"A Menina Que Me Chamou de Mãe" Capítulo 7
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Clara voltou para a Mansão Vasconcelos antes do amanhecer.
O céu de São Paulo ainda estava escuro.
As ruas molhadas refletiam os faróis dos carros como se a cidade inteira escondesse segredos.
Ela entrou pelo portão principal com a foto apertada contra o peito.
As mãos tremiam.
Mas seus olhos não tinham mais medo.
Tinham fogo.
Adriano estava no escritório.
Não havia dormido.
Daniel Medeiros também estava lá, cercado por pastas, telas e documentos.
Quando Clara entrou, os dois se levantaram ao mesmo tempo.
Adriano percebeu imediatamente.
Algo havia acontecido.
"Clara?"
Ela não respondeu.
Apenas caminhou até a mesa.
Devagar.
Como quem carrega uma sentença.
Então colocou a fotografia diante dele.
Adriano olhou.
E todo o sangue desapareceu de seu rosto.
Viviane.
No corredor neonatal do Hospital Santa Catarina.
Com um bebê recém-nascido nos braços.
Não havia dúvida.
Era ela.
A mulher que ele havia amado.
A mulher que havia enterrado.
A mulher que ele ainda tentava defender em algum canto impossível da própria memória.
Segurando Lina.
No dia em que Clara acreditou ter perdido a filha.
Adriano ficou imóvel.
Por tanto tempo que Daniel precisou chamá-lo.
"Adriano."
Ele não respondeu.
A mão dele tocou a borda da fotografia.
Como se a imagem queimasse.
"Não."
A palavra saiu baixa.
Quase infantil.
Clara sentiu lágrimas nos olhos.
Mas dessa vez não eram só de dor.
Eram de raiva também.
"Ela estava lá."
Adriano fechou os olhos.
"Não."
"Ela levou minha filha."
A voz de Clara tremeu.
"Ela saiu do hospital com a minha filha nos braços."
Adriano recuou um passo.
Como se tivesse recebido um golpe no peito.
"Eu não sabia."
Clara encarou ele.
"Eu acredito."
Ele abriu os olhos.
Surpreso.
Ela continuou.
"Mas isso não muda o que aconteceu."
A frase atingiu Adriano com força.
Porque era verdade.
Sua ignorância não devolvia os anos roubados.
Sua dor não apagava a dor de Clara.
Seu amor por Lina não anulava o crime.
Adriano sentou devagar.
O homem que mandava em hotéis, advogados e empresas parecia pequeno diante daquela foto.
"Viviane não apenas mentiu para mim."
A voz dele saiu rouca.
"Ela destruiu a sua vida."
Clara apertou os lábios.
"Sim."
Adriano passou as mãos pelo rosto.
E pela primeira vez desde que Clara o conhecera...
Ele desabou.
Não com gritos.
Não com violência.
Mas com um silêncio quebrado.
Lágrimas caíram dos olhos dele.
Poucas.
Contidas.
Mas reais.
"Eu trouxe sua filha para minha casa."
Clara ficou imóvel.
"Eu amei sua filha enquanto você chorava por ela."
Adriano respirou fundo.
"Eu li histórias para ela dormir enquanto você achava que ela estava morta."
A voz dele falhou.
"Meu Deus."
Daniel baixou os olhos.
Clara não soube o que dizer.
Porque aquela culpa não era simples.
Era feia.
Era injusta.
Era humana.
Adriano levantou-se de repente.
O rosto ainda molhado.
Mas agora endurecido.
"Chega."
Daniel ergueu os olhos.
"O que vai fazer?"
"Descobrir tudo."
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Adriano apontou para a fotografia.
"Não foi só Viviane."
Clara olhou para ele.
"Como sabe?"
"Porque Viviane podia ser fria."
Ele engoliu seco.
"Mas ela não teria acesso sozinha a um bebê recém-nascido dentro de um hospital."
O silêncio confirmou a lógica.
