixa:
— “Cláusula adicional de risco extremo…”
Ela engoliu seco.
E continuou:
— “…em caso de vazamento ou retorno do envolvido principal…”
Victor ficou imóvel.
Helena desabou.
Sofia leu até o final.
E então ficou completamente parada.
Victor perguntou lentamente:
— O que está escrito?
Sofia levantou o olhar.
E respondeu:
— Que se meu pai voltasse…
Ela pausou.
E completou:
— vocês dois também seriam eliminados.
O silêncio que veio depois não era mais humano.
Era vazio.
Victor não piscava.
Helena não respirava.
E Sofia… finalmente entendeu que aquilo não era apenas uma história de música roubada.
Era uma sentença ainda em andamento.
E nesse exato momento…
o documento no chão começou a imprimir sozinho uma nova página.
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