"A Vendedora de Rua que Conquistou o Bilionário" Capítulo 1
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PARTE 1
O sol das duas da tarde queimava o asfalto da Avenida Paulista como se São Paulo inteira estivesse dentro de uma panela de pressão.
Os carros buzinavam sem parar.
Ônibus lotados soltavam fumaça escura no meio do trânsito parado, motoboys costuravam entre os retrovisores, vendedores gritavam ofertas nas calçadas e executivos apressados atravessavam a rua olhando para o celular, como se ninguém mais existisse ao redor.
No meio daquele caos, Ana Santos caminhava entre os carros com uma caixa de papelão nos braços.
A caixa estava velha, amassada nas pontas e presa com fita adesiva transparente.
Dentro dela havia paçocas, balas de goma, chicletes, pirulitos, barrinhas de amendoim e alguns pacotinhos de bala de coco que ela mesma havia separado antes de sair de casa.
Ana tinha apenas vinte e dois anos.
Mas seus olhos cansados pareciam carregar muito mais vida do que qualquer pessoa da sua idade deveria suportar.
O cabelo castanho estava preso num coque malfeito, alguns fios grudavam em sua testa suada, e o vestido simples, de algodão azul-claro, já estava manchado de poeira da rua.
Mesmo assim, ela sorria.
Sorria para motoristas irritados.
Sorria para gente que fingia não vê-la.
Sorria para quem fechava o vidro antes mesmo que ela chegasse perto.
"Boa tarde, moço. Uma paçoquinha pra ajudar?"
"Leva uma bala, dona. É só dois reais."
"Deus abençoe, viu?"
Ela repetia aquelas frases dezenas de vezes por hora.
Às vezes, alguém comprava por pena.
Às vezes, alguém comprava por pressa.
Às vezes, ninguém comprava nada.
Naquele dia, Ana precisava juntar duzentos reais antes de anoitecer.
Não era para comprar roupa.
Não era para sair com amigas.
Não era para comer algo melhor.
Era para comprar os remédios da mãe, Dona Célia, que estava deitada havia semanas numa cama estreita, tossindo, com febre, dor no peito e os olhos fundos de quem já não tinha forças nem para reclamar.
Mas os duzentos reais também eram por medo.
Medo de voltar para casa sem dinheiro.
Medo de abrir o portão enferrujado do pequeno sobrado no Capão Redondo e encontrar Osvaldo sentado na sala, bêbado, fedendo a cachaça, esperando por ela.
Osvaldo não era seu pai.
Era seu padrasto.
E Ana nunca havia conseguido chamar aquele homem de outra coisa além de tormento.
Ele era grande, pesado, com a barba sempre por fazer e os olhos vermelhos de álcool.
Desde que havia entrado na vida de sua mãe, a casa tinha deixado de ser um lar e virado uma prisão.
"Você mora debaixo do meu teto, Ana", ele repetia todas as noites, batendo a mão na mesa. "Então vai trazer dinheiro pra dentro dessa casa."
Duzentos reais.
Todos os dias.
Essa era a regra.
Se Ana não entregasse a quantia, Osvaldo descontava em Dona Célia.
Às vezes com gritos.
Às vezes quebrando pratos.
Às vezes segurando o braço frágil da mulher doente com tanta força que deixava marcas roxas na pele.
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Naquela manhã, antes de Ana sair, ele havia apontado o dedo sujo para o rosto dela.
"Se você voltar sem os duzentos, eu juro que sua mãe vai se arrepender de ter te colocado no mundo."
Ana engoliu o choro.
Não respondeu.
Apenas pegou sua caixa de doces, beijou a testa quente da mãe e saiu.
Dona Célia segurou sua mão por alguns segundos.
"Minha filha... não fica até tarde na rua."
Ana sorriu, mesmo com o coração apertado.
"Eu volto logo, mãe. Prometo."
Mas ela sabia que talvez não voltasse logo.
