"A Menina Que Parou Meu Casamento" Capítulo 2
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A chuva castigava as ruas de São Paulo.
Os limpadores do para-brisa se moviam freneticamente, mas Rafael Montenegro mal conseguia enxergar a estrada.
Suas mãos apertavam o volante com tanta força que os nós dos dedos haviam ficado brancos.
Ao seu lado, Isabela permanecia em silêncio.
A menina abraçava a fotografia rasgada como se fosse um tesouro.
Ou uma última esperança.
Durante vários minutos, ninguém falou nada.
O som da chuva preenchia o carro.
Mas dentro da cabeça de Rafael existia apenas um nome.
Camila.
Camila Oliveira.
Seis anos.
Seis malditos anos.
E agora ela reaparecia justamente no dia do seu casamento.
Como aquilo era possível?
Como ela podia simplesmente voltar depois de destruir tudo?
Depois de desaparecer sem uma explicação?
Depois de partir sem sequer lhe dar a chance de lutar por ela?
Rafael apertou os dentes.
A dor antiga voltou com uma força brutal.
Porque havia uma época em que ele acreditava que Camila era o amor da sua vida.
E talvez ainda acreditasse.
Seis anos antes...
Rafael não era o homem frio e controlado que aparecia nas revistas de negócios.
Naquela época, tinha apenas vinte e oito anos.
Era impulsivo.
Sonhador.
E completamente apaixonado.
Eles se conheceram na Clínica Santa Helena, uma unidade médica de luxo pertencente parcialmente ao Grupo Montenegro.
Camila trabalhava como enfermeira.
Rafael havia ido visitar um diretor da empresa que estava internado.
O encontro aconteceu por acaso.
Ou pelo menos foi o que ele acreditou durante muito tempo.
Ela apareceu no corredor usando uniforme azul-claro.
Os cabelos presos.
Nenhuma maquiagem.
Nenhuma joia.
Nada que chamasse atenção.
Mas quando sorriu...
Rafael sentiu algo que nunca havia sentido antes.
Nos meses seguintes, inventou dezenas de desculpas para voltar à clínica.
Às vezes aparecia para visitar alguém.
Às vezes para verificar relatórios.
Às vezes sem motivo algum.
A verdade era simples.
Ele queria vê-la.
E Camila também começou a esperar por ele.
O relacionamento nasceu devagar.
Primeiro vieram os cafés depois do expediente.
Depois os passeios pelo Parque Ibirapuera.
Depois os finais de semana escondidos no litoral norte.
Quando perceberam, estavam apaixonados.
Profundamente.
Completamente.
Pela primeira vez na vida, Rafael imaginava um futuro longe dos negócios e das obrigações familiares.
Com ela.
Somente com ela.
Mas havia um problema.
Augusto Montenegro.
Seu pai.
O homem mais poderoso que ele conhecia.
O patriarca da família.
O fundador do império Montenegro.
O homem que controlava tudo.
Inclusive a vida dos filhos.
Rafael ainda lembrava da noite em que contou sobre Camila.
O jantar aconteceu na mansão da família, no Morumbi.
A mesa estava impecável.
Os empregados serviam vinho francês.
Tudo parecia normal.
Até Rafael dizer:
“Estou apaixonado.”
Augusto levantou os olhos.
“Por quem?”
“Camila Oliveira.”
Silêncio.
“Quem é?”
“Uma enfermeira.”
O clima congelou imediatamente.
Helena Montenegro tentou mudar de assunto.
Mas Augusto não deixou.
“Uma enfermeira?”
Rafael assentiu.
“Eu amo ela.”
O rosto do pai endureceu.
“Você é um Montenegro.”
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“Eu sei.”
“Então comece a agir como um.”
A discussão explodiu.
Foi a primeira vez que Rafael enfrentou Augusto de verdade.
E também foi a primeira vez que ouviu uma ameaça.
“Se insistir nessa mulher, vai perder tudo.”
Mas Rafael não recuou.
Pela primeira vez na vida.
Escolheu Camila.
Ou pelo menos tentou.
No banco do carro, Isabela continuava em silêncio.
Rafael olhou rapidamente para ela.
O coração apertou.
Os mesmos olhos escuros.
O mesmo formato do rosto.
Até a pequena covinha na bochecha parecia familiar.
Era impossível ignorar.
Ele voltou a olhar para a estrada.
Tentando afastar pensamentos perigosos.
Mas as lembranças continuavam.
Meses depois daquela discussão, ele havia pedido Camila em casamento.
Não com luxo.
Não com fotógrafos.
Não com helicópteros.
