"Herança de Sangue e Traição" PARTE 5
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Jonathan Andrade não era um homem fácil de assustar.
Durante anos, ele havia enfrentado empresários corruptos, políticos perigosos, processos milionários e inimigos que sorriam enquanto planejavam sua queda.
Mas Lucas o deixava inquieto de uma forma diferente.
Não era medo.
Era algo pior.
Era a sensação de estar diante de uma verdade que ainda não tinha nome.
Depois que o bilhete queimado foi encontrado, Jonathan dobrou a segurança da mansão.
Ninguém entrava.
Ninguém saía.
Todos os funcionários passaram a ser vigiados.
Mas, mesmo assim, uma pergunta não saía da cabeça dele.
Quem era Lucas?
Naquela manhã, Jonathan entrou em seu escritório particular antes das seis.
O céu ainda estava escuro sobre São Paulo.
A mansão Andrade dormia em silêncio.
Mas dentro dele, tudo gritava.
Ele ligou para Sérgio Duarte, seu chefe de segurança.
"Quero tudo sobre o menino."
Do outro lado da linha, Sérgio hesitou.
"Tudo o quê, senhor?"
"Tudo."
Jonathan caminhou até a janela.
"Nome completo, família, escola, abrigo, hospital onde nasceu, registro civil, qualquer boletim de ocorrência, qualquer documento."
"Sim, senhor."
Jonathan apertou o celular com força.
"E seja discreto."
"Entendido."
Jonathan desligou.
Ficou parado por alguns segundos, olhando o jardim escuro.
No reflexo do vidro, viu o próprio rosto.
Cansado.
Duro.
Assombrado.
Ele não queria admitir.
Mas aquele menino começava a entrar em lugares que ninguém mais entrava.
Não apenas na mansão.
Dentro dele.
Lucas estava no quarto pequeno que haviam lhe dado no segundo andar.
Sentado no chão, perto da cama.
O bilhete parcialmente queimado estava escondido dentro do forro do tênis.
Ele ainda não confiava em ninguém.
Nem em Jonathan.
Muito menos em Victoria.
A mansão era bonita.
Mas Lucas conhecia bem aquele tipo de beleza.
Beleza que esconde podridão.
Beleza que cobre gritos.
Beleza que manda os pobres saírem pela porta dos fundos.
Ele já tinha visto casas ricas por fora.
Nunca por dentro.
E, agora que estava dentro, entendia uma coisa.
O perigo não vinha da rua.
Vinha dos corredores perfumados.
Das vozes educadas.
Dos sorrisos ensaiados.
Lucas ouviu passos do lado de fora.
Rapidamente, colocou o tênis de volta.
A porta abriu sem bater.
Era Célia, a governanta.
Uma mulher de quase sessenta anos, cabelo preso com força e olhar de quem julgava tudo.
"Levanta."
Lucas olhou para ela.
"Por quê?"
"Você não é hóspede de hotel."
Ela colocou uma bandeja sobre a mesa.
"Come logo. Depois desce."
Lucas observou o café.
Pão.
Leite.
Frutas.
Nada daquilo parecia dele.
"Eu posso comer na cozinha."
Célia riu, seca.
"Na cozinha, os funcionários não querem você."
Lucas ficou em silêncio.
"E aqui em cima também não", completou ela.
A frase não o feriu tanto quanto ela esperava.
Lucas já tinha ouvido pior.
Muito pior.
Célia cruzou os braços.
"Não sei que história você contou para o patrão, mas aqui ninguém é bobo."
"Eu não contei história."
"Menino de rua sempre conta."
Lucas levantou os olhos.
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"Então cuidado."
Célia franziu a testa.
"Cuidado com o quê?"
Lucas respondeu baixo:
"Com quem está contando história de verdade."
A governanta empalideceu por um instante.
Depois endureceu o rosto.
"Você se acha esperto demais."
"Não."
Lucas pegou um pedaço de pão.
"Eu só presto atenção."
Célia saiu batendo a porta.
Lucas continuou sentado.
Mas agora tinha certeza.
Ela sabia de alguma coisa.
Ou tinha medo de alguém.
