"QUEM É ELE?" PARTE 6
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A noite em São Paulo sempre tinha um brilho estranho para quem vivia no topo da cidade. Luzes frias, carros blindados, edifícios que pareciam observar tudo em silêncio.
No último andar de um desses prédios na Avenida Faria Lima, Mariana Vasconcelos observava a cidade como se estivesse tentando decifrar uma ameaça invisível.
Ela não piscava há alguns segundos.
O celular em sua mão mostrava uma mensagem simples:
“Rafael sofreu um episódio médico. Está em observação.”
Mas Mariana não leu isso como preocupação.
Ela leu como alerta.
Ela se levantou imediatamente, ajustando o vestido de seda escura.
“Isso não é normal…” ela murmurou para si mesma.
Mariana conhecia Rafael melhor do que qualquer relatório dizia. Conhecia seus padrões, suas decisões frias, sua lógica impecável. Rafael não “desmaiava”. Rafael não “perdia controle”.
Algo estava errado.
E ela sentia isso antes de qualquer outra pessoa.
No carro a caminho do hospital, o motorista tentou falar algo.
“Senhora Mariana, o trânsito está…”
“Mais rápido,” ela interrompeu.
O tom não aceitava discussão.
Ela olhava pela janela, mas não via a cidade.
Via buracos.
Inconsistências.
Falhas no comportamento de Rafael nos últimos dias.
Ele havia mudado.
E ela odiava mudanças que não podia controlar.
Quando chegou ao Hospital Santa Lúcia, entrou sem esperar autorização completa.
Ela não pedia permissão.
Ela a assumia.
O corredor do hospital era branco demais, silencioso demais.
E isso a incomodou ainda mais.
“Quarto 17,” ela disse para a recepção.
Uma enfermeira hesitou.
“Senhora, ele está em observação…”
Mariana não esperou a frase terminar.
“Eu sou a noiva dele,” ela respondeu.
E continuou andando.
Quando abriu a porta do quarto, viu imediatamente três coisas:
Rafael sentado na cama.
Celeste ao lado dele.
E um médico com expressão rígida.
O equilíbrio da cena não era hospitalar.
Era político.
“Rafael,” Mariana disse imediatamente.
A voz dela trouxe ordem ao ambiente.
Rafael virou o rosto.
E por um segundo… ele pareceu confuso.
Isso foi o primeiro sinal que ela não gostou.
“Mariana…” ele respondeu devagar.
Ela entrou no quarto sem hesitar.
“Você deveria estar descansando. O que aconteceu aqui?”
Celeste se levantou na mesma hora.
“Ele está lembrando da própria vida,” ela disse.
Mariana olhou para ela como se estivesse olhando algo inconveniente.
“E quem é você?”
Celeste não recuou.
“Eu sou a mãe dele.”
O silêncio que seguiu foi imediato.
Mariana não reagiu com surpresa.
Ela reagiu com cálculo.
“Isso não é possível,” ela disse calmamente.
Rafael fechou os olhos por um segundo.
“É complicado…” ele murmurou.
Mariana se aproximou dele.
“Complicado não existe na sua vida, Rafael.”
Henrique Farias observava tudo em silêncio.
Mariana percebeu isso imediatamente.
E isso a irritou ainda mais.
“Doutor,” ela disse, virando-se para ele. “O que está acontecendo aqui?”
Henrique respondeu com calma controlada:
“Episódios de memória regressiva induzida por estresse.”
Mariana estreitou os olhos.
“Revertido como?”
Ele hesitou.
E isso foi suficiente.
Ela voltou o olhar para Celeste.
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“E você está fazendo o quê aqui exatamente?”
Celeste respondeu firme:
“Estou trazendo meu filho de volta.”
Mariana soltou uma pequena risada seca.
“Seu filho?”
Ela olhou para Rafael.
“Você está ouvindo isso?”
Rafael não respondeu.
Ele parecia dividido.
E isso era o que mais incomodava Mariana.
Ela respirou fundo.
E mudou completamente o tom.
Mais baixa.
Mais íntima.
“Rafael… olha pra mim.”
Ele olhou.
“Você confia em mim?”
Ele hesitou.
E essa hesitação foi como um corte.
Mariana percebeu.
Algo já tinha entrado na mente dele.
Algo externo.
Ela se virou rapidamente para Henrique.
