"A Rainha na Gaiola" Capítulo 8
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Capítulo 8: A Sombra de Victoria
O cheiro de cera de abelha e papel envelhecido dominava o ar condicionado do escritório.
Isabella passava uma flanela de microfibra pelas prateleiras de carvalho maciço, onde as encadernações em couro de livros de economia clássica e direito internacional repousavam como uma muralha cinzenta.
Ela movia-se com a precisão de um fantasma doméstico, o pano deslizando pelas lombadas douradas sem produzir impacto barulhento contra a madeira.
Sob o pretexto de organizar a biblioteca particular do marido, seus olhos verde-âmbar rastreavam cada quina, cada recesso e cada junção dos painéis de parede que emolduravam o santuário de Gabriel.
Ela parou diante da terceira estante, onde os volumes sobre falências corporativas e liquidações de ativos estavam alinhados.
Ao puxar um pesado tratado de direito fiscal de Delaware, o som de algo raspando no fundo do nicho chamou sua atenção.
Não era madeira comum. O som tinha a textura oca do metal oculto.
Isabella tencionou os músculos da face, mantendo os braços rentes ao corpo para evitar o campo de visão da câmera do teto.
Ela introduziu os dedos longos na fresta escura atrás da prateleira, tateando a parede de fundo até que suas unhas encontraram uma pequena saliência de aço escovado.
Um compartimento secreto de pressão, camuflado pela marcenaria de elite.
Ela aplicou uma força exata no canto inferior esquerdo. O painel cedeu com um clique hidráulico abafado, revelando um recuo estreito e empoeirado que o sistema de segurança de Antony parecia ter ignorado nas últimas varreduras.
Lá dentro, envolto em um pedaço de feltro escuro, repousava um diário antigo com capa de couro flexível e bordas gastas.
Isabella retirou o objeto com rapidez, escondendo-o sob o pano de limpeza. Ela abriu a primeira página com os dedos trêmulos, as pupilas dilatando-se ao reconhecer uma caligrafia fina, elegante e visivelmente apressada, riscada com tinta azul-firme.
Propriedade de Victoria.
O nome esmagou o oxigênio do peito de Isabella. Victoria era a ex-noiva de Gabriel, a mulher cujo rosto havia sumido das colunas sociais de Manhattan dois anos antes do casamento de Isabella, sob o rumor de uma viagem repentina e sem retorno para a Europa.
Ela folheou os registros diários com velocidade cirúrgica, os olhos pulando entre os parágrafos curtos.
"Gabriel não gerencia fundos; ele constrói armadilhas de liquidez", dizia a nota datada de catorze de março daquele ano.
"Descobri o rastro das empresas de fachada em Caimã. Ele sabe que eu sei. O olhar dele mudou hoje de manhã."
O choque atingiu as feições de Isabella como um soco físico. Uma empatia macabra e fria tomou conta de suas veias enquanto ela absorvia o desespero crescente impresso nas linhas seguintes, onde a caligrafia de Victoria perdia a forma, tornando-se trêmula e fragmentada.
"Ele confiscou meu passaporte", ditava a última página manuscrita, interrompida no meio do parágrafo.
"Disse que sou o seu maior ativo e que ativos não deixam o cofre. Se você estiver lendo isso, não acredite na história da viagem... Ele não vai me deixar sair viva."
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O aviso fantasmagórico ecoou no silêncio do escritório. A confirmação gélida de que Gabriel era capaz de eliminar fisicamente qualquer um que contrariasse o sistema de sua linhagem caiu sobre os ombros de Isabella com o peso de uma sentença de morte.
Ela estava dividindo a cama com um monstro implacável, cujo sadismo ia muito além da asfixia financeira.
...
A dor daquela constatação fixou-se na base de sua nuca, mas Isabella forçou sua mente a manter o foco operacional. Ela virou a última página do diário, procurando por coordenadas numéricas ou nomes que pudessem servir como munição técnica.
Na contracapa interna do couro, riscado à pressa com a ponta de um grampo, havia um único termo sublinhado duas vezes.
Nemesis.
Abaixo da palavra, uma sequência de comandos de rede indicava um protocolo de acesso remoto fora do servidor principal da Vance Enterprises.
"A conta oculta que ele não conseguiu apagar", dizia a anotação final de Victoria. "O calcanhar de Aquiles do fundo The Noose. Está viva no escuro da rede."
O prenúncio do vírus tinha um nome. O código de destruição do império já havia sido batizado pela mulher que viera antes dela.
Um baque pesado ecoou no hall de entrada da cobertura, seguido pelo som de passos firmes e cadenciados marchando pelo corredor de mármore Carrara.
O ritmo era inconfundível. Gabriel estava retornando mais cedo de sua rodada de negócios no andar de cima.
A descarga de adrenalina limpou os vestígios de pânico do rosto de Isabella.
Com um movimento fluido, ela fechou o diário de couro flexível e o deslizou para dentro do forro rasgado de seu sobretudo preto, que repousava sobre o encosto da cadeira lateral.
Ela empurrou o painel secreto da estante de carvalho, encaixando a marcenaria de volta no lugar com uma pressão firme antes do estalo da fechadura.
Gabriel cruzou o vão da porta no exato segundo em que ela passava a flanela de microfibra pela lombada do último livro de direito.
Os olhos azul-glacial dele fixaram-se na silhueta da esposa, as pálpebras estreitando-se diante da quietude do ambiente.
"Você passa muito tempo limpando este escritório, Bella", o barítono dele cortou o ar, o tom carregado da desconfiança territorial de sua linhagem.
Isabella virou-se devagar, segurando o pano com os nós dos dedos relaxados, o semblante perfeitamente esculpido na doçura que ele exigia.
"Gosto de garantir que seus livros estejam na ordem correta, Gabriel", ela respondeu, a voz mansa, sem o menor traço do terror que queimava suas costelas. "Sei o quanto você preza pela simetria do ambiente."
Gabriel deu dois passos para dentro do recinto, a presença alta projetando uma sombra longa sobre a mesa de ébano. Ele estendeu a mão direita enluvada de couro, tocando o queixo de Isabella com uma pressão sutil que a obrigou a sustentar o olhar gélido dele.
"Sua dedicação é admirável, minha querida", ele sussurrou, as pupilas escanando as linhas da face dela em busca de falhas.
"Mas não quero você se desgastando com a poeira do passado. O que está trancado nestas estantes pertence a mim."
"Eu sei", ela limitou-se a dizer, mantendo a imobilidade absoluta dos músculos faciais.
Gabriel soltou o queixo dela com um puxão rápido e caminhou em direção à mesa central, ligando o monitor privado com um comando biométrico.
Isabella pegou seu sobretudo preto com cuidado, sentindo o volume rígido do couro de Victoria pressionado contra o tecido do forro interno.
Ela caminhou em direção à saída com passos calmos e cadenciados, cruzando o batente da porta sob o olhar atento da câmera do corredor.
A gaiola continuava selada pelas trancas de aço, mas a sombra da primeira prisioneira agora marchava ao lado dela no escuro da fortaleza.
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