"O FILHO PROIBIDO" Capítulo 4
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Na manhã seguinte à explosão do vídeo que parou o Brasil inteiro, o nome de Gabriel já não pertencia mais apenas ao terraço do Hotel Vasconcelos Palace.
Ele pertencia ao país.
Mas Gabriel… havia desaparecido.
Nenhuma câmera de segurança conseguiu rastrear sua saída.
Nenhum funcionário do hotel viu o momento exato em que ele deixou o prédio.
Era como se a criança tivesse sido engolida pela própria cidade de São Paulo.
Na cobertura dos Vasconcelos, Henrique Vasconcelos não dormia.
Ele estava em pé diante da janela, olhando a cidade abaixo como se tentasse encontrar respostas no movimento das luzes.
Renato entrou apressado na sala.
“Senhor Henrique… não há registro de saída do menino. Ele simplesmente sumiu.”
Henrique não virou o rosto.
“Impossível.” — ele respondeu seco.
Renato hesitou antes de continuar.
“Já verificamos todas as câmeras do hotel, entradas de serviço, estacionamento… nada.”
Henrique apertou o vidro da janela com força.
Pela primeira vez desde o acidente, ele não tinha controle da situação.
E isso o irritava mais do que qualquer dor física.
“Então encontrem ele. Agora.” — disse Henrique, com voz baixa e perigosa.
Renato engoliu seco.
“Estamos tentando, senhor… mas tem um problema.”
Henrique virou lentamente.
“Qual problema?”
Renato abriu o tablet e mostrou imagens.
Reportagens.
Redes sociais.
O rosto de Gabriel estampado em tudo.
“Ele já não é mais uma criança desconhecida. O Brasil inteiro está procurando ele agora.”
Silêncio.
Henrique fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, sua decisão já estava tomada.
“Então vamos para onde ninguém está olhando.”
Horas depois, a busca saiu dos Jardins e foi direto para a Zona Sul de São Paulo.
Mais especificamente para um lugar que os moradores chamavam apenas de comunidade.
Favela do Capão Redondo.
As ruas estreitas, casas empilhadas e o som constante de vida urbana criavam um contraste brutal com o luxo do hotel onde tudo começou.
Os carros pretos dos Vasconcelos pararam na entrada da comunidade.
E imediatamente chamaram atenção.
Renato desceu primeiro, observando o ambiente com desconforto.
Henrique foi ajudado a sair da cadeira de transporte especial.
Mesmo sem caminhar sozinho, sua presença dominava o lugar.
Olhares começaram a surgir das janelas.
Silêncio estranho.
Desconfiança.
Um homem desconhecido na favela nunca passava despercebido.
“É aqui?” — perguntou Henrique.
Renato consultou o tablet.
“Última localização possível do sinal de rede do celular de uma mulher chamada Mariana Alves.”
Henrique estreitou os olhos.
“Então vamos falar com ela.”
A casa era simples.
Pequena.
Paredes gastas pelo tempo.
Mariana Alves abriu a porta com cautela.
E imediatamente percebeu que aquele não era um dia comum.
Dois homens de terno.
Um deles em cadeira de rodas.
E algo no ar que ela não conseguia explicar.
“Mariana Alves?” — perguntou Renato.
“Depende.” — ela respondeu firme. — “Quem está perguntando?”
Henrique avançou um pouco.
“Henrique Vasconcelos.”
O nome caiu como um peso dentro da casa.
Mariana congelou por meio segundo.
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Mas rapidamente recuperou o controle.
“Eu não conheço você.”
Henrique observou o rosto dela com atenção.
“Seu filho apareceu no meu hotel ontem.”
O corpo dela travou.
Mas o olhar dela não mudou.
“Eu não tenho filho nenhum no seu hotel.”
Renato deu um passo à frente.
“Senhora, temos registros… vídeos…”
Mariana o interrompeu.
“Vídeos não provam nada.”
Henrique deu mais um passo.
“Ele disse que podia me fazer andar.”
O silêncio mudou de qualidade.
Agora era tensão.
Mariana engoliu seco.
Mas manteve a postura.
“Crianças dizem coisas absurdas o tempo todo.”
Henrique a observava como se estivesse tentando ler algo além das palavras.
“Não esse tipo de criança.”
Dentro da casa, o clima ficou pesado.
Mariana cruzou os braços.
“Olha, se vocês vieram aqui por causa de um vídeo, isso virou loucura coletiva.”
Henrique inclinou levemente a cabeça.
“Ele não é uma loucura coletiva. Ele é real.”
Mariana respirou fundo.
E pela primeira vez sua voz falhou um pouco.
“Eu já disse… eu não sei onde ele está.”
Renato observou o ambiente.
E percebeu algo estranho.
Fotos na parede.
Poucas.
Mas uma delas chamou atenção.
Uma criança.
Pequena.
Mesmo olhar.
Gabriel.
Renato apontou discretamente.
“Senhora…”
Mariana se virou rápido.
E percebeu o olhar dele.
Seu rosto endureceu imediatamente.
“Não toque nisso.”
Henrique percebeu.
E deu um passo mais próximo da foto.
“Ele é seu filho.”
Mariana respondeu rápido demais.
“Não.”
Mas a negação veio tarde demais.
Henrique viu.
E sorriu de forma quase imperceptível.
“Você está mentindo.”
Mariana ficou em silêncio.
E esse silêncio foi mais revelador do que qualquer resposta.
Do lado de fora, vizinhos começavam a observar.
Celulares surgiam.
A notícia estava se espalhando rápido.
“Tem gente importante na casa da Mariana…” — sussurrava alguém.
“Isso é polícia?” — outro perguntava.
A comunidade começava a se agitar.
Dentro da casa, Henrique percebeu.
E falou baixo para Renato:
“Não temos tempo.”
Depois virou para Mariana.
“Seu filho não é normal.”
Mariana finalmente explodiu.
“NINGUÉM TEM O DIREITO DE FALAR ISSO DELE!”
O grito ecoou pela casa inteira.
Silêncio.
Henrique não reagiu emocionalmente.
Só observou.
E disse com calma:
“Então me diga onde ele está.”
Mariana respirou forte.
Os olhos dela estavam cheios de conflito.
Medo.
Proteção.
Algo mais profundo.
E então ela disse:
“Vocês não entendem o que estão procurando.”
Henrique franziu o cenho.
“Explique.”
Mariana hesitou.
E essa hesitação mudou tudo.
“Ele não é o único.”
Silêncio absoluto.
Renato ficou imóvel.
Henrique deu um passo à frente.
“O que você disse?”
Mariana engoliu seco.
E repetiu, mais baixo:
“Ele não é o único.”
Um barulho veio do lado de fora.
Alguém bateu na porta da comunidade.
Mais forte.
Mais agressivo.
Renato olhou pela janela.
E viu dois carros pretos desconhecidos entrando na rua.
Ele ficou pálido.
“Senhor Henrique…”
Henrique virou lentamente.
“O que foi?”
Renato respondeu:
“Não somos os únicos procurando ele.”
Mariana arregalou os olhos.
E naquele instante…
o celular de Henrique vibrou.
Uma mensagem desconhecida apareceu na tela.
Apenas três palavras:
“Ele acordou de novo.”
Henrique ficou imóvel.
E pela primeira vez…
ele sentiu algo parecido com medo real.
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