"A Rainha na Gaiola" Capítulo 7
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Capítulo 7: O Jantar dos Lobos
O salão principal da cobertura cheirava a fumo de charuto cubano, perfumes de nicho e acordes de um quarteto de cordas contratado para camuflar o tilintar dos talheres de prata. A iluminação de Manhattan, vista através das vidraças imensas, servia como uma pintura de fundo viva, fria e cara.
Gabriel movia-se entre os círculos de convidados com a fluidez de um predador em seu próprio território. Isabella caminhava ao lado dele, vestindo um longo de veludo vermelho-escuro que contrastava com a assepsia do mármore Carrara.
"Mantenha o sorriso, Bella", Gabriel sussurrou perto do ouvido dela, a mão enluvada de couro preto descendo para a curva de sua cintura.
"Hoje o mercado asiático está olhando para nós. E você é o meu melhor cartão de visitas."
"Sempre, Gabriel", ela limitou-se a responder, a voz suave modulada na frequência exata da esposa troféu.
Eles pararam diante de um homem de meia-idade, cabelos grisalhos cortados à escovinha e um terno de corte impecável.
O Senador Marcus segurava uma taça de conhaque, os olhos claros brilhando com a malícia típica das raposas políticas de Washington.
"Gabriel, meu caro", Marcus estendeu a mão livre, apertando o ombro do bilionário com uma intimidade corporativa.
"O fundo The Noose está na boca de todos os comitês esta semana. E vejo que a sua joia mais preciosa finalmente saiu do isolamento."
O olhar do político desceu para o pulso de Isabella, onde o bracelete de diamantes capturava os feixes do lustre de cristal.
"O Senador Marcus tem sido um grande amigo da Vance Enterprises, Bella", Gabriel comentou, a vaidade extrema inflando seu tom de voz barítono.
"Sem o apoio dele nos comitês de regulação fiscal, nossas operações em Delaware não teriam metade da... eficiência atual."
"O mercado precisa de estabilidade, minha querida senhora Vance", Marcus piscou, dando um gole longo no conhaque. "E Gabriel sabe como garantir que a balança sempre penda para o lado correto."
Isabella inclinou a cabeça milimetricamente, sustentando o teatro social com um brilho falso nos olhos verde-âmbar.
"Um trabalho admirável, Senador", ela pontuou, a fala mansa ocultando o foco cirúrgico de suas pupilas.
"Imagino que gerenciar tantas... variáveis regulatórias exija um alinhamento perfeito entre Brasília, Washington e Nova York."
"Mais do que você imagina", Marcus riu, lisonjeado pela aparente ingenuidade da jovem.
"Especialmente quando certos investidores esquecem de declarar o balanço patrimonial antes de cruzar as fronteiras da alfândega."
Gabriel soltou uma risada baixa, descontraída, mas os nós de seus dedos apertaram a cintura de Isabella com um aviso silencioso de que a conversa técnica não pertencia a ela.
"Marcus está sendo modesto, Bella", Gabriel cortou o assunto, atraindo a atenção do político de volta para si. "O verdadeiro milagre é como ele consegue manter o sigilo bancário dos nossos maiores cotistas alemães longe do radar da Receita."
Isabella deu um gole milimétrico no champanhe morno, registrando cada sobrenome e cada termo técnico citado entre os dois.
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A vulnerabilidade fiscal do senador estava exposta ali, embrulhada em arrogância e falsa segurança alcóolica. Aquelas coordenadas seriam anexadas ao próximo pacote de dados destinado à inteligência do FBI.
Um prazer gélido e silencioso preencheu o peito de Isabella enquanto ela mapeava a rede de corrupção do marido sob a luz dos lustres.
...
O garçom aproximou-se com uma bandeja de prata, servindo mais bebida aos homens. Gabriel afastou-se dois passos para saudar um grupo de banqueiros vindos de Frankfurt, deixando Isabella temporariamente à margem do círculo principal.
Ela girou o corpo com elegância, pretendendo caminhar em direção à varanda interna, quando um homem de terno risca-de-giz barrou sua trajetória de forma sutil.
