"Herança de Sangue e Traição" PARTE 9
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O cheiro de gasolina tomava conta do galpão.
Lucas sentia os pulsos queimando por causa das cordas.
Cada movimento arrancava dor.
Mas ele continuava.
Devagar.
Sem parar.
Os sequestradores estavam ocupados espalhando combustível pelos cantos do depósito.
Riam.
Conversavam.
Como se estivessem preparando um churrasco.
Não a morte de uma criança.
Lucas fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
Lembrou da rua.
Lembrou das noites frias.
Dos dias sem comida.
Dos lugares onde sobreviver dependia de observar detalhes que os outros ignoravam.
Então viu.
O pedaço de vidro.
Pequeno.
Apenas alguns centímetros.
Mas suficiente.
Lucas começou a arrastar a cadeira lentamente.
Milímetro por milímetro.
O som era quase imperceptível.
Os homens não perceberam.
Mais um pouco.
Mais um.
Até que a corda tocou a ponta afiada.
Lucas começou a esfregar.
Uma vez.
Duas.
Três.
A corda começou a ceder.
Do outro lado do galpão, um dos sequestradores acendeu um cigarro.
"Quando o doutor Henrique voltar, terminamos."
O outro riu.
"Esse moleque vale mais morto do que vivo."
Lucas continuou.
Esfregando.
Forçando.
Ignorando a dor.
Até que—
A corda rompeu.
Seu coração disparou.
Mas ele não se moveu imediatamente.
Esperou.
Observou.
Calculou.
Quando os dois homens viraram de costas ao mesmo tempo, Lucas agiu.
Levantou-se.
Pegou a cadeira.
E a lançou com toda força.
A cadeira acertou a lâmpada.
O galpão mergulhou na escuridão.
"Que droga!"
"GAROTO!"
Lucas correu.
Os homens gritaram.
Um deles tropeçou em um tambor.
Outro bateu em caixas velhas.
Lucas atravessou a escuridão.
Encontrou a porta lateral.
Empurrou.
Trancada.
Seu coração afundou.
Atrás dele, passos.
Muito perto.
Então viu uma janela quebrada.
Sem pensar.
Pulou.
Os cacos cortaram seu braço.
Aterrissou do lado de fora.
Correu.
Sem olhar para trás.
Correu como nunca havia corrido.
Na mansão Andrade, Jonathan parecia um homem diferente.
Já não era o empresário frio que controlava tudo.
Já não era o bilionário calculista.
Era apenas alguém desesperado.
O relógio marcava quase três da manhã.
E Lucas continuava desaparecido.
Miguel dormia cercado por médicos.
Mas Jonathan não saía da sala de monitoramento.
Sérgio entrou correndo.
"Encontramos o carro."
Jonathan se levantou imediatamente.
"Onde?"
"Zona industrial de Guarulhos."
"Vamos."
"Senhor, a polícia está indo."
Jonathan pegou o casaco.
"Eu não perguntei onde está a polícia."
Sérgio ficou em silêncio.
"Eu perguntei onde está Lucas."
Lucas continuava correndo.
Os pés doíam.
Os pulmões queimavam.
Mas ele não parava.
Até que encontrou uma estrada secundária.
Parou atrás de um caminhão abandonado.
Tentando recuperar o fôlego.
Foi então que percebeu algo.
O relatório de DNA ainda estava no bolso.
Mas havia outra coisa.
Durante a luta no galpão, um envelope caíra da mesa de Henrique.
Lucas o havia pegado sem pensar.
Agora abriu.
As mãos tremiam.
Dentro havia fotografias.
Recibos.
Registros médicos.
E cópias de mensagens.
Lucas começou a ler.
Quanto mais lia, mais seu sangue gelava.
Porque Henrique não era o cérebro.
Era apenas o executor.
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Alguém acima dele dava ordens.
Alguém muito próximo de Jonathan.
Muito próximo.
Lucas virou uma das folhas.
Uma assinatura.
Conhecida.
Outra folha.
Transferências bancárias.
Datas.
Medicamentos.
Mamadeiras.
Horários.
Tudo organizado.
Tudo planejado.
Não era tentativa.
Era execução lenta.
Metódica.
Miguel estava sendo envenenado há meses.
Lucas sentiu náusea.
Então encontrou o nome.
E ficou imóvel.
Não podia acreditar.
Ao amanhecer, Jonathan recebeu uma ligação.
Número desconhecido.
Atendeu imediatamente.
"Lucas?"
Do outro lado, silêncio.
Depois uma voz.
Baixa.
Cansada.
"Sou eu."
Jonathan fechou os olhos.
Pela primeira vez em dias.
Respirou.
"Graças a Deus."
Lucas permaneceu calado.
"Onde você está?"
"Não sei exatamente."
"Está machucado?"
"Um pouco."
Jonathan apertou o celular.
"Vou buscar você."
"Antes você precisa ver uma coisa."
A voz de Lucas parecia diferente.
Mais pesada.
Mais triste.
"Eu descobri quem tentou matar Miguel."
O coração de Jonathan parou.
"O quê?"
"Eu tenho provas."
Jonathan sentou lentamente.
"Quem?"
Houve silêncio.
Então Lucas respondeu:
"Alguém que você confia."
Duas horas depois.
Lucas chegou à mansão escoltado pela equipe de segurança.
Quando entrou no salão principal, todos estavam lá.
