"A Vendedora de Rua que Conquistou o Bilionário" Capítulo 5
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Naquela noite, quando quase todos os andares da Torre Andrade já estavam vazios, Ana Santos continuava sentada diante do computador.
As luzes do escritório estavam mais fracas.
Do lado de fora das janelas enormes, São Paulo brilhava como um mar de faróis, prédios e vidas apressadas.
Mas Ana não enxergava a cidade.
Ela só enxergava números.
Linhas.
Datas.
Notas fiscais.
Transferências.
Códigos de fornecedores.
Havia algo errado.
Muito errado.
No começo, pareciam apenas pequenas diferenças em relatórios comuns de uma empresa grande.
Um pagamento duplicado aqui.
Uma taxa administrativa estranha ali.
Um fornecedor com nome parecido com outro.
Mas quanto mais Ana cruzava os dados, mais seu estômago se apertava.
Aquilo não era erro.
Era método.
Alguém estava escondendo dinheiro dentro da própria estrutura do Grupo Andrade.
Ana abriu uma planilha antiga de pagamentos de obras no interior de São Paulo.
Depois abriu os comprovantes bancários.
Depois comparou com os contratos assinados.
O valor que saía da conta da empresa era sempre maior do que o valor que chegava aos fornecedores reais.
A diferença desaparecia.
Sumia como água escorrendo por um ralo invisível.
Ana aproximou o rosto da tela.
“Não é possível...”
Ela clicou em outro arquivo.
Depois em outro.
E outro.
O coração começou a bater mais rápido.
Em três meses, as diferenças somavam quase dois milhões de reais.
Em seis meses, passavam de cinco milhões.
Em um ano, o número era assustador.
Dezessete milhões e quatrocentos mil reais.
Ana levou a mão à boca.
O ar pareceu faltar.
Ela pensou em Dona Célia.
Pensou nos remédios que comprava com moedas.
Pensou em quantas famílias trabalhavam naquela empresa.
Pedreiros.
Engenheiros.
Secretárias.
Motoristas.
Gente simples que dependia do salário no fim do mês.
Alguém estava roubando tudo aquilo por dentro.
E fazia tempo.
Ana salvou uma cópia dos arquivos em uma pasta criptografada no computador.
Depois imprimiu algumas páginas, apenas as mais importantes, e guardou dentro da bolsa.
Não podia sair acusando ninguém.
Não sem provas.
Mas também não podia fingir que não tinha visto.
Foi nesse momento que a porta do setor se abriu lentamente.
Ana virou o rosto depressa.
Lucas Andrade apareceu no corredor, sem o paletó, com a gravata afrouxada e os olhos cansados.
“Ana?”
Ela fechou uma das janelas na tela por instinto.
Lucas percebeu.
“Você ainda está aqui?”
“Eu poderia perguntar a mesma coisa.”
Ele se aproximou, olhando para a mesa cheia de papéis.
“Você está trabalhando desde cedo.”
“Eu sei.”
“Já são quase dez da noite.”
Ana olhou para o relógio e se assustou.
Tinha perdido completamente a noção do tempo.
Lucas observou as folhas espalhadas.
“O que você encontrou?”
Ana hesitou.
A confiança que sentia por ele ainda era nova.
Bonita, sim.
Mas nova.
Ela havia aprendido que contar a verdade para a pessoa errada podia destruir uma vida.
“Ainda não sei”, respondeu.
Lucas cruzou os braços.
“Você sabe alguma coisa.”
Ana desviou o olhar.
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“Se eu falar agora e estiver errada, posso acabar com a reputação de alguém.”
“E se você estiver certa?”
Ela ficou em silêncio.
Lucas se aproximou mais.
“Ana, olha para mim.”
Ela levantou o rosto.
Os olhos dele estavam sérios.
Não havia curiosidade vazia ali.
Havia preocupação.
“Se existe algo errado dentro da minha empresa, eu preciso saber.”
Ana respirou fundo.
“Tem dinheiro desaparecendo.”
A frase ficou suspensa no ar.
Lucas não se moveu.
“Quanto?”
“Não sei o total ainda.”
“Ana.”
Ela engoliu seco.
“Mais de dezessete milhões de reais, pelo que consegui rastrear até agora.”
Lucas ficou imóvel.
Por alguns segundos, seu rosto não mostrou nada.