Apenas os dois.
Sentados na areia de Ilhabela ao pôr do sol.
Camila chorou quando viu o anel.
“Sim”, respondeu ela.
Sem hesitar.
Foi um dos dias mais felizes da vida dele.
E talvez justamente por isso tudo tenha acabado tão rápido.
Poucas semanas depois, Camila começou a mudar.
Ficou distante.
Assustada.
Nervosa.
Ela dizia que estava tudo bem.
Mas claramente não estava.
“Está acontecendo alguma coisa?”
“Não.”
“Tem certeza?”
“Tenho.”
Mas ela mentia.
Hoje Rafael tinha certeza disso.
Porque naquela época não sabia que Augusto continuava interferindo.
Não sabia que seu pai visitava Camila escondido.
Não sabia que ameaças estavam sendo feitas.
Não sabia de nada.
Tudo aconteceu numa única manhã.
Rafael acordou.
Pegou o celular.
E encontrou uma mensagem.
Apenas uma.
Curta.
Fria.
Cruel.
"Não venha me procurar."
Só isso.
Nenhuma explicação.
Nenhuma despedida.
Nenhum motivo.
Ele correu para o apartamento dela.
Vazio.
Telefonou.
Número desligado.
Foi à clínica.
Camila havia pedido demissão.
Desapareceu.
Como se nunca tivesse existido.
Durante meses ele procurou por ela.
Contratou investigadores.
Usou contatos.
Tentou de tudo.
Nada.
Nenhum sinal.
Nenhuma pista.
Nenhuma resposta.
Aos poucos, foi convencendo a si mesmo de que ela o abandonara.
Era a única explicação possível.
Ou pelo menos a única que conseguia suportar.
Mas agora...
Tudo parecia diferente.
A fotografia.
A menina.
O hospital.
As palavras dela.
Minha mãe disse que você ajudaria.
Aquilo não parecia a história de uma mulher que simplesmente decidiu ir embora.
Parecia a história de alguém que foi obrigada a desaparecer.
O celular de Rafael vibrou.
Valentina.
Ele rejeitou a ligação.
Segundos depois.
Outra.
Depois outra.
Depois outra.
Ele desligou o aparelho.
Não conseguia falar com ela.
Não naquele momento.
Não quando o passado estava voltando para destruí-lo.
“Moço?”
A voz de Isabela interrompeu seus pensamentos.
Rafael olhou para ela.
“O que foi?”
A menina parecia nervosa.
“Você está bravo comigo?”
A pergunta atingiu seu peito.
“Não.”
“Tem certeza?”
“Tenho.”
Ela baixou os olhos.
“Eu estraguei seu casamento.”
Rafael ficou em silêncio.
Porque ela tinha razão.
Mas não da forma que imaginava.
“Você não estragou nada.”
“Todo mundo estava olhando feio pra mim.”
“Eles estavam olhando porque ficaram surpresos.”
“Você vai ajudar minha mãe?”
Rafael demorou alguns segundos para responder.
“Vou.”
“Promete?”
“Prometo.”
Isabela pareceu relaxar.
Pela primeira vez desde que entrou no carro.
Mas Rafael não conseguiu sentir alívio.
Porque existia uma pergunta crescendo dentro dele.
Uma pergunta que se tornava mais impossível de ignorar a cada minuto.
Ele olhou novamente para a menina.
Para os olhos.
Para o nariz.
Para o sorriso tímido.
Para a covinha.
E então perguntou:
“Isabela...”
Ela ergueu a cabeça.
“Hum?”
“Seu pai...”
A menina ficou quieta.
“Você conhece seu pai?”
Os dedos dela apertaram a fotografia.
“Não.”
Rafael sentiu o coração acelerar.
“Sua mãe nunca falou dele?”
“Ela dizia que ele era uma pessoa boa.”
“Só isso?”
“Só.”
O silêncio voltou.
Mas agora estava carregado.
Pesado.
Perigoso.
A chuva diminuía lá fora.
O hospital Santa Luzia já podia ser visto algumas quadras adiante.
Rafael sentiu um frio percorrer a espinha.
Porque uma verdade terrível começava a se formar.
Uma verdade que ele ainda tinha medo de admitir.
Então decidiu perguntar.
Talvez pela última vez.
Talvez para acabar com a dúvida.
“Isabela...”
A menina virou o rosto.
“Sim?”
Sua voz saiu quase num sussurro.
“Quantos anos você tem?”
Ela sorriu de leve.
Como se aquela fosse a pergunta mais simples do mundo.
Então respondeu baixinho:
“Tenho seis anos.”
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