"O Pai de Mentira da Menina Esquecida" Capítulo 4
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Rafael Monteiro não dormiu naquela noite.
A foto enviada pelo número desconhecido continuava aberta na tela do celular.
Lívia.
Sentada sozinha.
Cabeça baixa.
Como uma criança esperando uma punição.
Como alguém que já tinha aprendido que felicidade demais costumava custar caro.
Ao lado da imagem, a ameaça.
"Pare de se aproximar da menina, ou ela vai sofrer as consequências."
Rafael releu a mensagem várias vezes.
Não porque não entendesse.
Mas porque conhecia aquele tipo de pessoa.
Covardes raramente atacavam adultos.
Preferiam atingir quem não podia se defender.
E naquele momento, alguém estava usando uma menina de nove anos para enviar um recado.
Ele fechou os olhos.
Tentando controlar a raiva.
Mas outra imagem surgiu em sua mente.
Não era Lívia.
Era Bianca.
Cinco anos antes.
A Mansão Monteiro era um lugar completamente diferente.
Havia risadas pelos corredores.
Música vindo dos quartos.
Desenhos colados na geladeira.
Pegadas pequenas correndo pelo jardim.
E o centro de tudo aquilo era Bianca Monteiro.
Sua filha.
Seu orgulho.
Seu mundo.
Bianca tinha apenas oito anos.
Mas parecia iluminar qualquer ambiente onde entrasse.
Era inteligente.
Curiosa.
Falava sem parar.
Fazia perguntas impossíveis.
E tinha um talento especial para encontrar beleza nas coisas mais simples.
Quando Rafael chegava tarde do trabalho, ela corria pela casa inteira.
"Papai chegou!"
Era sempre assim.
Não importava quantas reuniões ele tivesse.
Quantos contratos assinasse.
Quantos milhões ganhasse.
Tudo desaparecia quando Bianca pulava em seus braços.
Marina costumava rir.
"Ela é apaixonada por você."
E Bianca respondia imediatamente:
"Claro que sou."
A felicidade parecia eterna.
Até o dia em que deixou de ser.
Tudo começou com um cansaço estranho.
Depois vieram os hematomas.
As febres.
Os exames.
Os médicos.
Os hospitais.
E finalmente a palavra que destruiu suas vidas.
Leucemia.
Rafael lembrava daquele dia com uma precisão cruel.
A sala branca.
O médico evitando contato visual.
Marina segurando sua mão.
E Bianca brincando com uma boneca sem entender nada.
Durante meses eles lutaram.
Os melhores especialistas.
Os melhores tratamentos.
Os melhores hospitais.
Dinheiro não era problema.
Mas pela primeira vez na vida Rafael descobriu uma verdade terrível.
Existiam batalhas que nem bilhões conseguiam vencer.
Bianca perdeu peso.
Perdeu os cabelos.
Perdeu a força.
Mas nunca perdeu o sorriso.
Mesmo nos piores dias.
Mesmo quando a dor era insuportável.
Ela ainda perguntava:
"Papai, você está triste?"
Era absurdo.
A criança consolava os pais.
Não o contrário.
Numa tarde de chuva, Bianca recebeu uma pequena apresentação musical no hospital.
Alguns estudantes tocaram instrumentos para as crianças internadas.
Foi naquele dia que ela se apaixonou pelo violino.
Os olhos dela brilharam.
"Eu quero aprender."
Marina sorriu.
"Quando você melhorar."
Bianca apontou para o instrumento.
"Promete?"
"Prometo."
Rafael também prometeu.
Mas nunca teve a chance de cumprir.
Porque Bianca nunca saiu daquele hospital.
A última noite continuava viva dentro dele.
Como uma ferida que nunca cicatrizou.
O quarto estava escuro.
As máquinas apitavam devagar.
Marina chorava em silêncio.
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Rafael segurava a mão da filha.
Bianca estava muito fraca.
Muito pequena.
Muito pálida.
Mas ainda encontrou forças para sorrir.