Porque, até aquele momento, depois de seis horas andando sob o sol, só havia conseguido noventa e quatro reais.
Noventa e quatro.
Faltava mais da metade.
Ana parou no canteiro central, respirou fundo e contou as notas pequenas dentro de uma bolsinha escondida por baixo do vestido.
As mãos tremiam.
O suor escorria por sua nuca.
Ela olhou para o céu cinza de poluição e piscou para segurar as lágrimas.
"Não agora", murmurou para si mesma. "Chorar não vende bala."
Então voltou para o trânsito.
O semáforo fechou.
Uma fila de carros importados parou diante dela.
Ana ajeitou a caixa nos braços e se aproximou de uma SUV preta, enorme, com vidro escuro.
Bateu de leve no vidro.
Nada.
Foi para o carro seguinte.
Um homem de meia-idade abriu só uma fresta.
"Não tenho dinheiro trocado."
"Sem problema, moço. Deus abençoe."
O vidro subiu.
No carro ao lado, uma mulher elegante olhou Ana de cima a baixo e virou o rosto com nojo, como se a presença dela sujasse o ar-condicionado do veículo.
Ana sentiu a humilhação subir pela garganta.
Mas engoliu.
Ela já tinha aprendido que, para sobreviver, muitas vezes era preciso fingir que não doía.
De repente, uma buzina forte assustou todo mundo.
Um motorista irritado começou a gritar com outro.
Um motoboy quase bateu no retrovisor de um carro de luxo.
No meio da confusão, uma criança pequena, vendendo panos de prato, tropeçou perto da faixa.
Ana viu o ônibus vindo devagar, mas perto demais.
Sem pensar, largou a própria caixa no chão e correu.
"Ei! Cuidado!"
Ela puxou o menino pelo braço no último segundo.
O ônibus freou com um rangido alto.
Algumas pessoas gritaram.
O menino começou a chorar.
Ana se ajoelhou diante dele, segurando seu rosto.
"Você tá bem? Machucou?"
Ele balançou a cabeça, assustado.
"Minha mercadoria caiu..."
Ana olhou para os panos de prato espalhados no chão, alguns já sujos pela água da sarjeta.
Seu próprio coração apertou.
Ela sabia exatamente o que aquilo significava.
Mercadoria perdida era dinheiro perdido.
Dinheiro perdido era castigo em casa.
Ela pegou vinte reais da própria bolsinha e colocou na mão do menino.
"Vai pra casa, tá? Hoje já deu."
O garoto arregalou os olhos.
"Mas moça, e você?"
Ana sorriu triste.
"Eu me viro."
O menino saiu correndo pela calçada.
Ana voltou até sua caixa.
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Algumas paçocas tinham caído.
Dois pacotes de bala haviam sido pisoteados.
Ela respirou fundo, recolheu o que ainda prestava e tentou não pensar nos vinte reais que agora fariam falta.
Do outro lado da rua, dentro de um carro preto parado no farol, alguém havia visto tudo.
Lucas Andrade observava Ana em silêncio.
Tinha vinte e nove anos, usava um terno cinza impecável e estava sentado no banco traseiro de um carro blindado com motorista.
Era jovem demais para carregar tanta autoridade nos olhos.
E rico demais para saber o preço de uma paçoca vendida no sol.
Lucas era o presidente do Grupo Andrade, uma das maiores construtoras e incorporadoras do Brasil.
Seu nome aparecia em revistas de negócios.
Seu rosto estampava matérias sobre jovens bilionários.
Sua família frequentava festas em mansões no Jardim Europa, jantares fechados com políticos, leilões beneficentes e eventos onde uma garrafa de vinho custava mais do que Ana ganhava em três meses.
Mas, naquele instante, nada daquilo importava.
Lucas estava preso à imagem da moça que tinha dado dinheiro ao menino mesmo precisando desesperadamente vender.