Depois a mandíbula endureceu.
“Dezessete milhões?”
“Pode ser mais.”
Lucas passou a mão pelo cabelo, tentando organizar o impacto.
“De onde?”
“Contratos de obras. Fornecedores terceirizados. Taxas administrativas. Reembolsos. O dinheiro sai corretamente da conta da empresa, mas uma parte vai para empresas que não aparecem nos relatórios principais.”
“Empresas fantasmas?”
“É o que parece.”
Lucas se aproximou da tela.
“Acesso.”
Ana sentou-se novamente e abriu os arquivos.
Enquanto mostrava as planilhas, sua voz foi ficando mais firme.
Ela explicava cada movimento como se montasse um quebra-cabeça.
O valor original.
A nota fiscal.
O recibo.
A transferência.
O desvio.
Lucas observava em silêncio.
Quanto mais Ana falava, mais ele entendia que não estava diante de uma simples assistente.
Estava diante de uma mente brilhante.
Rápida.
Precisa.
Corajosa.
“Quem autorizou esses pagamentos?”, perguntou ele.
Ana hesitou novamente.
Lucas percebeu.
“Fala.”
Ela abriu uma coluna oculta da planilha.
Ali estavam os códigos de aprovação interna.
Três letras apareciam repetidas em quase todos os lançamentos suspeitos.
RRB.
Lucas fechou os olhos por um instante.
“Roberto Ribeiro.”
Ana confirmou em voz baixa.
“Vice-presidente financeiro.”
“Meu vice-presidente.”
“E tio da Camila.”
O silêncio ficou ainda mais pesado.
Lucas apoiou as duas mãos sobre a mesa.
“Roberto trabalha com minha família há vinte anos.”
“Eu sei.”
“Ele era amigo do meu pai.”
Ana olhou para ele com cuidado.
“Isso não torna os números inocentes.”
Lucas respirou fundo.
A frase doeu, mas era verdadeira.
“A Camila tem acesso a essas contas?”
“Não oficialmente.”
“E não oficialmente?”
Ana clicou em outra aba.
“Ela alterou registros de entrada de documentos. Algumas notas fiscais passaram pela recepção executiva antes de serem lançadas no sistema. O usuário dela aparece em horários fora do expediente.”
Lucas virou o rosto devagar.
“Você está dizendo que Camila pode estar ajudando Roberto?”
“Estou dizendo que os rastros dela aparecem onde não deveriam aparecer.”
A raiva voltou aos olhos de Lucas.
Mas havia também dor.
Ser traído por funcionários era uma coisa.
Ser traído por pessoas que frequentavam a casa da sua família era outra.
Enquanto isso, dois andares abaixo, Camila Ribeiro estava dentro de uma pequena sala administrativa, iluminada apenas pela tela do notebook.
Ela ainda não tinha aceitado a queda.
Ainda usava roupas caras, perfume caro, pose cara.
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Mas o crachá antigo não estava mais no pescoço.
E isso a humilhava mais do que qualquer coisa.
Ao lado dela, Roberto Ribeiro falava ao telefone com voz baixa.
Era um homem de cinquenta e oito anos, cabelo grisalho perfeitamente penteado, terno italiano e olhar de quem estava acostumado a mandar sem ser questionado.
“Você tem certeza que ela mexeu nesses arquivos?”, perguntou ele.
Camila apertou os lábios.
“Tenho. A garota passou o dia inteiro fuçando relatório.”
“Que garota?”
“A Ana.”
Roberto soltou uma risada curta.
“A vendedora?”
“Não chama ela assim como se fosse inofensiva. Ela é esperta.”
“Esperta quanto?”
Camila engoliu seco.
“Esperta o suficiente para ter chamado a atenção do Lucas.”
Roberto ficou em silêncio por um segundo.
Depois sua voz mudou.
Mais fria.
“Isso é um problema.”
“Eu avisei.”
“Você devia ter impedido essa mulher de entrar naquele prédio.”
“Eu tentei! Mas o Lucas fez um teatrinho de justiça na frente de todo mundo e me colocou para fora da presidência.”
“Controle sua voz.”
Camila respirou fundo, furiosa.
“Ela vai descobrir alguma coisa, tio.”
Roberto virou-se para a janela escura.
“Então precisamos descobrir algo sobre ela primeiro.”
Camila sorriu.
Era um sorriso venenoso.
