"A Menina Que Me Chamou de Mãe" Capítulo 3
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"Essa assinatura não é minha!"
O grito de Clara ecoou pelo salão privativo.
Tão alto.
Tão desesperado.
Tão verdadeiro.
Todos ficaram imóveis.
Os olhos dela permaneciam fixos na tela do tablet.
Naquela assinatura.
Naquele nome.
Naquela mentira.
Seu coração parecia prestes a explodir.
"Não fui eu."
A voz saiu trêmula.
"Eu nunca assinei isso."
Daniel Medeiros engoliu seco.
Adriano observava Clara atentamente.
Ela não parecia uma mulher tentando escapar de uma culpa.
Parecia uma mulher sendo obrigada a reviver um pesadelo.
Clara apontou para a tela.
"Olha isso."
Suas lágrimas caíam sem parar.
"Nem parece minha letra."
Daniel aproximou o tablet.
Ela tinha razão.
O nome estava lá.
Mas a assinatura possuía traços duros.
Pesados.
Artificialmente perfeitos.
Nada parecidos com os registros que Clara ainda carregava em documentos pessoais.
Adriano estendeu a mão.
"Me dê isso."
Daniel entregou o aparelho.
O bilionário analisou o documento inteiro.
Página por página.
Linha por linha.
Quanto mais lia...
Mais sombrio ficava.
Lina continuava agarrada à perna de Clara.
Como se sentisse que algo terrível estava acontecendo.
"Adriano?"
Daniel falou cautelosamente.
O empresário não respondeu.
Continuou lendo.
Então chegou ao laudo psicológico.
Seu rosto endureceu.
"O que é isso?"
Daniel olhou para a tela.
E perdeu a cor.
Clara sentiu o estômago afundar.
"O quê?"
Adriano virou o tablet.
Havia um relatório médico anexado.
Um documento oficial.
Com carimbo.
Assinatura.
E papel timbrado.
Segundo aquele relatório, Clara sofria de instabilidade emocional severa após o parto.
O texto afirmava que ela apresentava sinais de depressão profunda.
Comportamentos impulsivos.
Crises emocionais.
E incapacidade para cuidar da criança.
Clara arregalou os olhos.
"Isso é mentira."
Ela deu um passo para trás.
"Mentira."
As palavras pareciam pequenas demais diante da monstruosidade daquele papel.
Daniel aproximou a imagem.
"Existe até parecer médico."
Clara quase caiu.
"Eu nunca vi esse documento."
Sua respiração ficou irregular.
"Eu nunca fui avaliada."
Adriano fechou a mandíbula.
"Quem assinou esse laudo?"
Daniel ampliou a assinatura.
O nome apareceu na tela.
Dra. Helena Ribeiro.
Clara congelou.
O nome bateu forte em sua memória.
"Foi ela."
Todos olharam para Clara.
Ela começou a tremer.
"Foi ela."
"Quem?"
"A médica."
A voz de Clara falhou.
"A médica que mandava os seguranças me expulsarem."
O salão inteiro ficou em silêncio.
Daniel pesquisou rapidamente.
Segundos depois, sua expressão mudou.
"O problema é maior."
Adriano ergueu os olhos.
"Explique."
Daniel respirou fundo.
"A Dra. Helena Ribeiro não era uma médica qualquer."
"Então quem era?"
Daniel girou a tela.
Uma fotografia apareceu.
Uma mulher elegante.
Sorriso frio.
Jaleco impecável.
Clara reconheceu imediatamente.
"É ela."
Daniel assentiu.
"Na época, ela era coordenadora clínica do Hospital Santa Catarina."
Adriano cruzou os braços.
"Na época?"
"Hoje ela ocupa outro cargo."
"Onde?"
Daniel hesitou.
"O marido dela é sócio do diretor-geral do hospital."
O silêncio ficou ainda mais pesado.
Porque aquilo deixava de parecer coincidência.
E começava a parecer esquema.
Lina encostou a cabeça em Clara.
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A menina parecia cansada.
Confusa.