No escritório, Jonathan recebeu a primeira resposta de Sérgio antes do almoço.
E não gostou do que ouviu.
"Senhor Andrade, encontramos um Lucas."
Jonathan ficou atento.
"E?"
"Lucas Silva. Doze anos. Passagem por um abrigo na zona leste. Mas..."
"Mas o quê?"
"Os dados não batem."
Jonathan estreitou os olhos.
"Explique."
Sérgio respirou fundo.
"O nome Lucas Silva parece ter sido usado apenas em registros recentes. Antes disso, não existe quase nada."
"Como assim não existe?"
"Não há certidão de nascimento com esse perfil."
Jonathan ficou imóvel.
"Continue."
"Não há registro de pai."
"Isso é comum."
"Também não há registro de mãe."
Jonathan se virou lentamente.
"O quê?"
"Não encontramos hospital de nascimento. Não encontramos cadastro escolar antigo. Não encontramos vacinação completa. Nada consistente."
Jonathan apertou a mandíbula.
"Uma criança não simplesmente aparece no mundo aos dez anos, Sérgio."
"Eu sei, senhor."
"Então procure melhor."
"Já estamos procurando."
Jonathan respirou com dificuldade.
"E o abrigo?"
"Ele ficou poucos meses. Fugiu."
"Por quê?"
"Segundo o relatório, ele se envolveu numa briga."
Jonathan fechou os olhos.
"Com outra criança?"
"Não."
Sérgio hesitou.
"Com um funcionário."
Jonathan abriu os olhos.
"Por quê?"
"Ele acusou o funcionário de dar remédio errado para um bebê do abrigo."
O silêncio caiu.
Jonathan sentiu o sangue gelar.
"E o bebê?"
"Sobreviveu."
Jonathan ficou parado.
Lucas já tinha visto aquilo antes.
Não era uma frase vazia.
Era uma cicatriz.
"Quero o nome desse abrigo."
"Casa Esperança, em Itaquera."
"Quero alguém lá hoje."
"Sim, senhor."
Jonathan desligou.
Mas sua mão continuou segurando o celular.
Sem perceber, ele olhava para a porta.
Como se Lucas pudesse aparecer a qualquer momento trazendo mais uma verdade impossível.
À tarde, Victoria entrou no escritório sem pedir licença.
Usava um vestido claro, joias discretas e um perfume caro demais.
Mas seu rosto estava fechado.
"Você mandou investigar o menino."
Jonathan não se surpreendeu.
"Sim."
"Por quê?"
"Porque ele está dentro da minha casa."
"Agora você pensa nisso?"
Jonathan virou-se para ela.
"Victoria."
Ela caminhou pela sala, nervosa.
"Esse garoto salvou Miguel, eu entendi. Mas isso não transforma ele em santo."
"Ninguém disse que ele é santo."
"Então por que você parece encantado?"
Jonathan endureceu.
"Encantado?"
"Você olha para ele como se fosse alguma resposta."
Jonathan ficou em silêncio.
Victoria percebeu que tinha acertado em algum lugar sensível.
E continuou.
"Ele não tem família. Não tem documento. Não tem passado. Você não acha estranho?"
"Acho."
"Então mande embora."
Jonathan riu sem humor.
"Mandar embora a única pessoa que percebeu que nosso filho estava sendo envenenado?"
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Victoria travou.
"Você ainda não tem prova disso."
"Tenho a mamadeira alterada."
"Pode ter sido erro."
"Tenho gravações apagadas."
"Falha técnica."
"Tenho um bilhete queimado."
Victoria arregalou os olhos por uma fração de segundo.
Foi rápido.
Mas Jonathan viu.
"O que você sabe sobre esse bilhete?"
"Nada."
"Eu não disse o conteúdo."
Victoria se recompôs.
"Jonathan, você está paranoico."
"Talvez."
Ele se aproximou.
"Mas meu filho quase morreu duas vezes."
Victoria baixou a voz.
"E você acha que alguém da nossa família faria isso?"
Jonathan respondeu sem hesitar.
"Agora eu acho qualquer coisa."
Victoria o encarou com raiva.
