"O Tirano do Apocalipse: Reivindicada pelas Chamas" Capítulo 4
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Capítulo 04: O Paciente
O Bastion não tinha dia ou noite, apenas a luz fria e constante das lâmpadas de LED que pareciam sugar a vitalidade de tudo o que tocavam. Lívia estava sentada na beira da cama, observando o reflexo de sua própria silhueta no vidro reforçado.
O beijo de Julian — uma lembrança que ainda ardia em seus lábios como um carvão em brasa — não a deixava pensar com clareza. Ele a queria como âncora, uma peça de um experimento que ele mesmo ajudara a criar.
Ela fechou os olhos, tentando se concentrar na sensação da marca índigo que ainda formigava em seu antebraço, quando o ar do quarto mudou.
Não foi um som. Foi uma ausência. A estática que sempre acompanhava Julian desapareceu, substituída por um silêncio opressor. Lívia levantou-se rapidamente, o instinto de sobrevivência disparando um alerta em seu sistema.
Ao olhar para o corredor através do vidro, viu algo que nenhum guarda jamais veria: o Tirano estava de joelhos.
Julian Valerius não estava apenas caído; ele estava sendo consumido.
Seu corpo, geralmente uma fornalha de estabilidade, tremia violentamente. O calor que ele irradiava estava descontrolado, fazendo a própria estrutura de metal do Bastion ranger.
Ele segurava a própria cabeça com as mãos, os nós dos dedos brancos, enquanto uma névoa escura e densa emanava de seus poros — não fogo, mas o resíduo químico de algo muito mais antigo e doloroso.
Sem pensar, Lívia correu até o painel de controle. Ela não sabia o código, mas suas mãos, movidas por uma urgência que ela não conseguia explicar, deslizaram sobre a tela como se a conhecessem. A porta deslizou.
— Julian! — ela gritou, correndo para o corredor.
Ele não a ouviu. Ele estava longe.
Flashback: 20 anos atrás.
O cheiro era o de cloro e sangue. O pequeno Julian, com apenas oito anos, estava preso em uma maca de metal, o corpo contorcido por espasmos.
Ao seu redor, homens de jaleco branco anotavam números em pranchetas, indiferentes aos seus gritos. Eles não chamavam seu nome; ele era apenas o "Projeto Ígneo".
— A estabilidade do núcleo está falhando — disse uma voz fria, distante. — Aumente a dosagem de sedativo e aplique o choque térmico. Precisamos que a criança aprenda a conter o calor ou ele será um desperdício de recursos.
O choque veio como um raio percorrendo sua medula. Julian não gritou; ele não tinha mais ar para isso. Ele apenas sentiu a pele queimar, as células se regenerarem e serem destruídas novamente em um ciclo infinito de agonia.
Ele tentou encontrar um ponto de foco, algo que não fosse a dor. Ele encontrou apenas a escuridão do teto, sentindo-se um animal condenado a um açougue. Naquela época, o fogo não era uma arma; era um castigo.
Ele aprendeu, naquele dia, que a única maneira de sobreviver à dor era tornar-se a própria dor. Se o mundo queria queimá-lo, ele queimaria o mundo de volta.
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No presente, o choque térmico do passado parecia estar sendo replicado no corpo de Julian. Lívia alcançou-o e, sem hesitar, ajoelhou-se ao seu lado.
O calor era tão intenso que ela sentiu as pontas dos dedos arderem, mas ela não recuou.
— Julian, olhe para mim! — ela ordenou, segurando o rosto dele.
A pele dele estava em brasa, febril. Seus olhos estavam perdidos, as pupilas dilatadas, vendo fantasmas que Lívia não podia enxergar. Ele estava no meio de um colapso neurológico, uma descarga de energia que poderia, literalmente, derreter o andar inteiro.
— Eles... eles não param — ele sussurrou, a voz irreconhecível, carregada de uma criança aterrorizada que vivia escondida sob a máscara do Tirano. — O fogo não para de crescer.
Lívia sentiu uma pontada de compaixão tão forte que foi quase física. Ele não era apenas um monstro; ele era um experimento quebrado, um menino que nunca teve a chance de ser nada além de uma arma.
Ela não pensou nas consequências. Ela apenas agiu. Ela pressionou as palmas de suas mãos contra as têmporas dele, fechando os olhos. Ela não tentou "combater" o fogo dele. Em vez disso, ela se tornou o que ele precisava: a água.
Ela imaginou o seu próprio poder como uma corrente silenciosa, um rio que fluía para dentro do caos dele.
Ela sentiu a marca índigo em seu próprio corpo começar a pulsar, um feedback rítmico que conectava seus sistemas. Ela estava drenando o excesso. Ela estava se tornando o receptáculo para o que ele não conseguia segurar.