Ele era mais velho, ostentava feições duras e trazia um broche de lapela que Isabella reconheceu de imediato: o emblema da antiga câmara de comércio que seu pai frequentava antes da ruína.
O homem parou a poucos centímetros de distância, fixando os olhos nela com um reconhecimento cortante que fez o sangue de Isabella esfriar por um segundo.
"Isabella Silva", o homem pronunciou o nome antigo dela em um sussurro denso, quase inaudível para o restante do salão. "Eu reconheceria esses olhos em qualquer lugar de Manhattan. Seu pai me falou de você antes do... desfecho."
Os músculos da face de Isabella endureceram instantaneamente. A máscara de doçura vacilou na quina de seus lábios.
"O senhor está enganado", ela respondeu, a voz caindo um oitavo, firme como uma lâmina de gelo. "Meu nome é Isabella Vance."
O homem deu um sorriso amargo, inclinando a cabeça de lado enquanto girava o gelo dentro de seu copo de uísque.
"O nome impresso na certidão de casamento não apaga o sangue, minha jovem", ele rebateu, o tom carregado de um prenúncio sombrio.
"Eu conheço o tabuleiro do seu marido. Seu pai achou que poderia vencê-lo e terminou enterrado sem um tostão. Tome cuidado para que a gaiola de ouro não se transforme no seu túmulo também."
Antes que Isabella pudesse formular qualquer resposta, o passo firme de Gabriel ecoou atrás dela.
"Algum problema aqui, cavalheiro?", o barítono de Gabriel cortou o ar, a possessividade latente tensionando seus ombros de imediato enquanto ele se postava ao lado da esposa.
O homem do terno risca-de-giz recuou um passo, erguendo o copo em um cumprimento cínico.
"Nenhum, Vance. Apenas elogiando o bom gosto da sua... aquisição", o convidado misturou-se à multidão do salão sem olhar para trás.
Gabriel estreitou os olhos azul-glacial, observando a silhueta do homem sumir entre os investidores antes de voltar toda a sua atenção para Isabella.
Suas pupilas vasculharam as linhas do rosto dela, procurando por qualquer vestígio de quebra no sistema de submissão doméstica que ele havia desenhado.
"Quem era ele?", Gabriel exigiu, a voz baixa, o tom de cobrança vibrando perto da nuca dela.
"Apenas mais um convidado nostálgico, Gabriel", ela mentiu sem hesitar, relaxando os ombros e oferecendo a ele um olhar perfeitamente sereno.
"Alguém que confundiu meu rosto com o de outra pessoa."
Gabriel permaneceu em silêncio por dois segundos intermináveis, a desconfiança natural de sua linhagem testando o limite do espaço entre os dois.
Satisfeito com a aparente passividade de sua propriedade, ele soltou um suspiro nasal e bateu com os nós dos dedos no painel da mesa de jantar para atrair a atenção de todos os presentes no salão.
"Cavalheiros, um minuto da atenção de todos", Gabriel ergueu sua taça de cristal, a luz refratando nos diamantes do pulso de Isabella enquanto ele a puxava para o centro do salão com força possessiva.
O quarteto de cordas interrompeu a música. Cinquenta pares de olhos focaram no casal.
"Gostaria de propor um brinde à estabilidade dos nossos negócios e à expansão do fundo The Noose no mercado internacional", Gabriel anunciou, a vaidade inflando seu peito sob o tecido do fraque.
"E, acima de tudo, ao sucesso absoluto da linhagem Vance, que continua a incorporar os melhores ativos do mundo."
Ele apertou a cintura de Isabella com uma pressão que beirava a dor, forçando-a a brindar diante da elite financeira de Nova York.
Isabella ergueu sua taça, sustentando os sorrisos falsos dos convidados enquanto a luz azul do painel biométrico da entrada piscava ao longe no escuro.
A aliança com os lobos estava firmada, mas o fogo que consumiria o tabuleiro já havia começado a queimar nas entrelinhas de sua memória.
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