"Ela Chamou uma Estranha de Mãe" PARTE 10
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O silêncio dentro da mansão Vasconcelos já não parecia silêncio.
Era pressão.
Como se a casa inteira estivesse segurando a própria respiração.
Depois do vídeo ao vivo de Juliano, tudo tinha mudado de frequência.
As luzes de emergência piscavam sem padrão, os sistemas internos respondiam com atraso, e as portas automáticas começavam a reagir como se não reconhecessem mais seus próprios comandos.
Helena segurava Sofia com força, encostada contra uma parede do corredor principal.
Victor estava alguns metros à frente, tentando acessar o sistema central.
Celeste observava tudo em silêncio, como se já soubesse que aquele momento era inevitável.
Sofia tremia.
Mas não era mais só medo.
Era lembrança fragmentada.
“Eu não quero lembrar mais… eu não quero…” — ela sussurrou.
Helena apertou a menina contra o peito.
“Você não precisa lembrar de nada agora, meu amor… fica comigo…”
Mas o sistema da mansão não concordava.
Uma das paredes laterais do corredor começou a emitir um som baixo.
Um clique.
Depois outro.
Victor virou imediatamente.
“Isso não estava no mapa da casa…” — ele disse.
Celeste respondeu sem emoção:
“Nunca esteve.”
Helena olhou para ela.
— O que isso significa?
Celeste não respondeu.
Mas deu um passo para trás.
Como se estivesse dando espaço para algo abrir.
A parede deslizou lentamente.
Revelando uma passagem.
Escura.
Artificial.
Helena deu um passo involuntário para trás.
— Isso não estava aqui…
Victor olhou fixamente.
E pela primeira vez naquela noite, hesitou.
Mas apenas por um segundo.
“Entrem. Agora.” — ele disse.
Helena apertou Sofia.
— Não.
Victor virou o rosto.
“Se ficarem aqui fora, vocês não saem vivas.”
Silêncio.
Sofia puxou a roupa de Helena.
“Mama… eu lembro dessa parte…”
Helena congelou.
— Você já esteve aqui?
Sofia não respondeu.
Mas começou a chorar novamente.
A passagem se fechou automaticamente assim que entraram.
Um som metálico ecoou.
CLACK.
Trancado.
Helena virou imediatamente.
— Victor! Abra isso!
Mas a parede não respondeu.
Agora estavam dentro.
A sala era pequena.
Branca.
Estéril.
Sem janelas.
Panic room.
Mas não parecia apenas uma sala de segurança.
Parecia um arquivo.
Um lugar feito para guardar coisas que não deveriam existir.
Victor respirou fundo.
“Isso foi construído antes da mansão ser finalizada.” — ele disse.
Celeste completou:
“E nunca deveria ser acessado.”
Helena olhou para eles.
— Por quê?
Silêncio.
De repente, a parede frontal da sala acendeu.
Uma tela.
Sozinha.
Sem comando.
Sofia se encolheu imediatamente.
“Não… não isso…”
Helena segurou a filha.
— Não olha.
Mas já era tarde.
A tela começou a reproduzir arquivos.
Histórico.
Fragmentado.
Organizado.
Como se alguém estivesse finalmente revelando tudo.
Primeiro arquivo:
Juliano Vasconcelos.
Em um laboratório.
Observando relatórios médicos.
“O controle não é sobre força. É sobre memória.” — ele dizia no vídeo.
Helena ficou imóvel.
Segundo arquivo:
Victor Almeida Vasconcelos.
Em uma sala financeira.
Assinando documentos.
Transferências para hospitais privados.
“Garantam que isso nunca volte para o sistema público.” — ele dizia.
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Helena sentiu o chão desaparecer.
— Isso… isso não pode ser…
Sofia começou a tremer mais forte.
“Eles estavam todos lá… todos estavam lá…”
Helena segurou o rosto dela.
— Quem estava lá, Sofia?
A menina chorava.
“Os três… eles estavam todos lá… comigo…”
Terceiro arquivo apareceu.
Celeste Vasconcelos.
Em uma sala médica.
Assinando contratos.
Clínicas privadas.
Protocolo de gestação controlada.
“Isso não é uma mãe. É um projeto.” — ela dizia no vídeo.
Helena virou o rosto imediatamente.
— Você sabia disso?!
Celeste não respondeu.
Mas não negou.
E isso foi pior.
Victor fechou os olhos por um segundo.
“Não deveria estar tudo junto…” — ele disse baixo.
Helena olhou para ele.
— O quê você quer dizer com isso?!
Victor não respondeu.
A tela mudou novamente.
E então apareceu uma sala de hospital.
Hospital Albert Einstein.
Helena deitada.
Inconsciente.
Sofia recém-nascida ao lado.
Mas agora… havia mais pessoas na sala.
Juliano.
Victor.
Celeste.
Todos juntos.
Helena caiu de joelhos.
— Não…
Sofia gritou.
“É aqui… é aqui que eu lembro…”
O vídeo continuou.
Um médico falava:
“O procedimento de substituição de registro foi concluído. A mãe não lembrará do parto.”
Helena começou a tremer.
— Substituição…?
Victor ficou imóvel.
“Isso não deveria estar neste nível de acesso…” — ele disse.
Celeste respondeu:
“Agora você entende por que isso nunca deveria ser visto.”
Sofia começou a chorar mais forte.
“Eles me trocaram… eles me trocaram…”
Helena segurou a menina com força.
— Não… isso não é verdade…
Mas a voz dela já não tinha certeza.
O vídeo seguinte apareceu.
Uma sala escura.
Juliano falando:
“Ela não pode lembrar de quem a entregou.”
Victor respondeu no vídeo:
“Então façam ela esquecer.”
Helena levantou o rosto imediatamente.
— Isso não é real…
Mas o áudio continuava.
Celeste no vídeo:
“O vínculo precisa ser substituído. Não removido. Substituído.”
Helena sentiu algo quebrar dentro dela.
— Vocês estavam juntos…
Silêncio.
Victor abriu os olhos lentamente.
“Isso não era o plano original…” — ele disse.
Celeste respondeu:
“Mas virou.”
Sofia começou a gritar.
“EU NÃO SOU PROJETO! EU NÃO SOU PROJETO!”
Helena a abraçou com força.
— Você é minha filha… você é minha filha…
Mas sua voz tremia.
A tela mudou mais uma vez.
E apareceu uma gravação de áudio apenas.
A voz de Victor.
Fria.
Clara.
“Ela precisa esquecer.”
Silêncio absoluto.
Helena ficou parada.
Olhou para ele.
E não disse nada.
Victor finalmente falou:
“Isso foi manipulado.”
Helena respondeu imediatamente:
— Tudo aqui foi manipulado!
Celeste deu um passo à frente.
“Não tudo. Apenas partes.”
Sofia olhou para a tela.
E sussurrou:
“Eu lembro da luz… e depois nada…”
A tela piscou novamente.
E um último arquivo apareceu.
Não era vídeo.
Era gravação ao vivo.
Helena congelou.
— Isso está acontecendo agora…
Do lado de fora da sala, uma voz ecoou pelo interfone interno.
Victor.
Mas distante.
Controlado.
“Helena… não confia no que você vai ver depois disso.”
Helena levantou o rosto lentamente.
Olhou para a tela.
E viu o próximo arquivo começar a abrir sozinho.
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