"O Tirano do Apocalipse: Reivindicada pelas Chamas" Capítulo 7
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Capítulo 07: O Infiltrado
O jardim do Bastion era uma contradição. Debaixo da cúpula de vidro, sustentada por sistemas de filtragem de ar que custariam uma fortuna no mundo exterior, cresciam orquídeas e samambaias que não deveriam existir há anos.
Era um oásis estéril, mantido para o prazer de Julian, mas que, para Lívia, servia como a única lembrança de que o mundo um dia fora verde e vivo.
Lívia caminhava pela trilha de pedras polidas, sentindo o peso do colar de diamantes — uma corrente invisível que a identificava como propriedade do Tirano. Ela sabia que estava sendo vigiada.
Não apenas por Julian, mas pelos olhares curiosos dos técnicos e soldados que agora a viam como a "Consorte da Água".
— As orquídeas são as mais difíceis de manter. Elas precisam de um equilíbrio perfeito de umidade e luz. Se você errar por um milímetro, elas apodrecem.
A voz veio de trás, vinda de um dos jardineiros. O homem, cujas feições eram comuns, quase esquecíveis, levantou-se e limpou a terra das mãos.
Dante. Um homem que, segundo os relatórios de segurança que Lívia ouvira Julian discutindo, era um dos auxiliares mais eficientes na manutenção das estufas.
Lívia parou, fingindo analisar uma flor, mas seus sentidos estavam em alerta máximo. Valéria a avisara que o Bastion estava cheio de cobras, e Dante era a mais silenciosa delas.
— Tudo neste lugar é mantido por um equilíbrio perfeito, não é? — Lívia respondeu, sua voz calma, desprovida de qualquer emoção. — Inclusive a minha presença aqui.
Dante sorriu. Não era o sorriso servil de um funcionário, mas o sorriso cauteloso de um predador que reconhece outro. Ele se aproximou, fingindo podar um arbusto.
— Julian Valerius é um homem de extremos. Ele construiu este jardim porque odeia a imperfeição do mundo lá fora. Mas o que ele esquece é que, nas estufas, as pragas crescem mais rápido do que as flores.
Lívia virou-se para ele, seus olhos encontrando os dele. — Você está falando de mim, Dante? Ou de si mesmo?
Dante riu, um som baixo. — Estou falando de sobrevivência. Zara, a líder dos nômades do setor sul, não gosta de homens como Julian. Ela acha que o Bastion é um tumor que precisa ser removido. E eu... bem, eu só quero garantir que, quando o tumor for extirpado, eu esteja do lado certo da lâmina.
Lívia sentiu o pulso acelerar, mas não deixou que isso transparecesse. O jogo de Dante era óbvio, mas perigoso. Ele a via como uma aliada em potencial, alguém que, por estar próxima ao "fogo", poderia ser a peça chave para derrubá-lo. Ele não sabia que ela já não era mais a prisioneira que ele supunha.
— Zara é uma fanática — Lívia comentou, testando o terreno. — Derrubar o Bastion não traria a paz. Traria apenas mais caos.
— A paz é um luxo que ninguém pode pagar hoje em dia, Lívia. O que queremos é o poder. Julian te transformou em uma arma. Mas armas têm o hábito de explodir nas mãos de quem as empunha.
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Ele se aproximou mais, invadindo seu espaço pessoal. O perfume de terra e suor dele era drasticamente diferente do cheiro de ozônio e cinzas de Julian. — Zara está planejando uma infiltração no próximo ciclo de recarga do reator. Se você nos ajudar, se você abrir as comportas de drenagem do setor central, o Bastion cai em horas. E você estará livre.
Lívia observou o rosto de Dante. Ele era talentoso, mas subestimava a conexão que ela desenvolvera com Julian. Ele achava que ela odiava o Tirano tanto quanto o odiava. E era aí que estava a sua vantagem.
— E por que eu confiaria em você? — ela perguntou, sua voz suave, quase sedutora. — Por que eu ajudaria alguém que mal conheço a destruir o único lugar que me dá comida, teto e... segurança?