"Você vai destruir essa casa por causa de um menino que nem sabe quem é."
Jonathan também baixou a voz.
"Talvez seja exatamente por isso que eu precise descobrir."
À noite, Sérgio voltou com mais informações.
Desta vez pessoalmente.
Entrou no escritório carregando uma pasta fina.
Jonathan percebeu pelo rosto dele que não era boa notícia.
"Fale."
Sérgio colocou a pasta sobre a mesa.
"Fomos até a Casa Esperança."
"E?"
"A diretora lembra dele."
Jonathan abriu a pasta.
Havia uma foto de Lucas mais novo.
Muito magro.
Olhos enormes.
A mesma expressão séria.
"Ela disse que ele chegou lá levado por uma assistente social."
"Nome?"
"Marina Lopes."
"E onde está essa assistente?"
Sérgio hesitou.
"Morta."
Jonathan levantou os olhos.
"Quando?"
"Três anos atrás. Acidente de carro."
Jonathan sentiu um nó no estômago.
"Conveniente demais."
"Também achei."
Sérgio passou outra folha.
"A diretora disse que Lucas nunca falava sobre a mãe. Mas às vezes tinha pesadelos."
"Sobre o quê?"
"Uma mulher chorando. Uma casa grande. Um homem gritando."
Jonathan ficou rígido.
"Casa grande?"
"Foi o que ela disse."
"O nome Andrade apareceu?"
"Não."
Jonathan continuou folheando.
Então parou.
"Cadê a ficha de entrada dele?"
"Desapareceu."
Jonathan fechou a pasta devagar.
"Claro."
Tudo em Lucas parecia apagado.
Como se alguém tivesse passado uma borracha em sua vida.
Sem pai.
Sem mãe.
Sem nascimento.
Sem passado.
Apenas um menino jogado no mundo.
Mas ninguém apaga uma criança sem motivo.
E ninguém esconde uma origem se ela não ameaça alguém.
"Continue investigando."
"Já tem mais uma coisa, senhor."
Jonathan olhou para ele.
Sérgio tirou um envelope antigo do bolso interno do paletó.
"Isso estava nos arquivos mortos do abrigo. A diretora disse que não lembrava de ter guardado."
Jonathan pegou o envelope.
Estava amarelado.
Sem nome.
Sem data.
Dentro, havia uma fotografia velha.
Jonathan retirou a foto devagar.
E o mundo pareceu parar.
Na imagem, uma jovem mulher sorria diante de um portão enorme.
Cabelos escuros.
Pele morena.
Olhos profundos.
Um vestido simples.
A postura tímida.
Mas o rosto...
Jonathan sentiu o coração falhar.
A mulher na foto tinha os mesmos olhos de Lucas.
O mesmo formato do rosto.
A mesma expressão de quem já havia aprendido a sofrer em silêncio.
Atrás dela, quase fora de foco, aparecia parte de uma casa.
Uma casa que Jonathan reconheceria em qualquer lugar.
A antiga fazenda da família Andrade, no interior de Minas Gerais.
Ele ficou sem ar.
Sérgio percebeu.
"Senhor?"
Jonathan não respondeu.
Virou a foto.
Atrás, escrito à mão, havia apenas um nome.
Ana.
E uma data.
Treze anos atrás.
Jonathan sentiu o sangue desaparecer do rosto.
Porque aquele nome não era desconhecido.
Ele já tinha ouvido antes.
Muito antes.
Antes de Victoria.
Antes de Miguel.
Antes do império Andrade virar manchete.
Ana.
A jovem que um dia havia trabalhado para sua família.
A jovem que desapareceu sem deixar explicação.
A jovem cujo rosto agora olhava para ele através de uma fotografia velha.
E era quase impossível negar.
Lucas parecia com ela.
Demais.
Jonathan segurou a foto com as mãos trêmulas.
Naquele instante, ele entendeu que o mistério de Lucas não começava na rua.
Começava dentro da própria família Andrade.
E talvez tivesse sido enterrado ali por anos.
Até o dia em que um menino invisível entrou no hospital.
E salvou o bebê que alguém queria matar.
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