Mas ainda se recusava a se afastar.
Adriano observou aquela cena.
Algo dentro dele estava mudando.
Nos últimos dois anos, ele acreditara em documentos.
Em contratos.
Em processos legais.
Agora estava olhando para uma criança agarrada à mulher que supostamente a havia abandonado.
E nada parecia fazer sentido.
"Continue."
Daniel abriu novos arquivos.
Quanto mais pesquisava, pior ficava.
Havia autorizações.
Laudos.
Termos.
Declarações.
Tudo perfeito.
Perfeito demais.
Como se alguém tivesse construído uma história inteira.
Uma história falsa.
Mas extremamente convincente.
Clara começou a rir.
Uma risada dolorosa.
"Eu era pobre."
Todos olharam para ela.
"Era só isso."
Sua voz estava cheia de amargura.
"Uma mulher pobre."
Ela enxugou as lágrimas.
"Eles sabiam que ninguém iria acreditar em mim."
Ninguém respondeu.
Porque todos sabiam que ela tinha razão.
Adriano fechou os olhos brevemente.
Pela primeira vez na vida, sentiu vergonha.
Vergonha verdadeira.
Não por ter cometido um crime.
Mas por ter confiado cegamente em um sistema criado por pessoas como ele.
Pessoas com dinheiro.
Pessoas com influência.
Pessoas que nunca precisavam provar nada.
Lúcia começou a chorar novamente.
O som chamou atenção de todos.
A babá parecia à beira de um colapso.
Adriano virou-se para ela.
"O que mais você sabe?"
Lúcia imediatamente balançou a cabeça.
"Nada."
Mentira.
Outra vez.
Adriano deu um passo na direção dela.
"O que mais você sabe?"
Lúcia fechou os olhos.
E finalmente desabou.
"Eu ouvi comentários."
A sala congelou.
"Que comentários?"
Ela limpou as lágrimas.
"Na época em que Lina chegou."
"Continue."
"Algumas babás falavam sobre outras crianças."
Daniel ergueu os olhos.
Clara também.
"O que quer dizer?"
Lúcia respirou fundo.
"Eu ouvi dizer que não era só Lina."
O coração de Clara disparou.
"O quê?"
"Existiam outras famílias."
A voz dela tremia.
"Muito ricas."
Adriano ficou imóvel.
"Famílias recebendo bebês?"
Lúcia assentiu.
"Sim."
O choque atravessou a sala.
Uma convidada levou a mão à boca.
Outro homem ficou visivelmente pálido.
Lúcia continuou.
"Algumas crianças vinham de partos complicados."
Clara sentiu o sangue desaparecer.
Partos complicados.
Era exatamente o que haviam dito sobre sua filha.
"Você está dizendo..."
Daniel começou.
Mas não conseguiu terminar.
Lúcia completou.
"Que existiam rumores de bebês declarados mortos."
O salão explodiu.
Várias pessoas começaram a falar ao mesmo tempo.
"Meu Deus."
"Isso é impossível."
"Isso é tráfico."
"Isso é loucura."
Adriano levantou apenas uma mão.
E todos se calaram imediatamente.
Seu rosto estava assustador.
Não pela raiva.
Mas pelo controle.
Um controle tão rígido que parecia prestes a quebrar.
Clara observava tudo sem conseguir respirar.
Sua filha não era um caso isolado.
Sua filha não era um acidente.
Talvez existissem outras mães.
Outras mulheres.
Outras crianças.
Outras vidas destruídas.
Lina levantou a cabeça.
"Por que todo mundo está triste?"
Ninguém respondeu.
Porque não existia resposta simples.
Não para uma criança.
Não para aquela criança.
Adriano se ajoelhou diante dela.
Pela primeira vez naquela noite.
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Os olhos dele estavam vermelhos.
"Você não fez nada errado."
Lina assentiu.
Depois apontou para Clara.
"Ela está chorando."
Adriano olhou para Clara.
E sentiu algo apertar seu peito.
Porque agora ele enxergava.
Não apenas uma garçonete.
