"A Menina Que Roubou Leite" Capítulo 4
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O estacionamento inteiro parecia ter parado de respirar.
A caminhonete preta permanecia imóvel.
Os faróis iluminavam o asfalto molhado.
E no centro daquela luz estava Ricardo Andrade.
Elegante.
Impecável.
Perigoso.
O mesmo sorriso frio continuava em seu rosto.
Como se estivesse chegando para um jantar de negócios.
Não para destruir mais uma família.
Helena apertou Sofia contra o corpo.
Com tanta força que a menina quase perdeu o equilíbrio.
Miguel começou a chorar mais alto no banco traseiro.
O som ecoou na noite.
Mas Ricardo nem sequer olhou para o bebê.
Os olhos dele estavam fixos em Gabriel.
“Boa noite, irmão.”
Gabriel sentiu o sangue ferver.
Oito anos.
Oito anos acreditando que tinha perdido tudo por acaso.
Agora ele olhava para Ricardo e via cada peça do quebra-cabeça se encaixando.
Cada mentira.
Cada manipulação.
Cada tragédia.
“Você me seguiu?”
Ricardo abriu um sorriso.
“Você sempre foi dramático.”
“Responde.”
“Eu não precisei seguir ninguém.”
Ele colocou as mãos nos bolsos.
Calmo.
Relaxado.
Como se controlasse completamente a situação.
“Helena vive fugindo há anos.”
A mulher imediatamente tremeu.
Gabriel percebeu.
Ricardo gostou.
Gostou de vê-la assustada.
Gostou de sentir aquele poder.
“Não chega perto dela.”
A voz de Gabriel saiu firme.
Ricardo ergueu as sobrancelhas.
“Está defendendo uma sequestradora agora?”
O silêncio caiu.
Sofia arregalou os olhos.
Gabriel ficou imóvel.
Helena fechou os olhos.
Como alguém que já sabia exatamente qual seria o próximo passo.
Ricardo deu mais um passo.
“É isso que ela é.”
“Mentira.”
“Tem certeza?”
Gabriel avançou.
Mas Helena segurou seu braço.
“Não.”
Ele olhou para ela.
A mulher estava desesperada.
“Não faz isso.”
Ricardo riu.
“Viu?”
Gabriel sentiu a raiva aumentar.
Aquela risada.
Aquela arrogância.
Era exatamente igual à de anos atrás.
A mesma expressão que Ricardo usava quando destruía alguém.
E sabia que sairia impune.
“Por que está fazendo isso?”
Ricardo fingiu surpresa.
“Fazendo o quê?”
“Mentindo.”
“Eu não estou mentindo.”
Gabriel cerrou os punhos.
“Você armou tudo.”
“Tudo o quê?”
“Minha prisão.”
Ricardo suspirou.
Como um pai cansado corrigindo uma criança.
“Você ainda acredita nessa fantasia?”
Helena deu um passo à frente.
“Eu tenho provas.”
Pela primeira vez o sorriso dele vacilou.
Foi apenas um segundo.
Mas Gabriel percebeu.
E Helena também.
Ricardo recuperou imediatamente a calma.
“Provas?”
Ele riu.
“Você continua com essa história?”
“Você sabe que estou falando a verdade.”
“Não.”
Ricardo apontou para ela.
“Você é uma mulher desequilibrada.”
Sofia levantou a cabeça.
“Não fala assim da minha mãe!”
Ricardo olhou para a menina.
E imediatamente mudou de expressão.
Como um ator mudando de personagem.
O sorriso ficou gentil.
A voz ficou suave.
“Oi, Sofia.”
A menina se escondeu atrás de Helena.
“Não.”
“Você lembra de mim?”
Sofia balançou a cabeça.
“Não.”
“Claro que lembra.”
Ricardo ajoelhou devagar.
Mantendo distância.
Como alguém tentando conquistar a confiança de uma criança.
“Eu sou seu tio Ricardo.”
Gabriel sentiu nojo.
Porque conhecia aquele homem.
Conhecia aquele sorriso.
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Conhecia aquela máscara.
“Levanta.”
Ricardo ignorou.
“Eu sempre quis conhecer você.”
Sofia não respondeu.
“Eu procurei vocês durante anos.”
Helena soltou uma risada amarga.
“Mentiroso.”
Ricardo continuou olhando apenas para Sofia.
“Eu estava preocupado.”
“Para.”
“Eu estava tentando ajudar.”
“PARA!”
A voz de Helena ecoou pelo estacionamento.
Miguel começou a chorar ainda mais.
Sofia também se assustou.
Ricardo lentamente voltou a ficar de pé.
O sorriso desapareceu.
“Está vendo?”
Ele apontou para Helena.
“Ela sempre faz isso.”
Gabriel sentiu a mandíbula travar.
“Faz o quê?”
“Perde o controle.”
Helena respirava rápido.
Muito rápido.
O corpo inteiro tremia.
Ricardo aproveitou.
Como sempre.
“Foi por isso que precisei intervir.”
“Intervir?”
“Ela fugiu.”
Gabriel ficou em silêncio.
“Ela desapareceu.”
Outro passo.
“Levou as crianças.”
Mais um passo.
“E passou oito anos escondendo a verdade.”
Gabriel sentiu um peso enorme dentro do peito.
