"A Mulher Que Voltou da Morte" PARTE 9
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A madrugada em São Paulo parecia mais pesada naquela noite. Não era apenas o frio ou a chuva fina que caía sem parar. Era algo invisível, como se a própria cidade estivesse observando alguém em silêncio.
Helena Duarte acordou de repente no pequeno quarto da pensão na Liberdade.
Respiração acelerada.
Olhos abertos no escuro.
Por alguns segundos, ela não soube onde estava.
O teto branco parecia estranho.
O ar parecia diferente.
E, por um instante, ela sentiu como se tivesse acabado de sair de um lugar muito mais profundo do que o sono.
Ela levou a mão à cabeça.
“De novo…”, sussurrou.
Imagens fragmentadas começaram a surgir sem aviso.
Uma sala hospitalar.
Luzes fortes demais.
Uma voz masculina dizendo:
“Ela está instável. Apaguem tudo antes que ela acorde.”
Outra voz:
“Se ela lembrar, acabou.”
Helena se sentou rapidamente na cama.
O coração disparado.
“Isso não é sonho…”, ela murmurou.
Ela abriu a gaveta da pequena mesa ao lado da cama.
O anel ainda estava lá.
O mesmo anel.
Ela não lembrava quando o tinha colocado ali.
Mas agora, ele parecia mais pesado do que antes.
No mesmo instante, em outro ponto da cidade, Rafael Monteiro Vasconcelos estava no escritório do Grupo Monteiro.
A tela do computador ainda mostrava o perfil interno:
HELENA DUARTE
Mas agora havia algo diferente.
Uma nova linha havia surgido.
“ACESSOS RELACIONADOS: SISTEMA HOSPITALAR EINSTEIN”
Rafael franziu a testa.
“Por que o hospital está ligado a ela?”, ele murmurou.
Ele clicou.
O sistema travou por alguns segundos.
E então abriu um fragmento de arquivo.
Um registro antigo.
Parcialmente corrompido.
Mas o suficiente para fazê-lo parar de respirar por um instante.
No arquivo, havia uma imagem.
Hospital.
Uma maca.
E uma etiqueta parcialmente visível:
ISABELA MONTEIRO VASCONCELOS
Rafael se levantou bruscamente.
“Isso não pode estar aqui…”
Ele ampliou a imagem.
Mas o arquivo travou novamente.
E desapareceu.
Como se nunca tivesse existido.
“Quem está apagando isso?”, ele disse em voz baixa.
Na pensão, Helena caminhava descalça pelo quarto.
O anel em sua mão.
Ela tentava respirar normalmente.
Mas algo dentro dela estava fora de controle.
Como se duas versões de si mesma estivessem lutando para existir ao mesmo tempo.
Ela se olhou no espelho.
Longamente.
E então percebeu algo estranho.
Sua expressão.
Não parecia totalmente desconhecida.
Mas também não parecia totalmente dela.
Helena tocou o espelho.
“Quem é você?”, ela perguntou para si mesma.
Silêncio.
Mas então…
Outra imagem.
Uma festa.
Uma taça caindo no chão.
Um homem segurando sua mão.
“Isabela, não confia neles.”
Helena recuou rapidamente.
“Para…”, ela disse, pressionando as têmporas.
No hospital Albert Einstein, uma sala de arquivos antigos estava sendo reaberta por ordem interna.
Um técnico tentava restaurar backups manuais.
“Isso não deveria estar aqui…”, ele disse.
“Mas está”, respondeu outro.
Na tela, surgiram fragmentos de vídeo.
Imagens instáveis.
E então, um frame claro.
Isabela deitada na maca.
Olhos fechados.
Monitor cardíaco fraco.
O técnico se aproximou.
“Isso é impossível… ela já estava morta.”
Mas o sistema continuou.
Outro frame apareceu.
O monitor começou a oscilar.
E então…
Um movimento.
Quase imperceptível.
Os olhos dela se abriram.
O técnico deu um passo para trás.
“Isso não é gravação… isso é evento real.”
Naquele exato momento, Rafael recebeu uma ligação.
Era o Delegado Henrique Santana.
“Temos algo no hospital”, disse a voz.
“Algo que não deveria existir.”
Rafael não hesitou.
“Estou indo.”
Helena estava agora sentada no chão do quarto.
O anel na mão.
As memórias voltando em ondas, cada vez mais fortes.
Ela começou a tremer.
“Não sou isso… não sou isso…”, repetia.
Mas então…
Uma memória completa.
Uma sala branca.
Uma assinatura forçada.
E uma voz dizendo:
“Você vai morrer hoje como Isabela.”
Helena abriu os olhos com força.
E respirou como se tivesse acabado de voltar à vida.
Ela se levantou lentamente.
Foi até o espelho novamente.
Mas agora não havia mais dúvida.
A confusão estava dando lugar a algo mais perigoso.
Determinação.
No mesmo instante, Rafael chegou ao hospital com o delegado.
“Mostrem tudo de novo”, ele exigiu.
O técnico hesitou.
“Senhor… isso pode não ser seguro.”
“Eu não quero segurança”, Rafael respondeu.
“Eu quero a verdade.”
A tela voltou a carregar os arquivos.
E então…
Uma nova sequência começou a aparecer automaticamente.
Sem comando.
Sem autorização.
Helena na maca.
Mais nítida.
Mais próxima.
E então…
Uma última imagem foi reconstruída.
Ela abriu os olhos.
E olhou diretamente para a câmera.
No quarto da pensão, Helena deixou o anel cair no chão.
Respirando forte.
Olhos arregalados.
E então, sem perceber totalmente o que dizia, ela sussurrou:
“Eu não sou Helena…”
Silêncio.
E pela primeira vez, a frase não pareceu uma dúvida.
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