"O Tirano do Apocalipse: Reivindicada pelas Chamas" Capítulo 3
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Capítulo 03: Cicatrizes
O silêncio do Bastion não era calmo; era pesado. Tinha a densidade de algo que observa. Lívia Salles passou o dia medindo o recinto. Eram doze passos de uma parede de vidro à outra.
Doze passos de liberdade, doze passos de prisão. Ela estava sendo alimentada por braços mecânicos que depositavam bandejas de comida processada e água purificada, um sistema frio que eliminava qualquer necessidade de interação humana.
Mas Lívia não fora feita para o isolamento. Ela era feita de movimento, de luta, de sobrevivência na lama.
A oportunidade surgiu na mudança de turno dos guardas. O painel digital perto da porta sofreu uma oscilação, uma falha técnica de milissegundos que fez o mecanismo de trava ranger.
Sem pensar, Lívia lançou-se contra a porta de vidro com toda a força que restava em seus músculos atrofiados pela inatividade. O vidro cedeu um centímetro, o suficiente para que ela passasse os dedos pela fresta.
Ela precisava sair. Precisava sentir o vento, mesmo que fosse o vento tóxico do apocalipse. Ela empurrou, usando o ombro como alavanca. O metal da porta gemeu, um som estridente que ecoou pelo corredor estéril.
— Onde você pensa que vai, pequena chama?
A voz não veio de fora, mas de trás dela. Lívia congelou. O ar no quarto tornou-se subitamente denso, carregado de estática e um calor que parecia emanar das próprias paredes. Julian estava encostado na parede oposta, os braços cruzados sobre o peito, observando-a com uma quietude que era cem vezes mais aterrorizante do que um grito.
Lívia girou, as costas coladas ao vidro. — Eu não vou ficar aqui como um animal em exibição.
— Você não é um animal — ele respondeu, desencostando-se da parede com movimentos fluídos, predatórios. — Animais não são tão teimosos. Você é uma paciente. E pacientes precisam de descanso.
Ele caminhou até ela. Lívia tentou desviar, mas o quarto era pequeno demais. Quando ele a encurralou, a temperatura disparou. Ela sentiu o calor vindo dele como uma parede física.
Ela tentou empurrá-lo, suas mãos encontrando o peito dele, mas o contato foi como tocar o motor de uma fornalha.
No momento em que sua pele encontrou a dele, uma dor aguda, insuportável, atravessou seu antebraço. Ela soltou um grito, tentando recuar, mas Julian a segurou pelos pulsos.
— Não se afaste — ele rosnou.
A dor não era apenas física; era uma ressonância. Lívia olhou para baixo e viu, horrorizada, que suas veias estavam brilhando. Um azul-índigo, profundo e pulsante, irradiava debaixo de sua pele, começando no ponto onde os dedos de Julian a tocavam e espalhando-se rapidamente em direção ao seu coração. Era como se o sangue dela estivesse reagindo a um catalisador químico.
Julian ofegou. Ele soltou os pulsos dela, recuando um passo, os olhos alaranjados arregalados.
O brilho índigo nas veias de Lívia começou a diminuir assim que o contato foi interrompido, deixando para trás apenas uma sensação de formigamento e uma cicatriz temporária, um mapa de fios brilhantes que desbotava lentamente.
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— O que você... o que você fez comigo? — ela arfou, o peito subindo e descendo. A dor ainda pulsava, mas havia algo mais. Um alívio. Uma necessidade bizarra de que aquele calor voltasse.
Julian parecia abalado. Ele olhou para as próprias mãos, depois para ela. — Eu não fiz nada. É o seu sangue, Lívia. O vírus... ou o que quer que tenha restado dele em você. Ele reconhece o meu.
— Reconhece? — ela riu, um som seco e amargo. — Você é o monstro, eu sou a vítima. Não tente romantizar isso.
— Eu não estou romantizando nada — ele avançou novamente, não com a intenção de contê-la, mas de investigar. Ele não a tocou desta vez, mantendo uma distância cautelosa. — Eu passei anos sendo injetado com mutagênicos, queimado, resfriado, torturado para que este "fogo" fosse controlado. Eu sou uma arma. E você... você é a única coisa que não entra em combustão espontânea quando me toca.