Porque havia algo cruel naquela mentira.
Ela era construída em cima de fatos reais.
Helena realmente fugiu.
Helena realmente desapareceu.
Helena realmente escondeu Sofia.
Era isso que tornava Ricardo tão perigoso.
Ele nunca mentia completamente.
Ele distorcia.
Manipulava.
Transformava verdades em armas.
“Você está tentando inverter tudo.”
Ricardo olhou para Gabriel.
“Estou tentando proteger você.”
Gabriel quase riu.
“Me proteger?”
“Claro.”
“De quem?”
“Dela.”
Helena começou a chorar.
Não por fraqueza.
Mas por desespero.
Porque já tinha ouvido aquele discurso antes.
Muitas vezes.
“Você sempre foi ingênuo, Gabriel.”
Ricardo caminhou lentamente ao redor dele.
Como um predador.
“Você sempre acreditou nas pessoas erradas.”
Gabriel não desviou o olhar.
“E você sempre acreditou que era Deus.”
Ricardo sorriu.
“Alguém precisava liderar a família.”
“Não.”
Gabriel deu um passo.
“Alguém precisava destruí-la.”
O sorriso desapareceu.
Pela primeira vez.
Os dois irmãos ficaram frente a frente.
O ar parecia eletricidade.
Sofia observava sem entender.
Miguel chorava sem parar.
Helena tremia.
Era como assistir a uma explosão anunciada havia anos.
“Você sabe o que eu vejo?”
Ricardo perguntou.
Gabriel permaneceu em silêncio.
“Eu vejo um homem emocional.”
Outro passo.
“Impulsivo.”
Mais um.
“Manipulável.”
Gabriel sentiu a raiva subir.
Mas não falou nada.
Ricardo continuou.
“E é exatamente por isso que você perdeu tudo.”
Helena fechou os olhos.
A frase atingiu Gabriel como um soco.
“Você não perdeu sua vida por minha causa.”
Ricardo apontou para Helena.
“Perdeu por causa dela.”
“Chega.”
“Ela te distraiu.”
“Chega.”
“Ela te fez escolher o lado errado.”
“CHEGA!”
O grito ecoou pelo estacionamento.
Até Miguel parou de chorar por um instante.
Ricardo ficou em silêncio.
Observando.
Calculando.
Como sempre fazia.
Então olhou para Sofia.
A menina segurava a garrafa de leite como se fosse um tesouro.
Aquela simples imagem pareceu divertir Ricardo.
“Você roubou isso?”
Sofia não respondeu.
“Foi por causa do leite?”
Helena imediatamente se colocou na frente da filha.
“Não fala com ela.”
Ricardo ignorou.
“Você estava com fome?”
Sofia baixou a cabeça.
Gabriel sentiu o coração apertar.
Ricardo observou tudo.
Cada reação.
Cada lágrima.
Cada emoção.
Como alguém estudando fraquezas.
“Coitada.”
A palavra saiu carregada de falsa compaixão.
“Olha o que sua mãe fez com você.”
“Para de mentir.”
Helena estava chorando novamente.
“Para de destruir nossas vidas.”
Ricardo suspirou.
“Helena.”
A voz ficou fria.
Perigosamente fria.
“Você realmente acredita que alguém vai acreditar em você?”
Ela ficou imóvel.
“Uma mulher sem endereço.”
Outro golpe.
“Sem emprego fixo.”
Mais um.
“Vivendo dentro de um carro.”
Gabriel viu a dor atravessar o rosto dela.
Mas Ricardo não parou.
“Com duas crianças.”
Ele sorriu.
“Parece uma ótima testemunha.”
Helena começou a tremer.
Não de medo.
De raiva.
Anos de humilhação.
Anos de perseguição.
Anos de sofrimento.
Tudo voltando ao mesmo tempo.
“Você é um monstro.”
Ricardo deu de ombros.
“E você é uma mentirosa.”
O silêncio voltou.
Pesado.
Insuportável.
Então Gabriel fez a pergunta que queimava dentro dele.
“Por que está tão interessado nessas crianças?”
Ricardo olhou para ele.
O sorriso retornou.
Lento.
Calculado.
Cruel.
Como alguém prestes a revelar apenas parte da verdade.
“Finalmente.”
Gabriel sentiu o coração acelerar.
Helena imediatamente empalideceu.
“Não.”
Ricardo ignorou.
“Você quer saber por quê?”
“Responde.”
“Porque elas importam.”
Gabriel deu mais um passo.
“Por quê?”
Ricardo olhou para Sofia.
Depois para Miguel.
Depois voltou os olhos para Gabriel.
A expressão dele era quase divertida.
Como alguém que saboreava cada segundo.
“Porque você merece saber.”
Helena começou a chorar.
“Não...”
Ricardo sorriu.
E então pronunciou as palavras que fizeram o mundo parar.
“Essas crianças são do Gabriel.”
O estacionamento mergulhou no silêncio.
Sofia arregalou os olhos.
Miguel começou a chorar novamente.
Helena levou a mão à boca.
Gabriel ficou imóvel.
Sem conseguir respirar.
Sem conseguir pensar.
Porque pela primeira vez alguém além de Helena acabava de confirmar a verdade.
Sofia.
Miguel.
Seus filhos.
E agora não havia mais volta.
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