"A Herdeira Perdida do Império de Santa Aurora" Capítulo 1
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O Baile da Lua de Prata iluminava o interior do Palácio Imperial de Santa Aurora como se o próprio céu tivesse descido sobre a terra.
Candelabros de cristal pendiam do teto alto, refletindo milhares de pontos dourados sobre o mármore branco do salão principal.
A orquestra tocava suavemente enquanto nobres, diplomatas e herdeiros das famílias mais poderosas do império giravam em danças perfeitas, como se o mundo ali dentro fosse intocável.
No centro de toda aquela perfeição estava ela.
Princesa Evelina Vasconcelos.
Alta, elegante, envolta em um vestido azul profundo bordado com fios de ouro. Seu olhar carregava a certeza de quem nunca foi contrariada.
Ela não apenas ocupava o salão.
Ela dominava o salão.
Ninguém ousava olhar diretamente nos olhos dela por muito tempo.
Ninguém, exceto uma jovem que caminhava discretamente entre as colunas do palácio, carregando uma cesta de rosas brancas recém-cortadas.
Seu nome era Lívia Soares.
Vestido simples de algodão claro. Mãos marcadas pelo trabalho. Cabelo preso de forma humilde, sem ornamentos.
Era filha do jardineiro do palácio.
E naquele mundo de ouro e silêncio, isso significava invisibilidade.
Enquanto atravessava o salão com cuidado, Lívia mantinha a cabeça baixa. Seu trabalho era simples: entregar as rosas para decoração das mesas reais antes da chegada do conselho imperial.
Ela não pertencia àquele mundo.
E todos sabiam disso.
Mas ela nunca reclamava.
Sua mãe sempre dizia que a dignidade não precisava de plateia.
Quando passou perto da pista de dança, uma leve vibração no chão fez uma das rosas escorregar de sua cesta.
A flor branca caiu lentamente.
Girou no ar.
E parou exatamente aos pés da princesa Evelina.
O salão pareceu congelar por um segundo.
Evelina olhou para baixo.
Depois para a jovem serva.
E então, lentamente, seu rosto se endureceu.
—“Você interrompeu a dança do império com sujeira?”
A voz dela cortou o ar como vidro.
Lívia levantou rapidamente a cabeça.
—“Perdão, Alteza. Foi um acidente.”
Mas o pedido não foi suficiente.
Evelina deu um passo à frente, observando-a como se fosse algo menor que o próprio chão.
—“Acidente é o que acontece com pessoas descuidadas. Servos descuidados.”
Alguns nobres próximos soltaram risos discretos.
Lívia sentiu o rosto arder.
Mas não respondeu.
A princesa então sorriu.
Um sorriso frio.
E no instante seguinte, moveu o pé com precisão.
A cesta de rosas foi atingida.
E explodiu no chão de mármore.
Flores brancas se espalharam por todos os lados, deslizando como neve suja sobre o brilho do palácio.
O salão inteiro silenciou.
Por um segundo, ninguém respirou.
Lívia ficou parada.
Depois caiu de joelhos.
Começou a recolher as rosas uma a uma.
Rápido.
Silencioso.
Humilhado.
Mas não chorou.
Suas mãos tremiam, mas sua expressão permanecia firme.
Evelina a observava com desprezo.
—“Olhem só… até os servos sabem o seu lugar quando são lembrados dele.”
Algumas risadas surgiram novamente entre os nobres.
Uma delas foi mais alta.
Outra mais cruel.
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Lívia apertou uma flor contra o peito.
Sua mãe sempre dizia:
“Não permita que tirem sua dignidade, mesmo quando tentarem tirar tudo mais.”
E ela tentava obedecer.
Mesmo agora.
Mesmo ali.
No alto do salão, atrás de uma cortina de veludo dourado, alguém observava tudo em silêncio.
Era a Rainha-Mãe Celeste Vasconcelos.
Sua expressão era neutra no início.