Daniel se aproximou da mesa.
"Precisamos cruzar nomes."
"Faça."
"Hospital Santa Catarina, Instituto Éden, Viviane Vasconcelos, Roberto Azevedo e o juiz."
Adriano assentiu.
"E a fundação."
Clara franziu a testa.
"Que fundação?"
Daniel respondeu antes dele.
"Fundação Mãos de Luz."
Clara nunca tinha ouvido aquele nome.
Mas Adriano sim.
E sua expressão já dizia que aquilo era grave.
"Era a fundação beneficente da Viviane."
Daniel abriu arquivos antigos no notebook.
"Oficialmente, apoiava mães em vulnerabilidade, crianças sem registro e programas de adoção responsável."
Clara soltou uma risada seca.
"Que bonito."
A ironia cortou o ar.
Daniel continuou.
"Mas havia repasses da fundação para o Instituto Éden."
Adriano fechou a mão.
"Valores?"
"Altos."
Daniel digitou rapidamente.
"Muito altos."
Clara sentiu o estômago embrulhar.
"A fundação que dizia ajudar mães estava ajudando a roubar filhos delas?"
Daniel não respondeu.
Porque não precisava.
Adriano caminhava pelo escritório.
Como um animal ferido.
"Quem assinava pela fundação depois da morte da Viviane?"
Daniel pesquisou.
Então ficou sério.
"Renata Vasconcelos."
Clara lembrou imediatamente da mulher elegante que a acusara de ser instável.
A irmã de Viviane.
A mulher que queria afastá-la de Lina.
"Ela sabia."
Adriano parou.
"Talvez."
Clara o encarou.
"Não, Adriano. Ela sabia."
O uso do nome dele fez a sala ficar mais íntima.
Mais tensa.
Mais verdadeira.
Adriano não corrigiu.
Apenas assentiu lentamente.
Daniel abriu outro documento.
"Tem mais uma ligação."
Adriano se virou.
"Qual?"
"O Hospital Santa Catarina recebeu doações da Fundação Mãos de Luz no mesmo ano do nascimento de Lina."
Clara fechou os olhos.
"Quanto?"
Daniel hesitou.
"Quatro milhões e meio."
O silêncio caiu como pedra.
Quatro milhões e meio.
Para um hospital.
Dois milhões para o Instituto Éden.
Advogado de Viviane.
Laudos falsos.
Juiz ligado ao instituto.
Aquilo não era adoção irregular.
Era uma rede.
Clara sentiu vontade de gritar.
Mas segurou.
Porque agora precisava de força.
Não só de dor.
Daniel continuou investigando.
"Há um detalhe sobre Viviane."
Adriano ergueu o rosto.
"O quê?"
O advogado parecia desconfortável.
"Encontrei prontuários médicos particulares."
"De Viviane?"
"Sim."
Adriano endureceu.
"E?"
Daniel demorou.
"Ela fez tratamentos de fertilidade por quase oito anos."
Adriano ficou imóvel.
Clara olhou para ele.
"Você sabia?"
Ele balançou a cabeça.
"Não."
Daniel prosseguiu.
"Os relatórios indicam falência ovariana precoce."
O silêncio pesou.
"Ela não podia engravidar?"
Daniel respirou fundo.
"A chance era quase nula."
Adriano apoiou uma mão na mesa.
Como se precisasse se segurar.
Viviane nunca lhe dissera aquilo.
Nunca.
Durante anos, ela havia repetido que não queria filhos.
Que maternidade era uma prisão.
Que crianças destruíam casamentos.
Mas talvez a verdade fosse outra.
Talvez ela dissesse que não queria porque não podia.
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E talvez, quando viu uma oportunidade de comprar a maternidade perfeita...
Ela não hesitou.
Clara apertou a foto contra a mesa.
"Ela escolheu minha filha."
A frase ficou suspensa.
Horrível.
Possível.
Adriano olhou para Clara.