Ela apertou seus dedos.
Bem de leve.
E sussurrou:
"Você veio, papai."
A voz era quase inaudível.
Rafael sentiu o coração partir.
"Claro que eu vim."
Bianca sorriu.
Um sorriso cansado.
Mas verdadeiro.
"Eu sabia."
Horas depois...
Ela se foi.
E levou consigo a luz daquela casa.
Marina nunca conseguiu se recuperar.
Nem Rafael.
Mas cada um afundou de forma diferente.
Marina passou meses tentando sobreviver à dor.
Depois foi embora.
Disse que não conseguia continuar vivendo dentro de uma casa cheia de fantasmas.
Rafael não tentou impedi-la.
Porque também estava quebrado.
Eles assinaram os papéis do divórcio sem discutir.
Sem gritar.
Sem lutar.
Quando a dor é grande demais, até a raiva desaparece.
Após aquilo, Rafael transformou a própria vida em trabalho.
Reuniões.
Aquisições.
Contratos.
Investimentos.
Ele trabalhava quinze horas por dia.
Às vezes mais.
Não comemorava aniversários.
Não montava árvore de Natal.
Não visitava parques.
Não entrava em lojas infantis.
Não suportava ouvir crianças rindo.
Porque cada risada lembrava Bianca.
Cada menina da idade dela parecia uma punhalada.
Então ele construiu muros.
Altos.
Fortes.
Intransponíveis.
Até encontrar Lívia.
Na manhã seguinte, Rafael foi buscar a menina depois da escola.
Como vinha fazendo nos últimos dias.
Quando ela saiu pelo portão, carregando a mochila nas costas, abriu imediatamente um sorriso.
Depois tentou escondê-lo.
Como sempre.
"Oi."
"Oi."
"Você parece cansado."
Rafael arqueou uma sobrancelha.
"Eu pareço?"
"Um pouco."
Ela ficou pensativa.
"Adultos ficam estranhos quando não dormem."
Ele quase riu.
"Você entende bastante de adultos."
A resposta veio rápida.
"Não."
"Eu só observo."
Aquilo era verdade.
Lívia observava tudo.
Porque crianças que vivem inseguros aprendem a ler ambientes rapidamente.
Era sobrevivência.
Naquela tarde, Rafael a levou para uma livraria.
Lívia ficou encantada.
Andava entre as prateleiras como alguém visitando um castelo.
Tocando os livros com cuidado.
Lendo as capas.
Descobrindo mundos.
Então algo chamou sua atenção.
Uma pequena apresentação de música para crianças acontecia no segundo andar.
Uma jovem tocava violino.
Lívia parou imediatamente.
Hipnotizada.
Rafael percebeu.
"Você gosta?"
Ela nem desviou os olhos.
"Muito."
"O que é?"
"Violino."
A voz saiu cheia de admiração.
"Eu acho o som mais bonito do mundo."
O coração de Rafael apertou.
Porque Bianca dizia exatamente a mesma coisa.
Exatamente.
Ele ficou imóvel por alguns segundos.
Observando a menina.
Observando o instrumento.
Observando o passado colidir com o presente.
Dois dias depois, Rafael entrou em uma loja especializada em instrumentos musicais.
O vendedor o reconheceu imediatamente.
Mas Rafael ignorou qualquer conversa.
Foi direto ao que queria.
"Preciso de um violino para uma menina de nove anos."
Horas mais tarde, carregava uma elegante caixa preta.
Dentro dela havia algo que mudaria a vida de Lívia.
Ou pelo menos uma parte dela.
Quando a encontrou naquela semana, entregou a caixa sem explicar nada.
Lívia olhou desconfiada.
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"O que é isso?"
"Abre."
Ela colocou a mochila no chão.
Abriu lentamente.
E congelou.
O mundo pareceu parar.
Os olhos ficaram enormes.
As mãos começaram a tremer.
"É..."
"Seu."
Lívia não conseguia acreditar.
Passou os dedos pela madeira.
