"O Casamento que Virou Código" PARTE 4
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A chuva fina caía sobre São Paulo como se a cidade estivesse tentando lavar algo que não conseguia apagar.
Lívia Costa caminhava sozinha na saída lateral do Hospital Santa Cecília, apertando o casaco contra o corpo.
O rosto ainda ardia.
Mas não era o tapa que doía mais.
Era o que ela tinha visto.
Ela parou no ponto de ônibus.
O celular vibrou.
Sem número.
Sem nome.
Apenas silêncio na tela depois de uma mensagem apagada automaticamente.
Lívia respirou fundo.
“Eles já sabem meu nome…” ela sussurrou.
Naquela mesma hora, na Mansão Vasconcelos, Henrique lia relatórios com o rosto endurecido.
Caio Menezes estava ao lado, inquieto.
“Isso está ficando maior do que um contrato”, disse o advogado.
Henrique não respondeu.
Ele só olhava para o vazio entre as páginas.
“Quem é essa empresa Figueira?” ele perguntou por fim.
Caio hesitou.
“Consultoria médica e jurídica. Mas oficialmente… segurança corporativa.”
Henrique franziu o cenho.
“Segurança de quê?”
O advogado engoliu seco.
“De comportamento humano.”
Silêncio.
Henrique fechou o relatório.
“Isso não existe.”
Caio respondeu baixo:
“Existe. Mas não deveria estar envolvido no seu casamento.”
Na Zona Leste, Lívia entrou em um ônibus antigo, sentando perto da janela.
O reflexo dela no vidro parecia estranho.
Como se fosse outra pessoa.
Mais cansada.
Mais velha.
Mais observada.
Flashback.
Hospital Santa Cecília – 3 anos antes.
Lívia vestida com uniforme de auxiliar de limpeza.
Corredores brancos.
Cheiro de desinfetante.
E gritos abafados atrás de portas fechadas.
Ela se lembrava de tudo.
Do médico que mandou ela “não se envolver”.
Da enfermeira que chorava escondida.
E do paciente que nunca saiu do quarto 407.
“Você não viu nada, entendeu?” disse uma voz no passado.
Mas ela tinha visto.
De volta ao presente.
Henrique levantou da mesa.
“Quero tudo sobre essa empresa. Tudo.”
Caio assentiu.
“Tem mais uma coisa…”
Henrique o encarou.
“Fale.”
“Ela também tem histórico hospitalar.”
Henrique franziu a testa.
“Quem?”
Caio respondeu:
“A Lívia Costa.”
Silêncio absoluto.
No ônibus, Lívia olhou pela janela e lembrou.
O dia em que tentou denunciar.
Hospital Santa Cecília – arquivo interno.
Ela tinha levado provas.
Relatórios.
Fotos.
Medicamentos errados.
“Isso é grave”, ela tinha dito.
Mas o diretor do hospital apenas sorriu.
“Você trabalha limpando corredores, não julgando médicos.”
E no dia seguinte…
o arquivo desapareceu.
De volta à mansão.
Henrique ficou imóvel.
“Você está me dizendo que ela já esteve dentro desse sistema antes?”
Caio assentiu.
“Sim. E tentou denunciá-lo.”
Henrique respirou fundo.
“E o que aconteceu?”
O advogado respondeu baixo:
“Ela foi ignorada. E depois… transferida para limpeza.”
Silêncio pesado.
Na Zona Leste, Lívia desceu do ônibus.
O bairro era simples.
Prédios antigos.
Luz fraca.
Rua molhada.
Mas algo estava errado.
Ela parou.
Sentiu.
Alguém estava atrás dela.
Lívia virou devagar.
Nada.
Apenas uma rua vazia.
Mas o instinto não mentia.
Ela começou a andar mais rápido.
Passos ecoando atrás dela.
Ou talvez… só na cabeça dela.
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No mesmo momento, na mansão, Henrique recebeu uma pasta nova.
Título:
“RELATÓRIO MÉDICO NÃO AUTORIZADO – PACIENTE DESCONHECIDO”
Ele abriu.
E congelou.
Hospital Santa Cecília – ala restrita.
Paciente sem identificação.
Tratamento experimental.
Substância aplicada:
mesma classe do sedativo do casamento
Henrique levantou os olhos.
“Isso é o quê?”
Caio respondeu:
“Testes anteriores.”
Silêncio.
Na Zona Leste, Lívia acelerou.
Agora tinha certeza.
Alguém estava seguindo.
Ela entrou em uma rua mais estreita.
Luzes falhando.
Som distante de ônibus.
E então…
um carro parou lentamente atrás dela.
Henrique, na mansão, olhou outra página do relatório.
E viu uma anotação manual.
“Fase de observação social: bairros periféricos.”
Ele franziu a testa.
“Observação social?”
Caio não respondeu.
Porque ele também não sabia até onde isso ia.
No bairro, o carro continuava atrás de Lívia.
Sem buzina.
Sem luz alta.
Apenas seguindo.
Ela parou.
Respirou fundo.
Pegou o celular.
Sem sinal.
Ela começou a andar mais rápido.
O carro também.
Na mansão, Henrique recebeu uma última atualização automática do sistema interno.
Mensagem simples:
“Sujeito 07 voltou ao local de origem.”
Henrique congelou.
“Quem é o sujeito 07?”
Caio olhou para a tela.
E empalideceu.
“Isso não está no seu arquivo…”
Na Zona Leste, Lívia começou a correr.
Agora não havia dúvida.
O carro acelerou lentamente.
Luzes refletindo no chão molhado.
E então…
Henrique viu outra pasta aparecer automaticamente no sistema da empresa.
Sem ninguém abrir.
Sem ninguém autorizar.
Título:
“RETORNO DO SUJEITO ORIGINAL – LÍVIA COSTA”
Ele ficou imóvel.
“Isso… não faz sentido.”
Caio deu um passo para trás.
“Henrique… isso não é sobre seu casamento.”
Na Zona Leste, Lívia entrou em um beco.
Sem saída.
O carro parou na entrada.
Motor ligado.
Silêncio absoluto.
Ela respirou fundo.
Olhou ao redor.
E então…
uma voz veio de trás dela.
Baixa.
Calma.
Muito próxima.
“Você deveria ter ficado no hospital.”
Lívia virou lentamente.
E nesse exato momento…
o sistema da Mansão Vasconcelos registrou uma nova entrada de dados:
“OBSERVAÇÃO ATIVA CONFIRMADA.”
E a tela ficou preta.
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