Dante se inclinou, sussurrando perto do ouvido dela. — Porque no fundo você sabe, Lívia. Você não é dele. Você é uma bomba relógio. E, cedo ou tarde, ele vai descobrir que você não pode ser contida. A pergunta é: você quer explodir por conta própria ou quer escolher o alvo?
Lívia sentiu o ar vibrar. Ela tinha uma decisão a tomar. Se denunciasse Dante a Julian, ele seria executado, e ela provaria sua lealdade.
Mas se jogasse o jogo de Dante, ela teria uma rede de espionagem infiltrada dentro da estrutura do Bastion, uma rede que ela poderia, eventualmente, virar contra Zara — ou contra qualquer um que ousasse desafiar a sua crescente influência.
Ela deu um passo para trás, exibindo um sorriso enigmático que fez Dante vacilar por um breve segundo. Ele esperava medo, não diversão.
— Você tem razão, Dante — ela disse, mantendo os olhos fixos nele. — As armas explodem. Mas apenas se você não souber como apontá-las.
Dante arqueou uma sobrancelha, claramente confuso com a resposta.
— Continue cuidando das orquídeas — Lívia acrescentou, virando-se para sair. — O segredo não é cortar as raízes, mas sim saber onde a luz bate. Vou pensar na sua proposta. Mas saiba de uma coisa: se eu decidir jogar, não será pelas regras da Zara.
Ela caminhou para fora do jardim, ouvindo os passos de Dante ficando para trás. Ela sabia que estava sendo observada.
No alto de uma das passarela, Julian a seguia com o olhar. Ele não podia ouvir a conversa, mas podia ver a forma como ela se movia — com uma confiança que não lhe pertencia dias antes.
Dante, por outro lado, ficou parado entre as orquídeas. Ele sentiu um arrepio frio percorrer sua espinha. Ele tentara pescar uma vítima, mas sentira o dente de um predador. Ele não sabia, mas Lívia acabara de transformar o seu plano em uma ferramenta.
Lívia chegou aos seus aposentos e encontrou a porta se abrindo automaticamente. Julian estava parado no centro do quarto, as mãos nas costas, como um general aguardando o relatório de batalha.
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— O jardim estava agradável? — ele perguntou, sua voz mantendo um tom de neutralidade perigosa.
— O jardineiro é um homem interessante — Lívia respondeu, caminhando até ele e parando a centímetros de seu peito. Ela podia sentir o calor dele, a aura de poder que parecia emanar do Tirano. — Ele parece muito preocupado com a saúde das plantas e com o futuro do Bastion.
Julian estreitou os olhos. — E o que ele disse?
Lívia deu um sorriso, o mesmo sorriso que ela dera a Dante. — Ele disse que as pragas crescem rápido demais.
Julian soltou um suspiro, um som de puro entretenimento sombrio. Ele não perguntou mais nada. Ele sabia que algo estava em movimento.
Ele sabia que o jardim tinha olhos, e que ela estava envolvida. Mas, em vez de puni-la ou questioná-la, ele apenas estendeu a mão e tocou a marca índigo em seu pulso, que brilhou fracamente, uma resposta biológica à sua presença.
— Jogue o seu jogo, Lívia — ele sussurrou, a voz carregada de uma perigosa permissividade. — Mas lembre-se: eu sou o dono do tabuleiro. E qualquer peça que se perder será queimada.
— Contanto que eu não seja a peça que se perde, você não tem com o que se preocupar — ela respondeu.
Ela se virou, deixando Julian parado no centro do quarto. Ela tinha a informação de Dante. Tinha a confiança parcial de Julian. E tinha o poder que pulsava em seu sangue. A espionagem não era apenas sobre obter dados; era sobre sobreviver ao jogo de xadrez em que a vida era a aposta.
Lívia sentou-se na cama, o brilho do colar de diamantes refletido no vidro. Ela sorriu sozinha no quarto escuro. O Bastion estava prestes a pegar fogo, e ela seria a única a ter o controle sobre o fósforo.
Dante achava que a estava usando, Julian achava que a estava dominando, mas Lívia Salles, a sobrevivente, estava apenas começando a aprender que a melhor forma de se manter viva era ser o segredo mais bem guardado de todos.
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