Jonathan.
Victoria.
Roberto.
Leonardo.
Beatriz.
Henrique.
Célia.
Os principais membros da família.
E os funcionários mais antigos.
Lucas entrou machucado.
O lábio ainda cortado.
O braço enfaixado.
Mas seus olhos continuavam firmes.
Jonathan correu até ele.
"Você está bem?"
Lucas assentiu.
Depois entregou o envelope.
"Leia."
Jonathan abriu.
O salão ficou silencioso.
Cada página aumentava o horror.
Transferências ilegais.
Compra de medicamentos.
Registros alterados.
Acesso ao quarto de Miguel.
Manipulação das câmeras.
Jonathan sentiu as mãos tremerem.
Então viu o nome.
E congelou.
"Não..."
Victoria percebeu.
"O que foi?"
Jonathan levantou lentamente os olhos.
Primeiro para Célia.
A governanta.
A mulher que trabalhava para a família há quase trinta anos.
Ela empalideceu.
"Senhor..."
Jonathan mostrou os documentos.
"Você tinha acesso à alimentação."
Célia começou a tremer.
"Eu posso explicar."
"Você tinha acesso às mamadeiras."
"Senhor..."
"Você tinha acesso ao quarto."
As lágrimas apareceram nos olhos dela.
"Eu não queria machucar o bebê."
O salão explodiu.
Victoria levou a mão à boca.
Leonardo ficou branco.
Roberto recuou.
Jonathan avançou.
"Então você admite?"
Célia começou a chorar.
"Eu só fazia o que mandavam."
O silêncio caiu.
Jonathan congelou.
"Mandavam?"
Célia fechou os olhos.
Como se estivesse desistindo de lutar.
"Eu recebia dinheiro."
"De quem?"
Ela não respondeu.
Jonathan gritou:
"DE QUEM?"
A governanta apontou.
Lentamente.
Tremendo.
Para alguém do outro lado da sala.
Todos seguiram o movimento.
Victoria.
O mundo pareceu parar.
Victoria ficou imóvel.
"Não."
Jonathan virou para ela.
"Victoria?"
Ela balançou a cabeça.
"Não."
Célia chorava.
"Ela mandava trocar as mamadeiras."
O salão inteiro entrou em choque.
Victoria começou a recuar.
"Ela está mentindo."
Jonathan sentiu o chão desaparecer.
"Victoria..."
"Ela está mentindo!"
"Por quê?"
Victoria olhou para Miguel, dormindo nos braços da enfermeira.
Depois olhou para Jonathan.
E pela primeira vez havia medo verdadeiro em seus olhos.
"Eu nunca quis matar ele."
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O silêncio ficou mortal.
Jonathan empalideceu.
"Você acabou de admitir."
Victoria percebeu tarde demais.
As lágrimas começaram.
"Eu só queria que ele ficasse doente."
O salão inteiro congelou.
Jonathan parecia incapaz de respirar.
"Você..."
Victoria chorava.
"Você não entende."
"ENTENDER O QUÊ?"
Ela apontou para Lucas.
"Ele apareceu!"
Depois apontou para Miguel.
"Tudo mudou!"
Jonathan recuou.
Como se tivesse levado um soco.
A mulher que ele amava.
A mulher em quem confiava.
A mulher que dormia ao lado dele.
Tinha participado do plano.
Victoria caiu de joelhos.
"Eu nunca quis que fosse tão longe."
Mas ninguém mais acreditava.
Nem Jonathan.
Nem os empregados.
Nem a própria Célia.
Então Lucas falou.
Baixo.
Mas todos ouviram.
"Ela não é a única."
Victoria ergueu a cabeça.
O salão inteiro virou para ele.
Jonathan franziu a testa.
"O que você quer dizer?"
Lucas puxou outra folha do envelope.
Uma última.
A mais importante.
"A pessoa que dava as ordens não era ela."
O coração de todos acelerou.
Lucas olhou diretamente para um homem.
O doutor Henrique Tavares.
O advogado empalideceu.
Pela primeira vez.
De verdade.
Jonathan virou lentamente.
Henrique começou a recuar.
"Jonathan..."
Mas já era tarde.
O segredo estava exposto.
E todos finalmente sabiam.
O verdadeiro monstro nunca havia sido apenas uma governanta.
Nem apenas Victoria.
Era alguém que manipulava todos.
Alguém que conhecia cada segredo da família.
Alguém que lucrava com o caos.
Henrique percebeu.
Acabou.
Ele correu.
Saiu pela porta principal.
Jonathan gritou para os seguranças.
"PEGUEM ELE!"
Lucas correu atrás.
Sem pensar.
Sem medo.
Henrique atravessou o jardim.
Entrou em um carro preto.
Ligou o motor.
Os pneus cantaram.
Lucas chegou à entrada da mansão no exato momento em que o veículo arrancou.
Henrique viu o menino pelo para-brisa.
Os olhos dos dois se encontraram.
Por um segundo.
Apenas um segundo.
Então Henrique sorriu.
Um sorriso terrível.
E virou o volante diretamente na direção de Lucas.
Jonathan apareceu na porta.
E gritou.
"LUCAS!"
Mas já era tarde.
O carro acelerou.
Cada vez mais rápido.
Direto.
Sem frear.
Sem hesitar.
Sem desviar.
Rumo ao garoto.
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