Ele estava dizendo que ela era a cura dele. Que a "loucura" que queimava dentro dele encontrava um equilíbrio nela.
A percepção atingiu Lívia com a força de um soco. Ele a mantinha ali não apenas por obsessão, mas por uma dependência biológica que ele mal compreendia.
— Eu não sou sua cura — ela disse, embora a dúvida começasse a corroer sua determinação. — E não vou ser sua cobaia.
— Você não é uma cobaia. Você é o meu único ponto de estabilidade. — Ele deu um passo final, reduzindo a distância até que seus narizes quase se tocassem. — Aquela dor que você sentiu? A dor da marca índigo? Ela só existe quando você tenta fugir.
Ele estendeu a mão, hesitante, e desta vez, Lívia não recuou. Ela estava hipnotizada pela possibilidade de aliviar o vazio que sentia. Ele tocou a lateral do pescoço dela, bem onde o pulso batia acelerado.
A dor índigo disparou novamente, mas desta vez, algo mudou. O choque elétrico não foi apenas doloroso; ele percorreu sua espinha como um relâmpago, ativando receptores de prazer que ela nem sabia que possuía. O sofrimento da marca se transformou em uma vertigem, uma euforia sombria que a fez dobrar os joelhos.
Ela soltou um suspiro involuntário, um som que pareceu ecoar por todo o quarto de vidro. Seus olhos se reviraram. A dor e o prazer eram tão indistinguíveis, tão fundidos, que ela se sentiu à deriva.
Julian a segurou antes que ela caísse, puxando-a contra o seu corpo. O contato foi total. A marca índigo em seus braços brilhou intensamente, iluminando o quarto escuro como um farol de neon. Ele não a soltou. Ele a pressionou contra si, como se estivesse tentando absorvê-la, sugar aquela energia que equilibrava o inferno que ele carregava dentro de si.
— Você vê? — ele sussurrou contra o seu ouvido, a voz rouca, carregada de uma possessividade faminta. — Você pertence a mim por natureza. O seu corpo sabe disso, mesmo que a sua mente tente lutar.
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Ele não esperou por uma resposta. Ele inclinou a cabeça e selou os lábios sobre os dela.
O beijo não foi gentil. Foi uma reivindicação. Foi o choque de dois elementos incompatíveis que acabaram de descobrir que precisavam um do outro para sobreviver. Lívia tentou manter a resistência, tentou se lembrar de Guilherme, da traição, da liberdade, mas tudo o que ela conseguia sentir era o calor de Julian queimando através de suas roupas, a promessa silenciosa de que, enquanto ela estivesse nos braços dele, ela nunca mais seria abandonada.
Ele a beijou com uma ferocidade desajeitada, como alguém que acaba de descobrir a sede após anos no deserto. Ela sentiu o gosto de cinzas e poder. Quando ele finalmente se afastou, seus lábios estavam inchados e ela estava arfando, incapaz de processar o que havia acontecido.
Julian a segurou pelos ombros, seu rosto contorcido em algo entre o triunfo e a angústia. Ele não parecia um tirano naquele momento; ele parecia um homem que acabara de encontrar o único pedaço de terra firme no meio de um oceano de chamas.
— Tente fugir de novo — ele murmurou, a voz baixa, quase um desafio — e a marca vai te destruir. Mas fique... e eu prometo que você nunca conhecerá o frio novamente.
Ele se afastou, saindo do quarto sem olhar para trás, deixando-a sozinha com o brilho residual das marcas índigo em seus antebraços.
Lívia caiu sentada na cama. O quarto parecia mais silencioso do que nunca, mas sua pele ainda queimava onde ele a tocara. Ela olhou para as mãos, trêmulas. O jogo de poder havia mudado. Ela não era apenas uma prisioneira; ela era o equilíbrio de um monstro.
E, pela primeira vez, ela percebeu que a fuga não seria feita apenas de força física. Para vencer Julian Valerius, ela teria que aprender a tocar o fogo sem se queimar — ou, melhor ainda, teria que aprender a controlar a fornalha que ele se tornara.
Ela se deitou, os olhos fixos no teto de vidro. Lá fora, o apocalipse continuava a devorar o mundo.
Aqui dentro, a guerra estava apenas começando. E o beijo roubado ainda ardia em sua boca como uma cicatriz indelével.
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