Ele abaixou o vidro do carro lentamente.
O ar gelado escapou de dentro do veículo e bateu no rosto quente de Ana quando ela se aproximou.
Ela percebeu o homem elegante e endireitou a postura.
"Boa tarde, moço. Uma paçoquinha? Um chiclete? Tá fresquinho."
Lucas não respondeu de imediato.
Apenas olhou para ela.
Não com desprezo.
Não com pena.
Mas com uma curiosidade estranha, profunda, quase desconcertante.
Ana se incomodou.
"Se não quiser comprar, tudo bem", disse ela, já se afastando.
"Espera."
A voz dele era firme, mas calma.
Ana parou.
Lucas apontou para a caixa.
"Quanto custa tudo?"
Ela franziu a testa.
"Tudo o quê?"
"Tudo o que você tem aí."
Ana achou que fosse brincadeira.
Olhou para a caixa, depois para ele.
"Moço, não precisa fazer isso por dó."
"Não é dó."
"Então é o quê?"
Lucas respirou fundo.
"Admiração."
Ana ficou sem reação.
A palavra bateu nela de um jeito estranho.
Admiração.
Fazia muito tempo que ninguém a olhava como alguém digno de admiração.
Lucas tirou algumas notas da carteira e entregou a ela.
Ana arregalou os olhos.
Tinha muito mais do que o valor da caixa inteira.
"Eu não posso aceitar isso."
"Pode."
"Não, moço. Eu vendo doce. Não peço esmola."
Lucas sustentou o olhar dela.
"E eu estou comprando os doces."
Ana apertou os lábios.
Havia orgulho ali.
Um orgulho ferido, mas vivo.
Ela contou rapidamente os produtos e devolveu parte do dinheiro.
"Isso aqui é o certo. O resto fica com o senhor."
Lucas olhou para as notas que ela estendia de volta.
Sorriu de leve.
"Você é sempre assim?"
"Assim como?"
"Honesta até quando ninguém está cobrando."
Ana desviou o olhar.
"Minha mãe me criou direito."
Ao ouvir aquilo, alguma coisa passou pelo rosto de Lucas.
Uma sombra breve.
Como se a palavra mãe tivesse tocado uma ferida antiga.
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Antes que ele pudesse responder, um carro atrás buzinou.
O farol ainda estava vermelho, mas os motoristas já se irritavam.
Ana entregou a caixa para o motorista de Lucas, com cuidado.
"Pronto. Tá tudo aí."
Lucas continuava olhando para ela.
"Qual é o seu nome?"
"Ana."
"Ana de quê?"
"Ana Santos."
"Você trabalha aqui todos os dias?"
Ela soltou uma risada fraca.
"Trabalho onde der pra vender alguma coisa."
"E você gosta disso?"
A pergunta fez Ana endurecer.
Por um segundo, ela sentiu raiva.
Não dele exatamente.
Mas do mundo.
Do tipo de pergunta que só alguém muito distante da miséria poderia fazer.
"Gostar?", repetiu ela. "Moço, ninguém gosta de ficar no meio dos carros respirando fumaça, levando fechada, ouvindo desaforo e torrando no sol."
Lucas ficou sério.
Ana continuou, a voz embargada, mas firme.
"Eu faço porque minha mãe tá doente. Porque remédio custa caro. Porque em casa tem conta atrasada. Porque tem gente que depende de mim. Porque se eu parar, tudo desaba."
O silêncio entre os dois ficou pesado.
O barulho da avenida parecia distante.
Lucas olhou para aquela jovem magra, cansada, com as mãos marcadas de carregar caixas, e sentiu uma vergonha que não sabia explicar.
Ele passava todos os dias por aquela avenida dentro de carros blindados.
Via pessoas como Ana pela janela.
Mas nunca tinha parado de verdade para enxergar uma delas.
"Você estudou?", perguntou ele.
Ana ficou surpresa.
