"O Pai de Mentira da Menina Esquecida" Capítulo 1
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UM PAI POR UM DIA
O céu de São Paulo estava limpo naquela manhã.
O sol iluminava os prédios altos da Avenida Faria Lima, refletindo nas fachadas de vidro como se a cidade inteira estivesse comemorando alguma coisa.
Mas para Lívia Santos, de nove anos, aquele era o dia mais difícil do ano.
Ela estava parada diante do portão da Escola Municipal Padre Anchieta.
Vestia um vestido amarelo já desbotado pelo tempo.
As mangas tinham sido costuradas várias vezes.
Os sapatos estavam gastos.
Um dos cadarços era diferente do outro.
Mesmo assim, ela havia acordado mais cedo para passar o vestido com cuidado.
Era seu dia de formatura.
Não uma grande formatura.
Não havia becas nem chapéus.
Apenas um certificado simples.
Algumas apresentações.
E muitos pais orgulhosos.
Ao redor dela, as famílias chegavam aos poucos.
Mães segurando celulares.
Pais carregando flores.
Avós sorrindo.
Irmãos correndo pelo pátio.
Todos tinham alguém.
Todos.
Menos ela.
Lívia apertou as alças da mochila contra o peito.
Tentou não olhar para os outros.
Tentou não sentir inveja.
Tentou não chorar.
Mas era impossível.
Ela sabia que quando seu nome fosse chamado no palco, ninguém iria bater palmas.
Ninguém iria tirar fotos.
Ninguém iria dizer que estava orgulhoso dela.
Porque não havia ninguém.
Dois anos antes, seus pais morreram em um acidente de carro.
Uma noite comum.
Uma ligação inesperada.
E tudo acabou.
Desde então, ela passara por diferentes lares temporários.
Casas que nunca pareciam ser dela.
Pessoas que nunca ficavam por muito tempo.
Promessas que nunca duravam.
Atualmente vivia com Dona Célia.
Uma mulher que recebia várias crianças em sua casa.
Na frente dos assistentes sociais, Dona Célia parecia gentil.
Mas dentro de casa era diferente.
Fria.
Distante.
Impaciente.
Ela havia prometido comparecer à formatura.
Mas Lívia sabia o que aquilo significava.
Provavelmente não viria.
Respirando fundo, ela olhou para o outro lado da rua.
Foi então que viu um carro preto parar.
Um SUV luxuoso.
Muito diferente dos veículos que costumavam circular naquele bairro.
A porta se abriu.
Um homem saiu.
Alto.
Elegante.
Terno escuro impecável.
Relógio caro.
Postura séria.
Mas não foi isso que chamou a atenção de Lívia.
Foi o olhar.
Havia tristeza ali.
Uma tristeza silenciosa.
Como alguém que também conhecia a solidão.
Ela engoliu em seco.
Talvez fosse uma péssima ideia.
Talvez ele gritasse.
Talvez a ignorasse.
Talvez achasse estranho.
Mas se ela não tentasse agora, passaria mais uma formatura sozinha.
E não queria sentir aquela dor outra vez.
Então reuniu toda a coragem que conseguiu encontrar.
Atravessou a rua.
O homem percebeu sua aproximação.
Parou imediatamente.
Franziu a testa.
Parecia preocupado.
"Você está bem, princesa?"
A voz era calma.
Gentil.
Lívia sentiu o coração acelerar.
Todas as frases que havia ensaiado desapareceram.
Ela ficou alguns segundos sem conseguir falar.
Então finalmente sussurrou:
"Você pode fingir que é meu pai... só por um dia?"
O homem congelou.
O movimento da cidade pareceu desaparecer.
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Por um instante, só existiam os dois.
Lívia sentiu vergonha imediatamente.
Baixou os olhos.
"Desculpa."
"Foi uma pergunta boba."
Mas o homem não foi embora.
Não riu.
Não a tratou como louca.
Apenas continuou olhando para ela.
Como se tentasse entender.
"Por que você precisa de alguém fingindo?"
Lívia apertou o vestido.
"Hoje é minha formatura."
Ela apontou para a escola.
"Todo mundo tem alguém vindo."
Sua voz começou a falhar.
"Eu só..."
Ela respirou fundo.
"Eu só não queria ficar sozinha."
Aquilo atingiu Rafael Monteiro como um soco.
Porque era Rafael Monteiro.
Presidente do Grupo Monteiro.
Bilionário.
Empresário mais influente do estado.
Homem temido por investidores.
Respeitado por políticos.
Temido pelos concorrentes.
Naquele exato momento, seu celular vibrava sem parar.
Uma reunião bilionária o aguardava no centro financeiro da cidade.
Um negócio que poderia render dezenas de bilhões de reais.
Mas nada disso parecia importante agora.
Porque diante dele havia uma menina tentando negociar algo que toda criança deveria receber de graça.
Carinho.
Presença.
Família.
Rafael observou melhor.
Vestido simples.
Sapatos gastos.
Olhos cansados.
E uma maturidade que nenhuma criança deveria ter.
"Qual é o seu nome?"
"Lívia."
"E sua família?"
O sorriso desapareceu imediatamente.
Lívia baixou a cabeça.
"Eu não tenho mais ninguém."
Silêncio.
Um silêncio pesado.
Difícil.
Doloroso.
Rafael sentiu algo apertar dentro do peito.
Porque aquela frase despertou uma lembrança que ele tentava evitar havia cinco anos.
Bianca.
Sua filha.
Sua única filha.
