"Ela Chamou uma Estranha de Mãe" PARTE 9
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A madrugada em São Paulo parecia mais pesada dentro da mansão Vasconcelos.
Depois da chegada de Juliano, nada dentro da casa voltou a ser normal.
As luzes de emergência ainda piscavam em alguns corredores, e o sistema de segurança permanecia instável, como se a própria estrutura da mansão estivesse tentando se recuperar de algo que não entendia.
Helena estava sentada no chão do quarto, segurando Sofia com força.
A menina não chorava mais.
Agora ela estava em silêncio.
Mas era um silêncio perigoso.
Sofia apertava um pequeno coelho de pelúcia contra o peito. Um brinquedo antigo que Victor tinha mandado trazer do depósito pessoal de infância dela, como tentativa de acalmá-la.
Mas havia algo estranho naquele brinquedo.
Algo que ninguém ainda tinha notado.
Victor estava de pé próximo à porta, observando.
Juliano não estava mais visível no corredor.
Mas sua presença ainda parecia espalhada pela casa.
Sofia respirava rápido.
“Ele ainda está aqui… eu sei que ele ainda está aqui…” — ela sussurrou.
Helena segurou o rosto dela.
“Não tem ninguém aqui, meu amor… você está segura comigo.”
Mas Sofia balançou a cabeça lentamente.
“Não… ele não sai… ele só espera…”
Victor estreitou o olhar.
— Espera o quê?
Sofia não respondeu diretamente.
Ela apenas apertou o brinquedo com mais força.
Celeste apareceu no corredor, ainda com o ferimento no ombro mal tratado.
Ela olhou para o coelho de pelúcia.
E ficou imóvel por um segundo.
Foi a primeira vez naquela noite que sua expressão quebrou levemente o controle.
“De onde veio isso?” — ela perguntou.
Helena respondeu automaticamente:
“É dela. Estava no quarto.”
Celeste não desviou os olhos do brinquedo.
“Não… isso não deveria estar aqui.”
Victor percebeu imediatamente a mudança no tom dela.
— O que você sabe sobre isso?
Celeste demorou a responder.
“Nada… oficialmente.”
Sofia começou a tremer de novo.
Mas agora não era medo comum.
Era memória ativa.
Ela levou o coelho até o rosto.
E sussurrou:
“Ele ficava aqui dentro…”
Helena franziu a testa.
— Como assim?
Sofia apontou para o brinquedo.
“Ele falava comigo… quando eu não podia falar com ninguém…”
Victor se aproximou lentamente.
— O brinquedo?
Sofia assentiu.
“Ele dizia que eu tinha que esquecer… senão eles iam me levar de novo…”
Silêncio.
Helena sentiu o corpo gelar.
— Quem disse isso pra você?
Sofia fechou os olhos com força.
“A mulher… no quarto branco…”
Victor ficou completamente imóvel.
Celeste virou o rosto lentamente.
E pela primeira vez, parecia realmente preocupada.
Victor pegou o coelho da mão da criança com cuidado.
Não abriu de imediato.
Observou.
Pesou.
E então apertou a costura lateral.
Algo não estava certo.
O tecido era mais rígido em um ponto específico.
Ele puxou uma pequena lâmina do bolso.
Helena deu um passo para trás.
— O que você está fazendo?
Victor não respondeu.
Cortou cuidadosamente o brinquedo.
E então caiu um pequeno objeto metálico no chão.
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Um chip.
Helena ficou sem ar.
— Isso estava dentro do brinquedo…?
Celeste se aproximou imediatamente.
Ajoelhou-se.
Sem hesitar.
Pegou o chip entre os dedos.
E murmurou:
“Eles esconderam isso melhor do que eu imaginava…”
Victor virou o rosto lentamente.
— “Eles”?
Celeste não respondeu.
Mas já era tarde.
Victor conectou o chip a um terminal portátil.
A tela demorou alguns segundos.
Depois, um arquivo apareceu.
Vídeo.
Hospital Albert Einstein.
Helena congelou imediatamente.
— Não…
O vídeo começou.
Helena estava deitada em uma cama hospitalar.
Inconsciente.
Com sensores no corpo.
Uma equipe médica ao redor.
E ao lado dela…
Juliano Vasconcelos.
Observando.
Calmo.
E então Victor entrou na sala.
Helena deu um passo para trás.
— Isso não é possível…
No vídeo, um médico falava baixo:
“O procedimento foi concluído. Ela não vai lembrar de nada.”
Juliano respondeu:
“Garanta que ela não lembre nem da própria respiração naquele dia.”
Helena levou a mão à boca.
— Isso… isso não é verdade…
Mas o vídeo continuava.
Victor no vídeo olhou para Juliano.
E disse:
“Ela precisa esquecer.”
Silêncio na sala real.
Total.
Helena caiu de joelhos.
— Não…
Sofia começou a chorar de novo.
“É isso… é isso que eu lembro… a luz… a dor…”
Celeste desligou o terminal imediatamente.
Mas o dano já estava feito.
O silêncio dentro da mansão mudou completamente.
Não era mais medo.
Era colapso.
Helena olhou para Victor.
Os olhos dela estavam cheios de choque.
— Você… estava lá…
Victor não respondeu imediatamente.
Mas não negou.
E isso foi pior.
Celeste se levantou lentamente.
E disse:
“Agora você entende o problema.”
Helena gritou:
“ENTENDER O QUÊ?! QUE VOCÊS ROUBARAM A VIDA DELA?!”
Sofia se agarrou ainda mais nela.
Victor respirou fundo.
E disse baixo:
— Isso não era para acontecer assim.
Helena virou o rosto imediatamente.
— O quê?
Victor não respondeu.
Celeste olhou para o chip no chão.
E então disse:
“Isso foi ativado antes do tempo. Alguém está puxando a memória dela.”
Sofia tremia intensamente.
“Ele está me lembrando… ele está me fazendo lembrar…”
Victor olhou para o corredor escuro.
E pela primeira vez naquela noite…
percebeu algo que não tinha visto antes.
Juliano não tinha atacado a mansão.
Ele tinha ativado algo.
De repente, todas as luzes da mansão piscaram novamente.
Mas agora não era falha.
Era sincronização.
Os monitores do sistema interno ligaram sozinhos.
E exibiram um único vídeo ao mesmo tempo.
Uma sala escura.
Uma criança chorando.
Sofia.
Mas desta vez…
não era gravação.
Era transmissão ao vivo.
Helena gritou:
“ISSO NÃO É REAL!”
Mas Sofia apontou para a tela, em pânico absoluto:
“ELE ESTÁ ME VENDO AGORA!”
Victor deu um passo para trás.
E pela primeira vez…
sua expressão perdeu completamente o controle.
Na tela, uma mensagem apareceu lentamente:
“A memória não pode ser apagada para sempre.”
E então o vídeo mostrou alguém se aproximando da câmera.
Um homem.
Calmo.
Imóvel.
Juliano.
Ele olhou diretamente para a transmissão.
E sorriu.
Helena caiu no chão com Sofia.
Victor ficou paralisado.
Celeste sussurrou:
“Ele nunca esteve fora do sistema… ele estava dentro dele.”
E antes que o vídeo cortasse…
Juliano disse claramente:
“Ela vai lembrar de tudo agora.”
A tela ficou preta.
Mas o sistema não desligou.
Ele apenas mudou de estado.
E uma última linha apareceu:
“Processo de recuperação de memória iniciado.”
Sofia gritou.
E desta vez…
não foi de medo.
Foi de lembrança.
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