“Quem deixou essa mulher entrar aqui?”
Henrique respondeu:
“Ela acompanha o paciente desde a infância dele.”
Mariana franziu a testa.
“Infância?”
Celeste deu um passo à frente.
“Ele não cresceu na sua família.”
Mariana a interrompeu imediatamente.
“Chega.”
O tom agora mudou.
Mais frio.
Mais dominante.
Ela pegou o celular e fez uma ligação curta.
“Removam qualquer acesso não autorizado ao paciente Rafael Vasconcelos,” ela disse.
Celeste reagiu imediatamente.
“Você não pode fazer isso.”
Mariana respondeu sem olhar:
“Eu posso fazer qualquer coisa que proteja a vida dele.”
Rafael levantou a mão.
“Parem.”
A voz dele saiu fraca, mas autoritária o suficiente para interromper o ambiente.
Todos olharam para ele.
“Eu preciso entender o que está acontecendo comigo,” ele disse.
Mariana imediatamente se aproximou.
“Você está sob estresse. Isso é tudo.”
Celeste respondeu ao mesmo tempo:
“Ele está recuperando a verdade.”
Os dois discursos colidiram no ar.
E Rafael fechou os olhos.
Mariana respirou fundo.
E mudou estratégia.
Ela não podia perder controle.
Não com ele nesse estado.
Ela tocou a mão dele.
“Rafael, você lembra de quem você é comigo.”
Ele abriu os olhos.
“Eu lembro…” ele disse baixo.
Celeste interrompeu:
“Você lembra do que te deixaram lembrar.”
Mariana virou o rosto lentamente para ela.
E pela primeira vez… perdeu a paciência.
“Você está manipulando ele.”
Celeste respondeu imediatamente:
“Você está escondendo ele de si mesmo.”
O ar ficou pesado.
Henrique deu um passo atrás discretamente.
Mariana se aproximou de Celeste.
“Eu vou ser direta,” ela disse. “Você não vai mais ter acesso a ele.”
Celeste não recuou.
“Você não pode impedir uma mãe.”
Mariana sorriu levemente.
Mas não havia humor ali.
“Houve um equívoco aqui,” ela disse.
“Ele não tem mãe.”
Rafael levantou o olhar imediatamente.
“Mariana…”
Ela percebeu que tinha ido longe demais.
Mas já era tarde.
Celeste deu um passo à frente.
“Você não sabe o que fizeram com ele.”
Mariana respondeu:
“Eu sei exatamente o que fizeram com ele.”
E então olhou diretamente para Rafael.
“Eu o salvei disso.”
Silêncio.
Rafael ficou imóvel.
“Salvar…” ele repetiu.
Mariana respirou fundo.
E decidiu o golpe final.
“Se você continuar ouvindo isso,” ela disse, olhando para Celeste, “você vai perder tudo o que construiu.”
Celeste respondeu com firmeza:
“Ele já perdeu tudo que realmente importava.”
Mariana congelou por um segundo.
E então fez algo inesperado.
Ela disse:
“Doutor Henrique, finalize o protocolo de estabilização.”
Henrique hesitou.
“Agora,” Mariana reforçou.
Rafael percebeu.
“Que protocolo?” ele perguntou.
Mariana olhou para ele com calma artificial.
“Você precisa descansar. Sua mente está fragmentada.”
Celeste avançou imediatamente.
“Eles vão apagar de novo!”
Rafael ficou em pé na cama.
“Apagar o quê?”
Mariana deu um passo à frente.
“Rafael, confia em mim.”
Mas pela primeira vez…
ele não respondeu imediatamente.
E isso foi suficiente.
O sistema do hospital emitiu um som.
As portas travaram automaticamente.
Celeste olhou em choque.
“Eles ativaram contenção…”
Mariana virou-se lentamente para o corredor.
E disse algo baixo:
“Não podemos perder ele agora.”
Rafael olhou ao redor.
E perguntou:
“Perder de quem?”
Ninguém respondeu.
E então, pelo vidro do quarto, várias sombras começaram a se aproximar no corredor.
Passos sincronizados.
Protocolos ativos.
Celeste sussurrou:
“Eles estão vindo para você.”
Mariana fechou os olhos por um segundo.
E disse:
“Para proteger você.”
Rafael ficou parado no centro do quarto.
Entre duas verdades.
E então a porta começou a destrancar lentamente.
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