O amor da sua vida.
A menina que morreu de leucemia aos oito anos.
Desde então, nada voltara a ser igual.
Seu casamento acabou.
Sua alegria desapareceu.
Sua casa se tornou silenciosa.
Seu coração também.
Ele trabalhava sem parar porque era mais fácil do que sentir.
Mais fácil do que lembrar.
Mais fácil do que sofrer.
Mas agora...
Aquela pequena desconhecida estava abrindo uma porta que ele mantinha trancada havia anos.
"É importante para você?"
Lívia assentiu imediatamente.
"É muito importante."
A sinceridade daquela resposta o destruiu.
Ela não estava pedindo dinheiro.
Nem presentes.
Nem favores.
Só queria alguém para bater palmas.
Alguém para aparecer.
Alguém para escolher ficar.
Rafael fechou os olhos por um segundo.
Depois olhou para o relógio.
Em seguida para o prédio da escola.
E finalmente para Lívia.
"Que horas começa?"
Os olhos da menina se arregalaram.
"Você vai mesmo?"
Rafael sorriu pela primeira vez em muito tempo.
Um sorriso verdadeiro.
"Vou."
Lívia ficou imóvel.
Como se não acreditasse.
"De verdade?"
"De verdade."
Então algo mágico aconteceu.
Ela sorriu.
Um sorriso tão puro que fez Rafael esquecer completamente da reunião.
Pela primeira vez em muitos anos, ele sentiu seu coração aquecer.
Duas horas depois.
O auditório da escola estava lotado.
As cadeiras estavam ocupadas por pais, mães e familiares.
Crianças aguardavam nervosas sua vez.
Professores organizavam a cerimônia.
Lívia estava sentada na terceira fila.
Segurando seu certificado.
Olhando constantemente para a porta.
Talvez ele tivesse mudado de ideia.
Talvez não viesse.
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Adultos sempre iam embora.
Era assim que funcionava.
Mas então a porta se abriu.
E Rafael apareceu.
Vestindo o mesmo terno escuro.
Andando em sua direção.
Algumas pessoas o reconheceram imediatamente.
Os cochichos começaram.
"É o Rafael Monteiro?"
"O bilionário?"
"O dono do Grupo Monteiro?"
"O que ele está fazendo aqui?"
Rafael ignorou todos.
Seus olhos procuravam apenas uma pessoa.
E quando encontrou Lívia, viu seu rosto se iluminar.
Ela parecia a criança mais feliz do mundo.
Ele sentou ao lado dela.
"Você veio."
A voz dela tremia.
Rafael apenas respondeu:
"Eu prometi."
A cerimônia começou.
Uma criança após a outra subia ao palco.
As famílias aplaudiam.
Fotografavam.
Comemoravam.
Então chegou a vez dela.
A diretora aproximou-se do microfone.
"Lívia Santos."
O coração da menina disparou.
Ela levantou devagar.
Por um instante, o velho medo voltou.
O medo de não ter ninguém.
O medo da solidão.
O medo de ser invisível.
Mas antes que pudesse dar o primeiro passo...
Rafael ficou de pé.
Foi o primeiro.
E começou a aplaudir.
Forte.
Orgulhoso.
Sem vergonha alguma.
Todo o auditório olhou.
Depois começou a aplaudir também.
Lívia sentiu lágrimas encherem seus olhos.
Mas continuou caminhando.
Recebeu o certificado.
Olhou para Rafael.
E viu que ele continuava aplaudindo.
Como se ela fosse a pessoa mais importante daquela sala.
Naquele momento, algo mudou dentro dela.
Algo que estava quebrado havia muito tempo.
Talvez esperança.
Talvez confiança.
Talvez amor.
Ela não sabia.
Só sabia que não estava mais sozinha.
Quando a cerimônia terminou, as famílias invadiram o auditório.
Abraços.
Fotos.
Flores.
Risadas.
Lívia ficou parada segurando seu certificado.
Sem saber o que fazer.
Então Rafael se aproximou.
E antes que pudesse dizer qualquer coisa...
Ela correu.
Jogou os braços em volta dele.
Abraçou-o com força.
Muita força.
Como alguém que tinha medo de perder aquilo.
Rafael ficou imóvel.
Porque aquele abraço era familiar demais.
Dolorosamente familiar.
Lívia começou a chorar.
As lágrimas molhavam sua camisa.
E então ela sussurrou:
"Você veio mesmo."
Rafael congelou.
Seu coração parou por um segundo.
Porque cinco anos antes...
Em um quarto de hospital...
Ligada a aparelhos...
Com a voz fraca...
Bianca havia segurado sua mão e dito algo quase igual.
"Você veio, papai."
A lembrança atingiu Rafael como uma explosão.
Ele fechou os olhos.
Tentando respirar.
Tentando se controlar.
Tentando entender por que aquela menina desconhecida fazia seu coração doer daquele jeito.
Mas naquele instante...
Sem que nenhum dos dois percebesse...
Uma mulher observava tudo do estacionamento da escola.
Era Dona Célia.
E sua expressão estava longe de ser feliz.
Ela não parecia surpresa.
Parecia preocupada.
Muito preocupada.
Porque naquele momento ela reconheceu Rafael Monteiro.
E percebeu algo perigoso.
Se aquele homem continuasse se aproximando de Lívia...
Alguns segredos que deveriam permanecer enterrados poderiam finalmente vir à tona.
E Dona Célia estava disposta a fazer qualquer coisa para impedir isso.
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