"A Música do Homem que Não Morreu" PARTE 2
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O silêncio que caiu sobre o salão da Mansão Vasconcelos não era comum.
Não era um silêncio de festa encerrada.
Era um silêncio de algo quebrando por dentro.
Sofia ainda estava parada perto do piano Steinway, com as mãos baixas, como se nada tivesse acontecido — como se ela não tivesse acabado de desmontar a respiração de cinquenta dos homens mais ricos de São Paulo com uma única execução impossível.
Helena correu até ela.
Seus dedos agarraram o braço da menina com força.
— Sofia… o que foi isso? Quem te ensinou isso? Quem te colocou nesse palco?!
A voz dela não era só medo.
Era pânico.
Sofia não respondeu.
Ela apenas olhou para Victor Albuquerque Vasconcelos.
E isso foi o suficiente para deixar o ar ainda mais pesado.
Victor desceu os últimos degraus devagar, como um homem que não acreditava no que tinha visto… mas também não conseguia negar.
Ele não batia palmas.
Ele não sorria mais.
Ele observava.
Como se estivesse recalculando o mundo inteiro.
— Isso não foi sorte — ele disse finalmente, com voz baixa.
Um dos convidados tentou rir para aliviar a tensão.
— Criança prodígio, senhor Vasconcelos… deve ser vídeo na internet…
Victor levantou a mão.
O homem se calou imediatamente.
Victor se aproximou do piano, olhando para Sofia como se ela fosse um problema matemático impossível.
— Você não toca assim por acaso — ele disse.
Sofia respondeu com calma:
— Eu não toco por acaso.
Helena apertou ainda mais o braço dela.
— Chega! Nós vamos embora agora!
Mas Victor não tirava os olhos da menina.
Algo nele havia mudado.
Não era mais tédio.
Era interesse.
Perigoso.
Ele virou-se lentamente para os convidados.
— Todos aqui acham que viram algo impressionante hoje.
Ninguém respondeu.
— Mas vocês não viram nada.
O salão congelou.
Victor voltou a olhar para Sofia.
— Vou propor uma coisa.
Helena imediatamente ficou pálida.
— Não…
Victor ignorou.
Ele estalou os dedos.
Um assistente se aproximou com uma pasta preta.
Victor abriu a pasta.
Retirou uma folha impressa.
E ergueu.
— Isso aqui é uma composição original. Nunca executada publicamente. Considerada impossível até para pianistas de conservatório europeu.
Ele virou o papel para Sofia.
— Se você tocar isso perfeitamente… eu te pago cem milhões de reais.
O salão explodiu em murmúrios.
— Cem milhões?!
— Isso é loucura…
— Ele ficou maluco…
Helena soltou Sofia e ficou na frente dela.
— Não! Não, isso é absurdo! Ela é uma criança! Você não pode fazer isso!
Victor nem olhou para Helena.
— Eu não estou forçando ninguém.
Ele encarou Sofia diretamente.
— Estou testando.
Sofia inclinou levemente a cabeça.
— Testando o quê?
Victor sorriu de leve.
Mas não era um sorriso humano.
Era um sorriso de controle.
— Se você é real.
Helena entrou em desespero.
— Sofia, olha pra mim. Você não precisa provar nada pra ninguém. Vamos embora agora.
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Mas Sofia não olhava para Helena.
Ela olhava para a partitura.
Como se reconhecesse algo ali.
Algo antigo.
Algo perigoso.
— Eu posso tocar — Sofia disse.
Helena arregalou os olhos.
— NÃO!
Ela puxou Sofia para trás.
Mas a menina se soltou.
Com uma força calma.
— Mãe… eu consigo.
A palavra “mãe” pareceu quebrar algo dentro de Helena.
Victor observava tudo como um cirurgião emocional.
Ele deu um passo para trás.
— Deixem ela escolher.
Um segurança hesitou.
Helena gritou:
— Você não entende! Isso não é uma brincadeira!
Victor respondeu friamente:
— Nada aqui é uma brincadeira.
Sofia voltou ao piano.
Sentou.
Respirou.
O salão inteiro estava em choque.
Helena tremia, quase sem ar.
— Sofia… por favor…
Mas a menina colocou as mãos sobre as teclas.
E começou.
A primeira nota foi diferente da Parte 1.
Não era curiosidade.
Era precisão.
O salão inteiro percebeu imediatamente.
Victor estreitou os olhos.
— …interessante.
As notas começaram a se multiplicar.
Rápidas.
Complexas.
Impossíveis.
Helena levou a mão à boca.
— Isso não é normal…
Um dos músicos convidados se levantou:
— Isso… isso não está sendo simplificado… ela está tocando a partitura original!
Outro respondeu:
— Ninguém consegue isso!
Mas Sofia conseguia.
As mãos dela não hesitavam.
Cada movimento parecia calculado antes mesmo de acontecer.
Victor deu um passo à frente.
Depois outro.
Ele não piscava.
A música começou a mudar o ambiente.
As taças pararam de tilintar.
As conversas desapareceram completamente.
O salão inteiro virou audiência.
Helena começou a chorar em silêncio.
Não de orgulho.
De medo.
Porque aquela música… ela conhecia.
E isso era o pior.
Victor segurou a própria respiração pela primeira vez.
— Isso não é possível… — ele murmurou.
Sofia acelerou.
A execução se tornou brutalmente precisa.
E então aconteceu algo que ninguém esperava.
Ela alterou a harmonia.
Não estava mais apenas tocando.
Ela estava reconstruindo a obra.
Um murmúrio percorreu o salão:
— Ela mudou a composição…
— Isso é impossível…
Victor apertou os dedos contra o vidro de uma mesa.
Seus olhos agora eram frios.
Mais frios do que antes.
Porque ele reconheceu algo.
Não na técnica.
Mas na estrutura.
Na assinatura musical.
A assinatura de alguém que ele conhecia muito bem.
Sofia terminou a peça.
Silêncio absoluto.
Nenhum aplauso.
Nenhum movimento.
Só choque.
Ela tirou as mãos do piano.
E olhou para Victor.
— Eu terminei — ela disse.
Victor não respondeu imediatamente.
Ele parecia… abalado.
Mas não por emoção.
Por cálculo.
Helena puxou Sofia novamente.
— Vamos embora… agora…
Mas Victor levantou a mão de novo.
— Espera.
A voz dele estava diferente.
Mais baixa.
Mais controlada.
Ele caminhou até o palco.
Parou a poucos passos da menina.
— Quem te ensinou isso?
Sofia respondeu:
— Eu já disse.
Victor estreitou os olhos.
— Seu pai?
Sofia assentiu.
Um silêncio caiu.
Mais pesado que o anterior.
Victor deu um leve sorriso.
— E qual é o nome dele?
Helena gritou:
— NÃO RESPONDE!
Mas era tarde.
Sofia já tinha decidido.
Ela olhou diretamente para Victor.
E disse:
— Ele é Elias Monteiro.
O nome caiu no salão como uma explosão invisível.
Helena ficou branca.
Victor congelou.
E pela primeira vez naquela noite…
o milionário perdeu completamente o controle da própria expressão.
Sofia continuou, calma, como se não estivesse destruindo nada ao redor:
— Eu reconheço essa música.
Ela respirou fundo.
E completou:
— Porque foi ele quem escreveu.
E nesse instante…
Victor deu um passo para trás.
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