Pelo arco.
Pela caixa.
Como se tivesse medo de acordar.
"Para mim?"
"Para você."
Ela continuava sem reação.
"De verdade?"
"De verdade."
Então algo aconteceu.
Algo que Rafael jamais esqueceria.
Lágrimas surgiram nos olhos dela.
Não lágrimas de tristeza.
Mas de alguém que nunca recebeu algo importante.
Nunca.
"Ninguém nunca me deu uma coisa importante."
A frase saiu quebrada.
Pequena.
Dolorosa.
Rafael sentiu a garganta fechar.
Abaixou-se até ficar na altura dela.
E respondeu suavemente:
"Você merece coisas importantes."
Lívia o abraçou imediatamente.
Com toda a força que possuía.
Como se aquele violino fosse mais do que um instrumento.
Talvez fosse.
Talvez fosse prova de que alguém finalmente a enxergava.
Na mesma semana, do outro lado do oceano, alguém recebeu uma ligação.
Marina Monteiro estava em Lisboa.
Tentando reconstruir uma vida que nunca conseguiu reconstruir de verdade.
Ela atendia poucas chamadas vindas do Brasil.
Mas aquela era diferente.
Uma antiga amiga falava rápido.
Nervosa.
"Marina, você viu as notícias?"
"Que notícias?"
"O Rafael."
Ela ficou tensa.
"O que tem ele?"
"O nome dele está circulando entre algumas escolas beneficentes."
"Ele anda visitando uma menina."
Silêncio.
Marina sentiu o coração acelerar.
"Uma menina?"
"Sim."
"Uma órfã."
A conversa terminou poucos minutos depois.
Mas o estrago já estava feito.
Naquela noite, Marina não conseguiu dormir.
Uma imagem se repetia em sua mente.
Bianca.
Sempre Bianca.
E uma pergunta terrível.
Será que Rafael estava tentando substituí-la?
Dois dias depois, Marina embarcou para São Paulo.
Rafael estava saindo do escritório quando a viu.
Parada no saguão.
Elegante.
Bonita.
Familiar.
Marina.
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio.
Anos de dor entre eles.
Anos de ausência.
Anos de coisas nunca ditas.
"Você voltou."
A voz dele saiu baixa.
Marina respondeu sem emoção.
"Precisávamos conversar."
Mais tarde, no apartamento de Rafael, a tensão era sufocante.
Marina observava a foto de Bianca sobre a estante.
A mesma foto.
No mesmo lugar.
Depois encarou Rafael.
"É verdade?"
Ele sabia exatamente sobre o que ela estava falando.
"Lívia?"
"Sim."
O nome saiu duro.
Frio.
"Você está se envolvendo com uma órfã."
Rafael não respondeu.
Marina deu um passo à frente.
Os olhos brilhavam.
Mas não de felicidade.
De dor.
De medo.
"Você quer substituir a nossa filha?"
O silêncio tomou conta da sala.
Pesado.
Brutal.
Rafael desviou o olhar para a fotografia de Bianca.
A menina continuava sorrindo.
Como sempre.
Como se ainda estivesse ali.
Marina esperou.
O coração disparado.
A voz tremendo.
"Responde."
Longos segundos passaram.
Então Rafael finalmente falou.
A voz saiu baixa.
Quase quebrada.
Mas absolutamente sincera.
"Ninguém substitui a Bianca."
Marina fechou os olhos.
Lágrimas começaram a surgir.
E Rafael continuou:
"Mas talvez..."
Ele olhou novamente para a foto da filha.
"Talvez a Bianca tenha me ensinado a não abandonar uma criança."
Marina ficou imóvel.
Sem conseguir responder.
Mas naquele mesmo instante, muito longe dali, na casa de Dona Célia...
Lívia encontrava algo escondido debaixo de uma gaveta antiga.
Um envelope amarelado.
Com seu nome escrito à mão.
E uma frase que fez seu sangue gelar:
"Entregar para Lívia Santos quando ela completar nove anos."
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