"O Tirano do Apocalipse: Reivindicada pelas Chamas" Capítulo 6
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Capítulo 06: Sopro de Água
O ar na câmara de treinamento do Bastion tinha gosto de eletricidade estática. Não era como o quarto de vidro; aquele lugar era puro metal, um ambiente industrial projetado para testar os limites do que era humano e do que era aberração.
Lívia estava no centro, os pés descalços sentindo a frieza do piso de titânio. À sua frente, uma parede de placas de metal descartadas estava suspensa por correntes. Ela respirava fundo, sentindo o estranho pulsar da marca índigo em seu pulso.
Desde o incidente com o colapso de Julian, ela sentia uma corrente diferente correndo sob sua pele — uma densidade, uma urgência.
Julian estava do outro lado da sala, um espectro negro contra o brilho das luzes fluorescentes. Ele observava com os braços cruzados, a postura rígida, mas os olhos... os olhos seguiam cada movimento de Lívia com uma fome que não podia ser contida pelo decoro.
— Esqueça o medo, Lívia — a voz dele cortou o silêncio, baixa e desafiadora. — O medo é o que mantém o seu poder reprimido. Se você quer ser algo mais do que uma bateria, precisa parar de tentar conter o que está dentro de você.
— Eu não estou contendo nada — ela respondeu, embora soubesse que era mentira. Ela sentia o poder lá, um oceano revolto escondido atrás de uma barragem frágil.
— Você está. Você tem medo de que, se soltar, a água vai te destruir também. — Ele deu um passo à frente, entrando em seu espaço pessoal. O calor que emanava dele era uma carícia agressiva. — Deixe-me ver o que você esconde. Aponte para o alvo.
Lívia levantou a mão, a palma aberta voltada para as placas de metal. Ela fechou os olhos, buscando a sensação que teve quando estabilizou Julian. Ela não pensou em água como um elemento líquido, mas como uma pressão. Uma força incompressível.
O ar ao seu redor começou a girar. A marca índigo em seu pulso brilhou com tal intensidade que iluminou a sala de metal. Ela sentiu uma picada dolorosa subindo pelo braço, mas, desta vez, não tentou bloqueá-la. Ela a canalizou.
BOOM.
O som não foi de um impacto, mas de um estilhaçamento. O metal não apenas foi empurrado; ele foi retorcido, perfurado como se uma bala de canhão de água tivesse colidido contra ele em velocidade supersônica.
As placas voaram em direções opostas, colidindo contra as paredes da câmara com um estrondo metálico.
Lívia arquejou, caindo de joelhos, o peito subindo e descendo freneticamente. O esforço drenara quase toda a sua energia, mas o triunfo era inegável. Ela olhou para as mãos, que ainda emitiam um leve vapor azulado.
Julian estava sobre ela em um segundo. Ele não a ajudou a levantar; ele a envolveu, suas mãos grandes e quentes segurando o rosto dela, forçando-a a encará-lo. O brilho nos olhos dele não era mais apenas possessividade — era fascínio puro.
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— Você viu isso? — ele sussurrou, a voz carregada de uma eletricidade bruta. — Você não é apenas uma sobrevivente, Lívia. Você é um evento catastrófico.
— Eu quase desmaiei — ela murmurou, sentindo a fraqueza nas pernas.
— Você está aprendendo — ele a interrompeu, puxando-a para cima com uma força que a deixou colada ao seu peito.
O contraste era avassalador. O calor dele era a fornalha que definia o Bastion, e ela era a água que podia apagar mundos. Julian a encarou, seus dedos subindo para contornar a linha do maxilar dela.
A tensão sexual entre eles estava tão alta que Lívia sentia o ar faltar. Não era apenas atração; era uma atração magnética entre opostos que, por um milagre biológico, não se destruíam.
— Você tem ideia do que isso significa? — ele perguntou, o tom de voz mudando, tornando-se mais profundo, mais perigoso. — Com esse poder, você não precisa se esconder nas sombras do Bastion. Você pode governar ao meu lado. Imagine o que poderíamos fazer... O fogo e a água, redefinindo as leis deste mundo podre.
— Você está falando de uma aliança ou de uma sentença de prisão perpétua? — Lívia retrucou, embora seu coração estivesse disparado contra as costelas de Julian.
— Estou falando de destino — ele afirmou.
Antes que ela pudesse argumentar, ele a beijou.
Diferente das outras vezes, este beijo não foi uma tentativa de testar sua reação ou marcar território. Foi um beijo bruto, carregado de uma luxúria reprimida e de uma necessidade avassaladora de conexão. Julian a puxou para si com tal urgência que os pés dela saíram do chão. A boca dele era quente, exigente, devastadora.
Lívia soltou um gemido, suas mãos agarrando os ombros de Julian, buscando estabilidade enquanto sentia o mundo girar.
A marca índigo pulsava em sincronia com o ritmo cardíaco de Julian, criando uma onda de energia que fazia o metal da sala vibrar. Ela não tentou resistir; ela retribuiu, encontrando na ferocidade dele uma resposta à chama que ela mesma descobrira possuir.
Quando ele finalmente se afastou, a respiração de ambos estava pesada, o ar da sala parecia denso. Julian tinha um brilho selvagem nos olhos, um sorriso torto que ela raramente via.
— Você não é mais uma convidada, Lívia — ele declarou, a mão descendo para repousar firmemente sobre a cintura dela, sentindo a batida errática do seu coração. — A partir de hoje, você vai treinar. Você vai se tornar a arma que eles temem. E, quando estivermos prontos, o mundo saberá que o Tirano não governa sozinho.
Lívia sentiu um arrepio que ia muito além da temperatura da sala. Ela olhou para os destroços das placas de metal. Ela não era a mesma mulher que Guilherme descartara na lama. Ela tinha poder, ela tinha um protetor — ou um carcereiro — que a via como uma igual, e ela tinha uma ambição que estava apenas começando a brotar.
— Eu não serei sua marionete, Julian — ela disse, embora estivesse encostada no peito dele, ainda sentindo o tremor daquele beijo. — Se vamos governar, as regras serão minhas também.
Julian riu, um som que ecoou pelo salão de treino como um trovão distante.
— Eu espero que você tente, Lívia. A tentativa de me derrubar será a parte mais interessante do nosso reinado.
Ele a guiou para fora da câmara, sua mão nunca deixando a cintura dela. Enquanto caminhavam pelo corredor estéril do Bastion, Lívia notou os olhares dos guardas, dos técnicos, e até mesmo do Dr. Silas, que observava de uma passarela superior. Eles não a olhavam mais como um experimento; eles a olhavam com o respeito — e o medo — reservado a uma soberana.
Ela tocou o colar de diamantes em seu pescoço. O brilho da pedra parecia refletir a chama que agora ela sabia que podia controlar.
Naquela noite, no seu quarto de vidro, Lívia não olhou pela janela para a escuridão do apocalipse. Ela olhou para a própria imagem.
O que ela viu não foi a sobrevivente, mas uma mulher esculpida pela dor e fortalecida pelo fogo. Julian Valerius queria transformá-la em sua rainha, mas ele cometeu um erro clássico: ele deu à rainha as ferramentas para destruir o rei.
Enquanto a luz da marca índigo desbotava sob a pele, ela jurou silenciosamente: o Bastion seria o primeiro degrau. Depois disso, o mundo inteiro veria do que a água, quando unida ao fogo, era capaz de fazer.
E Julian, o Tirano que achava que a possuía, descobriria da maneira mais difícil que o fogo mais perigoso é aquele que a própria água decide alimentar.
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