“Já comecei.”
Roberto olhou para ela.
“O quê?”
“Pesquisei o endereço dela. Capão Redondo. Mora com a mãe doente e um padrasto bêbado chamado Osvaldo.”
Roberto ajeitou a manga do terno.
“Bom.”
“Bom?”
“Gente desesperada tem ponto fraco.”
Camila entendeu.
E, pela primeira vez desde a demissão, sentiu prazer.
Se Ana queria entrar naquele mundo, teria que sangrar para permanecer nele.
Na sala executiva, Ana ainda mostrava arquivos para Lucas.
O relógio já passava das onze.
O prédio estava quase inteiro em silêncio.
Lucas pediu que ela parasse por um instante.
“Você corre perigo se isso for verdade.”
Ana fechou a pasta.
“Eu já corro perigo todos os dias.”
“Não estou falando da rua.”
“Nem eu.”
Lucas percebeu a sombra no rosto dela.
“Osvaldo?”
Ana não respondeu.
Mas seus olhos entregaram tudo.
Lucas se sentou à frente dela.
“Posso te ajudar.”
Ana balançou a cabeça.
“Você mal me conhece.”
“Conheço o suficiente para saber que você não merece viver com medo.”
Ela riu sem alegria.
“Lucas, você fala como se medo fosse uma porta que a gente abre e sai.”
“Não é?”
“Não. Medo é uma casa inteira. Às vezes você mora dentro dele por tanto tempo que esquece como é respirar fora.”
Lucas ficou calado.
Aquela frase o atingiu.
Ana juntou os papéis.
“Eu preciso ir.”
“Eu te levo.”
“Não.”
“Ana.”
“Não posso chegar em casa de carro de luxo.”
Lucas franziu a testa.
“Por quê?”
“Porque Osvaldo vai querer saber de onde veio. E se ele souber que eu estou perto de alguém rico, vai transformar isso em dinheiro.”
Lucas se levantou.
“Então eu mando um motorista te deixar longe.”
“Não.”
Ela falou mais firme do que esperava.
“Eu preciso controlar o pouco que ainda posso controlar.”
Lucas respeitou o silêncio dela.
Mas odiou a sensação de deixá-la ir sozinha.
Ana pegou a bolsa, mas antes de sair, voltou à tela.
Havia uma última linha que ela ainda não tinha aberto.
Um pagamento pequeno comparado aos outros.
Cento e vinte mil reais.
Empresa: R.R. Consultoria Estratégica.
CNPJ incompleto.
Banco: Atlântico Private.
Conta de destino protegida.
Ana franziu o cenho.
“Espera...”
Lucas se aproximou.
“O que foi?”
“Essa empresa não aparece no cadastro oficial de fornecedores.”
“Pode ser uma consultoria antiga.”
“Não. O código dela foi criado manualmente há oito meses.”
Ana clicou em detalhes.
A tela pediu autenticação.
Ela digitou uma combinação de consulta que havia aprendido analisando o sistema.
A página carregou lentamente.
Então apareceu.
Uma conta bancária vinculada a várias transferências menores.
Oculta sob camadas de relatórios internos.
Não estava nos documentos enviados aos auditores.
Não aparecia nos resumos da diretoria.
Mas estava lá.
Recebendo dinheiro.
Mês após mês.
Ana sentiu o sangue gelar.
Lucas olhou para a tela.
O nome do responsável pela autorização apareceu parcialmente escondido.
Mas as iniciais eram claras.
RRB.
Roberto Ribeiro.
Ana sussurrou:
“Lucas... eu encontrei.”
Ele não respondeu.
Os olhos estavam fixos na tela.
Ana passou o dedo sobre o nome da conta.
“Existe uma conta escondida dentro do sistema financeiro.”
Lucas respirou fundo.
“E Roberto está ligado a ela.”
Ana olhou para ele, apavorada.
Do lado de fora da sala, no corredor escuro, uma pequena luz vermelha piscava discretamente em uma câmera interna.
Alguém também estava assistindo.
E Camila Ribeiro, sentada diante do notebook dois andares abaixo, viu exatamente o momento em que Ana encontrou a conta.
Seu rosto perdeu a cor.
Depois, lentamente, ela pegou o celular.
Ligou para Roberto.
E disse apenas uma frase:
“Tio... a ambulante achou a conta.”
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