"A MENINA QUE NUNCA EXISTIU" PARTE 7
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O céu sobre São Paulo estava pesado naquela tarde, como se a cidade inteira tivesse sido coberta por uma camada de poeira emocional.
No centro rico de Alphaville, tudo ainda parecia controlado.
Mas no Jardim Ângela, o mundo funcionava de outra forma.
Lá, nada era controlado.
Lá, tudo sobrevivia.
Téo Ribeiro caminhava na frente, com passos firmes, mas silenciosos.
Atrás dele vinha Eduardo Vasconcelos, deslocado como nunca esteve em toda a sua vida.
O contraste entre os dois não era apenas social.
Era quase de realidade.
Eduardo olhou ao redor.
“Você mora aqui mesmo?”, ele perguntou, tentando esconder o desconforto.
Téo não respondeu imediatamente.
“Eu sobrevivo aqui”, disse depois.
As ruas eram estreitas, com fios elétricos expostos, paredes marcadas por anos de chuva e abandono.
Crianças passavam correndo entre becos.
Homens observavam de longe.
Nada ali ignorava estranhos.
“Por que me trouxe aqui?”, Eduardo perguntou.
Téo parou.
“Porque você quer respostas.”
Ele continuou andando.
“E aqui é onde elas começam.”
No alto de um morro, eles chegaram a uma casa simples de alvenaria.
Téo abriu a porta.
“Entre.”
Eduardo hesitou.
Mas entrou.
O interior era pequeno, mas organizado.
Não havia luxo.
Mas havia memória.
Téo foi até uma gaveta.
E retirou uma caixa metálica velha.
Colocou sobre a mesa.
“Isso era da minha mãe”, ele disse.
Eduardo ficou atento.
Téo abriu a caixa.
Dentro havia documentos antigos, crachás hospitalares e folhas impressas.
O nome estampado em vários deles:
Luciana Ribeiro
Eduardo franziu a testa.
“Ela trabalhava no Santa Clara?”
Téo assentiu.
“Ela não só trabalhava lá”, ele disse.
“Ela limpava o que eles não queriam que ninguém visse.”
Eduardo ficou em silêncio.
Téo pegou um dos papéis.
“Isso aqui não é registro médico comum.”
Ele colocou na mesa.
Era um relatório parcialmente rasgado.
Palavras visíveis:
“protocolo de resposta infantil… estímulo emocional induzido… reatividade controlada…”
Eduardo leu em silêncio.
“Isso é…”
Ele parou.
“Experimento”, Téo completou.
Eduardo levantou os olhos.
“Você está dizendo que sua mãe participou disso?”
Téo respirou fundo.
“Ela descobriu isso.”
Silêncio.
Do outro lado da cidade, na sede do Grupo Vasconcelos, a tensão aumentava.
Otávio Vasconcelos estava agora dentro da sala executiva principal.
Ele ocupava a cadeira de liderança sem cerimônia.
“Os danos ao sistema Santa Clara foram controlados?”, ele perguntou.
Um assessor respondeu:
“Parcialmente. Mas houve perda de registros críticos.”
Otávio apertou os dedos.
“Perda ou fuga?”
Ninguém respondeu.
Camila Braga entrou na sala nesse momento.
Seu rosto não escondia o conflito interno.
“Precisamos falar sobre o menino”, ela disse.
Otávio a encarou.
“Qual menino?”
“Mateus Ribeiro.”
A sala ficou silenciosa.
“Ele não é apenas um caso social”, Camila continuou.
“Ele está conectado ao sistema.”
Otávio franziu a testa.
“Explique.”
Camila respirou fundo.
“Ele aparece nos mesmos padrões de acesso que Sofia Vasconcelos.”
Um dos diretores levantou a voz:
“Isso é impossível.”
Camila respondeu firme:
“Não é impossível. É coordenado.”
No Jardim Ângela, Téo voltou a abrir a caixa.
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Eduardo observava cada movimento.
“Tem mais uma coisa”, Téo disse.
Ele retirou uma foto antiga.
Mostrava sua mãe em frente a um prédio hospitalar.
Atrás dela, uma placa parcialmente visível:
Hospital Infantil Santa Clara
Eduardo ficou imóvel.
“Essa foto foi tirada quando?”, ele perguntou.
Téo respondeu:
“Dois dias antes dela desaparecer.”
Silêncio pesado.
“Ela disse que tinha encontrado algo grande”, Téo continuou.
“E que ia denunciar.”
Eduardo respirou fundo.
“E depois?”
Téo olhou diretamente para ele.
“Depois, o nome dela sumiu de tudo.”
Naquele momento, um carro preto estacionou a alguns metros da casa.
Vidros escuros.
Motor ligado.
Eduardo percebeu primeiro.
“Tem alguém lá fora.”
Téo também viu.
Mas não reagiu.
“Você trouxe alguém com você?”, Téo perguntou.
Eduardo negou.
“Não.”
O silêncio mudou de densidade.
No carro, uma pessoa observava.
Sem sair.
Sem falar.
Apenas registrando.
Dentro da casa, Eduardo se aproximou da janela.
“Isso é vigilância.”
Téo não parecia surpreso.
“Eles sempre vêm quando alguém lembra demais.”
Eduardo virou o rosto.
“Quem são ‘eles’?”
Téo respondeu sem hesitar:
“Os que apagam pessoas.”
Na sede do grupo, Camila recebeu um alerta automático.
“LOCALIZAÇÃO DO ATIVO RIBEIRO CONFIRMADA.”
Ela empalideceu.
“Eles já rastrearam ele…”, ela murmurou.
Otávio ouviu.
“Então é hora de encerrar isso.”
No Jardim Ângela, o carro ainda estava parado.
Téo observava.
Eduardo também.
De repente, o motor desligou.
Silêncio total.
E então, o carro se moveu lentamente.
Não foi embora.
Apenas reposicionou.
Como alguém esperando algo.
Téo fechou a caixa metálica.
“Agora você viu”, ele disse a Eduardo.
“Não é teoria.”
Eduardo não respondeu.
Ele apenas olhou para a rua.
E percebeu algo que não tinha notado antes.
O bairro inteiro parecia estar sendo observado.
De volta à cidade alta, Camila tentou acessar o sistema do hospital novamente.
Mas recebeu uma mensagem inesperada:
“ACESSO NEGADO – INTERFERÊNCIA LOCAL DETECTADA”
Ela congelou.
“Eles estão aqui também…”, ela murmurou.
No Jardim Ângela, Téo colocou a mão na maçaneta.
“Se eles estão aqui”, ele disse, “é porque a gente chegou perto demais.”
Eduardo respirou fundo.
“E agora?”
Téo abriu a porta.
E olhou para fora.
O carro continuava parado.
Mas agora havia algo diferente.
A porta traseira estava entreaberta.
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