"Por quê?"
Clara respondeu sem pensar.
"Porque Lina era saudável."
A sala inteira ficou em silêncio.
"Porque eu era pobre."
Sua voz tremia.
"Porque ela sabia que ninguém ia procurar por mim."
Adriano fechou os olhos.
Daniel não conseguiu sustentar o olhar.
Naquele instante, o telefone de Adriano tocou.
Ele atendeu imediatamente.
"Sim."
Seu rosto mudou.
"Quando?"
Clara sentiu o coração apertar.
"Como assim febre?"
Ela levantou-se.
"Lina?"
Adriano ouviu por mais alguns segundos.
Depois desligou.
Seu rosto estava tenso.
"O Centro Monte Azul ligou."
Clara quase caiu.
"O que aconteceu?"
"Lina está com febre alta."
Clara levou a mão à boca.
"Eles chamaram médico?"
"Chamaram."
"Eu vou para lá."
Daniel se adiantou.
"Clara, a decisão judicial proíbe contato."
Ela virou para ele com os olhos cheios de lágrimas.
"Minha filha está doente."
"Eu sei."
"Então eu vou."
Adriano pegou o paletó.
"Vamos."
Daniel arregalou os olhos.
"Adriano, isso pode piorar sua situação no processo."
Adriano parou na porta.
"Minha filha está doente."
A voz dele saiu firme.
"Processo nenhum vai me impedir de vê-la."
Clara olhou para ele.
Pela primeira vez, não como inimigo.
Nem como culpado.
Mas como alguém que também amava Lina.
Os dois saíram juntos.
Sem esperar autorização.
Sem pedir permissão.
Pela primeira vez, Clara e Adriano caminhavam para o mesmo lado.
O Centro de Proteção Infantil Monte Azul ficava numa rua silenciosa da Zona Norte.
O prédio era antigo.
Pintura descascada.
Portões altos.
Janelas gradeadas.
Clara sentiu no peito uma dor insuportável.
Lina estava ali.
Sozinha.
Doente.
Longe dos dois.
Na recepção, tentaram barrá-los.
"Os senhores não podem entrar."
Adriano mostrou documentos.
"Sou o pai legal dela."
A funcionária hesitou.
Clara falou em seguida.
"Eu sou a mãe."
A palavra saiu firme.
A funcionária ficou desconcertada.
Daniel, que chegara logo atrás, pressionou com ordens judiciais e argumentos suficientes para abrir a porta.
Eles foram levados a uma pequena enfermaria.
E Clara quase desabou ao ver Lina.
A menina estava deitada.
Pálida.
Suada.
Com os cabelos grudados na testa.
Os olhos entreabertos.
"Mamãe..."
Clara correu até ela.
Segurou sua mão.
"Eu estou aqui, meu amor."
Adriano ficou do outro lado da cama.
"Lina, papai está aqui."
A menina respirava com dificuldade.
Mas apertou os dedos dos dois.
Como fizera no salão.
Como se precisasse dos dois para continuar.
Clara beijou sua testa quente.
"Por que ela ficou assim?"
A enfermeira do centro desviou o olhar.
"Ela chorou muito desde que chegou."
Adriano fechou a mandíbula.
"Chorou por quanto tempo?"
A mulher não respondeu.
Clara sentiu a raiva subir.
"Por quanto tempo?"
"Quase a noite inteira."
Clara fechou os olhos.
Dor.
Culpa.
Ódio.
Tudo junto.
Lina se mexeu.
Parecia sonhar.
Ou delirar.
Sua voz saiu fraca.
Quase inaudível.
"Ela disse..."
Clara se inclinou.
"O quê, meu amor?"
Lina tremia de febre.
"A moça má..."
Adriano ficou imóvel.
Clara segurou sua mão com mais força.
"Que moça?"
A menina fechou os olhos.
E sussurrou:
"A moça má disse que minha mãe nunca ia voltar."
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