"A Mulher Que Voltou da Morte" PARTE 8
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A chuva caiu sobre São Paulo com mais força naquela noite, como se a cidade estivesse lavando segredos antigos que não deveriam vir à tona.
No topo do Grupo Monteiro, as luzes ainda estavam acesas. E dentro de uma sala fechada, Camila Ribeiro não dormia.
Ela não conseguia.
Algo havia mudado.
Algo que não podia mais ser ignorado.
Camila estava em pé diante da janela panorâmica, observando a cidade abaixo. O reflexo dela no vidro mostrava um rosto controlado, mas os olhos estavam diferentes.
Mais frios.
Mais atentos.
E, pela primeira vez, inseguros.
“Ela não morreu…”, ela sussurrou para si mesma.
A frase não parecia uma dúvida.
Parecia uma confirmação que ela não queria aceitar.
Na mesa atrás dela, havia um dossiê aberto.
Relatórios antigos.
Fotos do hospital.
Registros internos da morte de Isabela Monteiro Vasconcelos.
Mas algo estava errado.
As inconsistências estavam aumentando.
E isso significava apenas uma coisa.
Alguém estava mexendo no passado.
Camila respirou fundo e pegou o celular.
“Quero um contato agora”, disse ao telefone.
“Quem?”, perguntou uma voz masculina.
“Alguém que não faz perguntas. Apenas resolve problemas.”
Silêncio do outro lado.
“Entendido.”
Na manhã seguinte, no subsolo do Grupo Monteiro, Helena Duarte continuava seu trabalho como se nada tivesse acontecido.
Mas algo nela já não era o mesmo.
Ela sentia olhares.
Pequenos atrasos nos passos das pessoas ao redor.
Uma sensação constante de estar sendo medida.
Observada.
Enquanto limpava um corredor lateral, Helena percebeu um homem novo no prédio.
Não era funcionário.
Não usava uniforme.
Estava fora de lugar.
Ele fingia olhar o celular, mas seus olhos estavam nela.
Helena parou por um segundo.
E continuou trabalhando.
Mas agora… com atenção dobrada.
No andar superior, Camila estava em reunião com um homem desconhecido.
Traje escuro.
Expressão neutra.
Nenhuma identificação visível.
“Você tem certeza do que eu estou pedindo?”, ele perguntou.
Camila respondeu sem hesitar:
“Não quero certeza. Quero resultado.”
O homem abriu uma pasta.
“E qual é o alvo?”
Camila ficou em silêncio por um segundo.
E então disse:
“Helena Duarte.”
O homem levantou a sobrancelha.
“Funcionária de limpeza?”
Camila respondeu com frieza:
“Não subestime o que você não entende.”
No mesmo instante, Helena estava organizando materiais em um depósito quando ouviu passos atrás dela.
Ela não virou imediatamente.
Sentiu.
E isso foi suficiente.
“Você trabalha aqui há quanto tempo?”, perguntou uma voz masculina.
Helena virou.
Era o homem que ela tinha visto antes.
Agora mais próximo.
Mais direto.
“Pouco tempo”, respondeu ela.
Ele sorriu levemente.
“Interessante.”
Helena não respondeu.
Mas algo dentro dela já estava em alerta.
Mais tarde, no sistema de segurança interno do prédio, Camila observava as câmeras.
Helena aparecia em diferentes corredores.
Movimento normal.
Rotina comum.
Nada suspeito.
Mas Camila não estava olhando o óbvio.
Ela estava procurando padrões.
“Mostre os últimos três dias dela”, ordenou Camila.
O operador obedeceu.
As imagens mudaram.
Helena caminhando.
Helena trabalhando.
Helena observando.
Camila se inclinou.
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“Pause.”
A imagem congelou.
Helena estava parada por uma fração de segundo olhando diretamente para uma câmera.
Como se soubesse.
Como se estivesse respondendo.
Camila fechou os olhos por um instante.
“Ela sabe que está sendo observada”, murmurou.
Naquele momento, Camila tomou a decisão final.
“Vamos acelerar isso”, disse ela ao telefone.
“Quer que seja hoje?”, perguntou a voz.
“Quero que pareça acidente.”
Silêncio.
“Entendido.”
No subsolo, Helena terminava seu turno quando foi chamada pelo supervisor.
“Você vai ficar responsável por uma área nova amanhã”, ele disse.
“Qual área?”, perguntou ela.
Ele hesitou.
“Setor antigo. Arquivos e materiais pessoais da família.”
Helena franziu levemente a testa.
“Família?”
O supervisor assentiu.
“Ordem direta da administração.”
Helena não respondeu.
Mas algo naquela informação ficou preso nela.
Naquela noite, Rafael Monteiro Vasconcelos estava sozinho em seu escritório.
Os relatórios da empresa estavam abertos, mas ele não estava lendo.
Estava olhando para uma única coisa.
O nome no sistema interno.
Helena Duarte.
Ele ampliou o perfil.
Poucas informações.
Sem histórico claro.
Sem origem definida.
E mesmo assim…
A sensação persistia.
“Isso não faz sentido…”, ele murmurou.
Ele fechou o laptop.
Mas não conseguiu ignorar.
Enquanto isso, Camila descia pessoalmente até o andar do subsolo.
Não era comum ela fazer isso.
Mas agora era necessário.
Ela caminhava com passos firmes pelo corredor até encontrar o supervisor.
“Quero acesso ao setor antigo agora”, disse ela.
O supervisor ficou desconfortável.
“Isso já foi autorizado?”
Camila respondeu sem piscar:
“Agora foi.”
O supervisor hesitou… e cedeu.
Helena estava sozinha no corredor quando viu Camila se aproximando.
Não havia sorriso.
Não havia simpatia.
Apenas controle.
“Você”, disse Camila, olhando diretamente para ela.
Helena respondeu:
“Sim, senhora.”
Camila aproximou-se mais um passo.
“Você vai limpar o setor antigo amanhã.”
Helena assentiu.
“Entendido.”
Camila observou o rosto dela.
Por alguns segundos longos demais.
Como se estivesse procurando algo.
Uma reação.
Um erro.
Qualquer coisa.
Mas não encontrou.
“Cuidado lá dentro”, disse Camila finalmente.
E virou-se para sair.
Helena ficou parada.
Mas algo na frase… não parecia aviso.
Parecia ameaça.
Naquela mesma noite, o homem contratado por Camila seguia Helena discretamente pelas ruas do centro de São Paulo.
Ela não percebia.
Ou fingia não perceber.
Ele pegou o celular e enviou uma mensagem:
“Confirmada. Está sob vigilância.”
Helena entrou em uma rua mais vazia.
O vento mudou.
Ela parou por um segundo.
E então virou levemente o rosto.
Como se tivesse sentido algo atrás dela.
Mas continuou andando.
A câmera de segurança de um prédio próximo registrou a cena.
Uma mulher caminhando sozinha.
E uma sombra a poucos metros atrás.
Helena não olhou para trás.
Mas seus dedos se fecharam lentamente.
Como se ela já soubesse.
E naquele instante…
o perseguidor também percebeu algo estranho.
Ela não estava fugindo.
Ela estava esperando.
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