A névoa escura ao redor deles começou a dissipar. O tremor de Julian diminuiu. O calor, que antes ameaçava derreter o piso, estabilizou-se em um nível aceitável.
Lívia estava ofegante, o suor escorrendo pelo seu rosto, cada músculo do seu corpo latejando pelo esforço de conter aquela magnitude de energia.
Mas ela não soltou. Ela permaneceu ali, mantendo o elo, sentindo o pulso de Julian voltar ao normal contra os seus dedos.
Aos poucos, o brilho alaranjado nos olhos dele começou a voltar ao foco. Quando ele finalmente a viu, o choque foi imediato. Ele tentou se afastar, mas Lívia não permitiu.
— Fique parado — ela sussurrou, a voz trêmula. — Você vai explodir se não me deixar te ajudar.
Julian encarou-a, a respiração ainda pesada. Pela primeira vez, a máscara de Tirano estava totalmente no chão. Havia algo de nu e cru na forma como ele a olhava — uma mistura de terror e gratidão que ele parecia incapaz de processar.
— Você não deveria ser capaz de fazer isso — ele murmurou, a voz mal audível. — Ninguém consegue tocar o núcleo sem ser reduzido a cinzas.
— Eu não sou qualquer um — ela respondeu, suas mãos ainda repousadas no rosto dele. O toque era íntimo, um segredo compartilhado em meio ao caos do Bastion.
O momento foi interrompido por um som metálico no final do corredor. O Dr. Silas, o médico-chefe do Bastion, aparecia na curva, apressado, seguido por dois guardas. Ele parou abruptamente ao ver a cena: o Tirano, o homem que todos temiam, sendo contido pelas mãos de uma prisioneira.
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Silas empalideceu. — Senhor Valerius? O sistema de monitoramento registrou um pico de energia de classe cinco. Nós viemos...
Julian virou a cabeça bruscamente, o brilho alaranjado retornando com uma ferocidade renovada. — Saia — ele rosnou, a voz voltando a ser a do Tirano, firme e autoritária. — Ninguém entra neste corredor.
Silas não discutiu. Ele fez um sinal para os guardas e desapareceu tão rápido quanto apareceu.
Julian voltou a olhar para Lívia. Ele estava exausto, a pele marcada por sombras de cansaço. Ele se levantou lentamente, puxando Lívia consigo. Ele não a soltou. Na verdade, ele manteve uma mão na cintura dela, uma âncora necessária.
— Você me salvou — ele disse, como se a frase fosse um conceito estrangeiro que ele não conseguia pronunciar direito.
— Eu salvei a mim mesma — Lívia corrigiu, embora soubesse que era uma mentira. Se ele morresse, a estabilidade de sua própria mutação morreria com ele. Ela estava presa a ele por fios invisíveis e, naquele momento, a percepção disso não a assustou tanto quanto deveria. — Se você morresse, o Bastion cairia. E eu não quero morrer aqui.
Julian sorriu, um sorriso pequeno, quase humano. Ele passou o polegar sobre a bochecha dela, limpando uma mancha de fuligem. — Você é mentirosa, Lívia Salles. E isso é fascinante.
Ele a guiou de volta para dentro do quarto de vidro, fechando a porta com um gesto de mão. Ali dentro, o silêncio retornou, mas não era mais o mesmo silêncio. A barreira entre eles havia sido rompida pelo toque. Ela vira o monstro sangrar, e ele vira a "Luz" conter o seu fogo.
Eles estavam sozinhos no Bastion, e o destino de ambos parecia agora inseparável. Julian foi até o bar no canto do quarto e serviu-se de um copo de água, as mãos ainda um pouco trêmulas.
— Amanhã — ele disse, sem se virar — você não será mais uma prisioneira. Você será minha convidada oficial. Veremos até onde o seu poder chega.
Lívia sentiu um calafrio. Ela não sabia se estava ganhando liberdade ou se estava apenas recebendo uma coleira mais elegante. Ela se deitou novamente na cama, o corpo ainda vibrando pelo contato com o núcleo dele.
O Paciente estava salvo, mas, ao olhar para a forma como Julian a vigiava da sombra, ela percebeu que o verdadeiro teste para a sua sanidade estava apenas começando.
Ela tocou a própria pele, onde as mãos dele estiveram momentos antes. Ela era a cura dele, e ele... ele era o fogo que a definia.
No silêncio da noite, Lívia Salles, a sobrevivente, finalmente entendeu: ela não estava apenas tentando escapar do Bastion. Ela estava começando a governar o seu carcereiro.
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