"A MENINA QUE NUNCA EXISTIU" PARTE 9
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Naquela madrugada, São Paulo parecia suspensa.
Não havia movimento real na cidade.
Apenas sistemas trabalhando em silêncio.
Na Mansão Vasconcelos, Eduardo Vasconcelos estava diante de três telas abertas simultaneamente.
Os olhos estavam cansados.
Mas a mente não conseguia parar.
Na tela central, um novo padrão havia surgido.
Não era um hospital.
Não era uma empresa.
Era algo entre os dois.
“Rede integrada de dados clínicos… compartilhamento interinstitucional…”, ele leu em voz baixa.
Eduardo franziu a testa.
“Isso não existe no sistema público…”
Ao lado dele, o médico da família, Dr. Henrique Lacerda, estava pálido.
“Senhor… isso não deveria estar acessível a você.”
Eduardo virou o rosto.
“Por quê?”
O médico hesitou.
“Porque isso não é um sistema aberto.”
Silêncio.
“Então o que é?”, Eduardo insistiu.
O médico respirou fundo.
“É um consórcio fechado entre instituições privadas.”
Eduardo estreitou os olhos.
“Quais instituições?”
O médico não respondeu imediatamente.
Depois disse:
“Hospital Santa Clara é apenas a interface visível.”
No mesmo momento, no Grupo Vasconcelos, o clima havia desmoronado.
Otávio Vasconcelos estava cercado por jornalistas e relatórios de crise.
“Há vazamentos sobre o Santa Clara”, disse um assessor.
Otávio não demonstrou surpresa.
“Claro que há.”
Ele pegou um tablet.
“Isso sempre acontece quando o sistema começa a falhar.”
Um jornalista perguntou de fora da sala:
“O Grupo Vasconcelos está envolvido em experimentos médicos?”
Otávio respondeu sem hesitar:
“Não estamos envolvidos em nada ilegal.”
Pausa.
“Mas estamos envolvidos em inovação.”
Na rua, Camila Braga caminhava rapidamente até um carro estacionado.
Ela parecia tensa.
Quase paranoica.
Eduardo havia pedido para encontrá-la.
E ela sabia que não era por acaso.
Quando entrou no carro, Eduardo já estava lá.
“Você sabia disso?”, ele perguntou direto.
Camila ficou em silêncio por um segundo.
Depois respondeu:
“Depende do que você descobriu.”
Eduardo mostrou a tela.
“Essa rede.”
Camila fechou os olhos por um instante.
“Você não deveria ter acesso a isso.”
Eduardo se inclinou.
“Então confirma.”
Ela respirou fundo.
“Sim.”
Silêncio pesado.
“Você é parte disso?”, ele perguntou.
Camila hesitou.
E isso respondeu antes das palavras.
“Eu mantenho parte da infraestrutura”, ela disse finalmente.
Eduardo ficou imóvel.
“Você sabia sobre crianças?”
Camila desviou o olhar.
“Eu sabia sobre dados.”
No mesmo instante, na Mansão Vasconcelos, Sofia estava sentada no chão da sala.
Mas algo havia mudado.
Ela não desenhava mais.
Ela apenas observava o vazio.
De repente, levantou.
Caminhou até o corredor.
E parou.
Como se escutasse algo vindo de dentro da casa.
No carro, Eduardo pressionou Camila.
“Essa rede… serve para quê exatamente?”
Camila respondeu baixo:
“Controle de resposta emocional.”
Eduardo franziu a testa.
“Explique.”
“Eles não tratam apenas crianças”, ela disse.
“Eles monitoram padrões de comportamento emocional em tempo real.”
Eduardo ficou imóvel.
“E Sofia?”
Camila hesitou.
“Ela é um caso ativo.”
Na mansão, Sofia colocou a mão na parede.
E fechou os olhos.
Por um instante, pareceu ouvir algo que ninguém mais ouvia.
No carro, Eduardo sentiu algo se quebrar internamente.
“Você está dizendo que minha filha foi usada?”
Camila não respondeu diretamente.
“Ela foi observada.”
Naquele momento, os sistemas internos do Grupo Vasconcelos começaram a emitir alertas simultâneos.
“Vazamento de reputação detectado.”
“Dados clínicos expostos.”
“Conexão com Santa Clara ativa em mídia externa.”
Na sala de crise, Otávio observava tudo com calma.
“Eles descobriram cedo demais”, ele disse.
Um assessor perguntou:
“Vamos negar?”
Otávio balançou a cabeça.
“Negar não funciona mais.”
Pausa.
“Agora é contenção de narrativa.”
No carro, Eduardo se levantou.
“Eu quero tudo. Agora.”
Camila olhou para ele.
“Se você ver tudo… não tem como voltar atrás.”
Eduardo respondeu seco:
“Eu já não tenho mais para onde voltar.”
Na Mansão Vasconcelos, Sofia abriu os olhos de repente.
E disse algo.
Pela primeira vez desde o início de tudo.
Uma palavra completa.
Baixa.
Frágil.
Mas clara:
“Hospital…”
Eduardo ouviu a palavra ao mesmo tempo no carro.
E congelou.
Camila empalideceu.
“Ela falou…”
Eduardo ficou imóvel.
“Repete isso.”
Na mansão, Sofia repetiu.
Mais forte.
“Hospital.”
E então algo inesperado aconteceu.
Ela olhou diretamente para um ponto específico da casa.
E completou, com esforço:
“Santa Clara…”
Silêncio absoluto.
No sistema da rede médica integrada, uma nova entrada foi criada automaticamente.
“Paciente conectada: Sofia Vasconcelos”
Status:
“RECONHECIMENTO VERBAL INICIADO”
Camila sussurrou:
“Isso nunca aconteceu antes…”
Eduardo não respondeu.
Porque naquele momento, ele entendeu algo ainda pior.
Sofia não estava apenas reagindo.
Ela estava acessando.
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