Não apenas uma desconhecida.
Mas uma mãe.
Uma mãe que passara dois anos enterrando uma filha viva.
A ideia era insuportável.
Daniel continuava pesquisando.
Os dedos dele corriam pela tela.
Então pararam.
Seu rosto mudou.
Outra vez.
Adriano percebeu imediatamente.
"O que foi agora?"
Daniel demorou para responder.
"Tem um nome."
"Que nome?"
"O advogado responsável pela transferência da criança."
Clara ergueu os olhos.
Adriano também.
Daniel respirou fundo.
"Roberto Azevedo."
Adriano franziu a testa.
Aquele nome era familiar.
Muito familiar.
Então a memória voltou.
E seu estômago afundou.
"Não."
Daniel assentiu lentamente.
"Sim."
Clara olhou de um para o outro.
"O que está acontecendo?"
Adriano passou a mão pelo rosto.
Pela primeira vez parecia exausto.
"Roberto Azevedo trabalhava para minha esposa."
O silêncio foi imediato.
"Viviane?"
A voz de Clara saiu quase sem força.
Adriano assentiu.
Viviane Vasconcelos.
Sua falecida esposa.
A mulher que insistira em trazer Lina para casa.
A mulher que organizara toda a adoção.
A mulher que nunca demonstrara interesse por crianças.
Até aparecer Lina.
As lembranças começaram a voltar.
Pequenos detalhes.
Pequenas estranhezas.
Pequenas perguntas que ele nunca fizera.
Porque confiava nela.
Porque a amava.
Porque jamais imaginaria uma coisa dessas.
Daniel abriu outro arquivo.
"O advogado foi contratado diretamente pelo escritório de Viviane."
O coração de Adriano afundou ainda mais.
Clara observava.
Agora ela também estava entendendo.
Viviane estava em toda parte.
Nos documentos.
Nos advogados.
Na adoção.
Nas assinaturas.
Nas autorizações.
Era impossível ignorar.
Lúcia começou a chorar novamente.
"Eu sempre achei estranho."
Todos olharam para ela.
"O quê?"
"Ela não gostava de crianças."
O comentário chocou alguns convidados.
Mas Adriano não contestou.
Porque era verdade.
Viviane nunca quis filhos.
Nunca.
Até aparecer Lina.
A contradição era grande demais.
Daniel continuou analisando os registros.
De repente ficou imóvel.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
"Não."
Adriano sentiu um arrepio.
"O que foi?"
Daniel ampliou uma página escondida.
Uma página financeira.
Não fazia parte do processo principal.
Parecia ter sido arquivada separadamente.
Escondida.
Quase enterrada.
"Existe uma transferência."
Adriano ficou de pé.
"Que transferência?"
Daniel engoliu seco.
"Um pagamento."
Clara sentiu o coração acelerar.
"Pagamento para quem?"
Daniel ampliou a tela.
O nome do destinatário apareceu.
Instituto Éden.
O salão inteiro congelou.
Adriano ficou imóvel.
"Quanto?"
Daniel respirou fundo.
"Dois milhões de reais."
O choque foi instantâneo.
Dois milhões.
Não era taxa administrativa.
Não era custo jurídico.
Era uma fortuna.
Clara começou a tremer.
"Quem pagou?"
Daniel olhou para a tela.
Depois para Adriano.
Depois voltou para a tela.
Como se desejasse estar em qualquer outro lugar do mundo.
Adriano sentiu o pior pressentimento de sua vida.
"Daniel."
A voz dele saiu baixa.
Perigosa.
"Quem fez o pagamento?"
O advogado demorou alguns segundos.
Então respondeu:
"Não foi o senhor."
O silêncio tomou conta do salão.
Ninguém respirava.
Ninguém piscava.
Daniel ampliou o comprovante bancário.
O nome apareceu na tela.
E naquele instante o mundo de Adriano Vasconcelos desmoronou.
Porque o pagamento escondido para o Instituto Éden havia sido feito por uma única pessoa.
Viviane Vasconcelos.
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