Quase distante.
Mas algo mudou quando seus olhos pousaram sobre Lívia.
A maneira como a jovem se movia.
A forma como segurava as flores com cuidado, como se cada pétala tivesse valor.
E então… algo brilhou.
Uma pequena luz dourada entre as flores espalhadas.
A Rainha-Mãe franziu o olhar.
—“O que é aquilo…?”
Ela deu um passo à frente.
No salão abaixo, ninguém percebeu sua presença ainda.
Lívia continuava recolhendo as rosas.
Quando terminou, juntou a última flor e se levantou lentamente.
Foi nesse momento que Evelina se aproximou novamente.
—“Você acha que isso está terminado?”
Lívia não respondeu.
Evelina inclinou levemente a cabeça.
—“Você deveria agradecer por ainda estar aqui.”
E então, com um movimento rápido e deliberado, ela empurrou a última rosa da mão de Lívia.
A flor caiu novamente no chão.
Evelina sorriu.
—“Recolha de novo. Talvez assim aprenda.”
O silêncio ficou pesado.
Lívia respirou fundo.
Abaixou-se novamente.
E começou a recolher.
Devagar.
Sem olhar para ninguém.
Mas enquanto isso acontecia, o olhar da Rainha-Mãe ficou completamente fixo em algo no pescoço da jovem.
Um objeto.
Um pequeno relicário dourado.
Seu coração parou por um instante.
A Rainha-Mãe segurou o corrimão da varanda com força.
—“Não…”
Sua voz saiu quase como um sussurro.
O salão continuava sem perceber o que estava prestes a acontecer.
Lívia terminou de juntar as flores e se levantou novamente.
E foi então que ela passou a mão atrás do cabelo para prendê-lo melhor.
O movimento foi simples.
Natural.
Inocente.
Mas suficiente.
Atrás de sua orelha, uma pequena marca apareceu sob a luz dos candelabros.
Uma marca em forma de meia-lua.
A Rainha-Mãe congelou.
Seus olhos se arregalaram lentamente.
A respiração ficou irregular.
As mãos começaram a tremer.
Porque ela conhecia aquela marca.
Ela havia visto exatamente a mesma marca há dezoito anos.
Na noite em que o palácio queimou.
Na noite em que a princesa herdeira desapareceu.
O silêncio dentro da varanda se tornou absoluto.
A Rainha-Mãe desceu um degrau.
Depois outro.
Como se fosse puxada por uma força impossível de resistir.
No salão, ninguém entendia ainda.
Lívia apenas segurava as rosas contra o peito.
Evelina, por outro lado, percebeu a mudança no ambiente.
Algo havia mudado.
Mas ela não sabia o quê.
Até ouvir o som.
Passos lentos.
Pesados.
Descendo a escadaria imperial.
A Rainha-Mãe apareceu no salão principal.
E todas as conversas morreram imediatamente.
A música parou.
Os convidados se viraram.
O tempo pareceu parar junto.
Ela caminhou diretamente em direção a Lívia.
Cada passo ecoava como julgamento.
Evelina deu um leve passo para trás, confusa.
—“Avó…?”
Mas ninguém respondeu.
A Rainha-Mãe não olhava para mais ninguém.
Apenas para Lívia.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
Ela parou na frente da jovem.
Lívia, confusa, deu um pequeno passo para trás.
—“Vossa Majestade…?”
A Rainha-Mãe ergueu a mão lentamente.
Tocou o relicário no pescoço da jovem.
E nesse instante, suas pernas falharam.
Ela caiu de joelhos.
No meio do salão imperial.
Diante de todos.
E disse com a voz quebrada:
—“Minha neta…”
O salão inteiro entrou em colapso de silêncio.
Evelina empalideceu completamente.
Como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés.
Porque naquele exato momento…
a verdade que o império havia escondido por dezoito anos…
acabava de voltar.
E ninguém ali estava preparado para o que viria depois.
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