"Estudei um pouco."
"Até quando?"
Ela hesitou.
"Fiz faculdade de contabilidade por três anos."
Lucas ergueu as sobrancelhas.
"Contabilidade?"
"Sim. Na São Judas. Bolsa parcial. Eu era boa com números."
"Era?"
Ana sorriu sem alegria.
"Quando minha mãe piorou, eu tive que largar. A vida não pergunta o que a gente quer ser."
Lucas ficou imóvel.
Aquela frase entrou nele como uma faca.
O motorista olhou pelo retrovisor.
"Senhor Lucas, o farol vai abrir."
Lucas ignorou.
Tirou do bolso interno do paletó um cartão branco, grosso, elegante, com letras prateadas.
Grupo Andrade.
Lucas Andrade.
Presidente Executivo.
Ana olhou o cartão sem entender.
Lucas estendeu para ela.
"Venha me procurar amanhã."
Ana não pegou de imediato.
"Pra quê?"
"Tenho uma proposta para você."
Ela deu um passo para trás.
"Olha, se isso for algum tipo de brincadeira..."
"Não é."
"Eu não sou esse tipo de mulher."
Lucas entendeu o medo nos olhos dela e sua expressão mudou na hora.
"Eu não quis ofender você. Estou falando de trabalho."
Ana congelou.
"Trabalho?"
"Sim."
"Na sua empresa?"
"Na minha empresa."
Ela olhou para o cartão como se fosse uma coisa impossível.
Atrás dela, a cidade continuava gritando.
Buzinas.
Motores.
Pessoas.
Mas Ana já não ouvia quase nada.
"Eu não tenho roupa boa", disse ela, quase num sussurro.
"Não estou contratando roupa."
"Eu larguei a faculdade."
"Não estou contratando diploma."
"Eu vendo doce na rua."
"Hoje."
Ana levantou os olhos.
Lucas falou com uma segurança que ela nunca tinha ouvido de ninguém.
"Amanhã pode ser diferente."
O semáforo abriu.
Os carros começaram a se mexer.
O motorista ficou tenso.
Ana segurou o cartão com cuidado, como se tivesse medo de amassar o próprio destino.
Lucas olhou para ela uma última vez.
"Dez horas da manhã. Torre Andrade, na Faria Lima. Diga na recepção que tem uma reunião comigo."
Ana mal conseguia respirar.
"Eu... eu não sei se posso."
"Pode."
"Mas o senhor nem me conhece."
Lucas olhou para a avenida, depois para ela.
"Conheço o suficiente."
O carro começou a andar lentamente.
Ana acompanhou alguns passos, ainda segurando o cartão.
Lucas abaixou um pouco mais o vidro e repetiu, com a voz firme:
"Venha me procurar amanhã."
O carro preto desapareceu no trânsito da Avenida Paulista.
Ana ficou parada no meio-fio, com o cartão na mão e o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito.
Pela primeira vez em muitos anos, ela sentiu algo perigoso.
Esperança.
Mas, enquanto olhava para aquele cartão brilhando sob o sol, Ana não percebeu o homem encostado atrás de uma banca de jornal do outro lado da rua.
Osvaldo.
Seu padrasto.
Com os olhos vermelhos.
Com a camisa aberta.
Com uma garrafa escondida dentro de um saco plástico.
Ele havia seguido Ana desde cedo.
E tinha visto tudo.
O carro de luxo.
O homem rico.
O dinheiro.
O cartão.
A chance.
Osvaldo apertou os dentes e sorriu de um jeito cruel.
"Então agora a princesinha arrumou um milionário..."
Ele cuspiu no chão.
E saiu andando antes que Ana pudesse vê-lo.
Naquela noite, quando ela voltasse para casa, a esperança que Lucas Andrade havia colocado em suas mãos seria também o motivo de um novo inferno.
Porque, para Ana Santos, nada de bom chegava sem cobrar um preço.
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