"O Tirano do Apocalipse: Reivindicada pelas Chamas" Capítulo 2
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Capítulo 02: A Vitrine de Cristal
A consciência retornou a Lívia como uma maré lenta e dolorosa. Ela não sentiu o cheiro úmido do pântano ou o frio cortante da noite. Em vez disso, seus pulmões foram preenchidos por um ar purificado, estéril, com um leve toque de ozônio — o aroma do poder tecnológico.
Ela abriu os olhos. O teto não era feito de galhos ou lonas rasgadas, mas de um vidro temperado, curvo e impecável, que revelava uma estrutura vasta, industrial e futurista. Ela estava deitada sobre lençóis de uma seda tão fina que pareciam água líquida contra sua pele calejada.
Lívia tentou se sentar, mas seu corpo protestou com um gemido. Suas feridas haviam sido tratadas; bandagens brancas e imaculadas cobriam seu tornozelo e os arranhões em seus braços. Ela estava vestida com algo que nunca pensou que voltaria a usar: uma camisola de algodão macio, seca e limpa.
O medo, frio e cortante, despertou em seu estômago. Ela não estava morta, mas estava presa.
— Você está acordada.
A voz veio da escuridão do canto do quarto. Julian Valerius estava sentado em uma poltrona de couro escuro, observando-a. Ele não estava mais usando as roupas táticas que usara no pântano.
Agora, vestia uma camisa de gola alta preta, justa, que acentuava a largura de seus ombros e a rigidez de sua postura. Ele parecia um predador descansando, mas pronto para o bote.
Lívia recuou, suas costas atingindo a cabeceira da cama. — Onde eu estou? O que você fez com ele? Com Guilherme?
Julian soltou um riso baixo, um som que não tinha alegria, apenas uma ironia ácida. Ele se levantou, caminhando em direção à cama com uma elegância letal. — Guilherme Alencar é uma nota de rodapé na sua história, Lívia. Ele está fugindo, provavelmente se borrando de medo de que eu decida terminar o que ele começou. Ele não importa.
— Eu não sou um espólio — ela disse, a voz vacilante, mas tentando injetar firmeza. — Eu não sou sua prisioneira.
Julian parou a poucos centímetros da cama. Ele se inclinou, suas mãos pousando sobre o colchão, um de cada lado do corpo dela, encurralando-a. O calor que irradiava dele era intenso, quase insuportável, um microclima de fogo contido. Seus olhos, ainda com aquele brilho alaranjado, percorreram o rosto de Lívia como se estivessem catalogando cada cicatriz, cada linha de tensão.
— Você é uma sobrevivente — ele disse, com a voz baixa. — Você sobreviveu à horda, sobreviveu à traição e sobreviveu a três anos de um mundo que queria te triturar. Isso te torna valiosa. No meu mundo, as coisas valiosas são protegidas. Elas não ficam soltas por aí, expostas a mercenários e traidores.
— Isso é uma gaiola — ela sibilou, olhando ao redor. As paredes de vidro revelavam corredores extensos e guardas armados que patrulhavam a área, mas não entravam. Era uma vitrine. Ela era o item mais caro da coleção.
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— É uma proteção — Julian corrigiu, inclinando-se um pouco mais. A ponta de seus dedos roçou a bochecha dela. A pele dele queimava, um calor que parecia sussurrar contra seus nervos. — Aqui, você tem comida, água purificada, médicos, segurança. Você não precisa mais rastejar na lama. Você deveria me agradecer.
— Agradecer por me tirar de um inferno e me colocar em outro? — Lívia desviou o olhar, sentindo uma raiva borbulhante. Ele a tratava como um objeto que ele havia adquirido em um leilão. — Você é tão monstruoso quanto eles dizem. Você não me salvou, você apenas mudou o dono do chicote.
Julian não se ofendeu. Em vez disso, um sorriso predatório surgiu em seus lábios. Ele deslizou a mão para trás da nuca dela, segurando-a com firmeza, mas sem machucar. A dominação era absoluta.
— Guilherme usava você como um escudo, Lívia. Ele te dava ordens e esperava que você morresse por ele. Eu? — Ele aproximou o rosto, o calor de sua respiração fazendo-a sentir um formigamento elétrico em todo o corpo. — Eu quero que você viva. Eu quero que você floresça. Mas quero que você entenda uma coisa: tudo o que você vê aqui, todo esse luxo, cada centímetro dessa fortaleza, é para você. Mas é uma vitrine, sim. Porque eu não vou permitir que o mundo exterior coloque um único dedo em você novamente. Você é minha.
Lívia sentiu o peito subir e descer rapidamente. O medo era real, mas, sob o medo, havia uma atração aterrorizante. Julian não era apenas um homem; era uma força da natureza que havia decidido que ela era o seu eixo.
— E se eu recusar? — ela desafiou.
Ele se afastou, recuperando a postura ereta, sua expressão tornando-se fria e distante novamente. Ele caminhou até a porta de vidro reforçado.
— Você não tem a opção de recusar — ele disse, sem olhar para trás. — O Bastion é o único lugar no continente onde o vírus não pode entrar, e eu sou o único homem que pode garantir sua segurança. Você vai aprender a apreciar o conforto desta gaiola, Lívia. Porque é a única coisa que separa você da extinção.
Ele tocou um painel digital na parede e a porta deslizou com um susurro metálico.
— Amanhã, teremos uma conversa sobre a sua função aqui — ele acrescentou antes de sair. — Não tente quebrar o vidro. O sistema de segurança é sensível ao calor, e eu não gostaria de ter que lidar com um incidente logo no seu primeiro dia.
Ele saiu e a porta se fechou com um clique final, um som de travamento que ecoou como um martelo.
Lívia ficou sozinha. Ela olhou para a sua mão, onde as marcas das bandagens ainda eram visíveis. Ela estava viva. Estava limpa. Estava segura. Mas, ao observar os guardas que vigiavam sua "vitrine", Lívia percebeu que a liberdade era apenas um conceito antigo, um sonho que morrera no pântano.
Ela se levantou, sentindo a fraqueza nas pernas, e caminhou até a parede de vidro. Ela tocou a superfície fria. Do outro lado, o mundo era um labirinto de metal e poder. E, lá no fundo, ela sentiu uma faísca de algo novo.
Não era apenas raiva. Era uma curiosidade perigosa. Se Julian Valerius a queria como troféu, talvez, com o tempo, ela pudesse descobrir como quebrar a vitrine por dentro.
Lívia não seria o peso morto de ninguém. Nem de Guilherme, nem de Julian. Ela era a água, e a água sempre encontrava uma forma de romper a barragem, por mais forte que fosse o aço.
Ela voltou para a cama e fechou os olhos, mas o sono não veio. A cada segundo, o calor que ele deixara na cama parecia persistir, uma presença constante, um lembrete de que o dono do Bastion agora era o dono do seu destino. E ela precisava entender aquele homem, cada traço de sua loucura, se quisesse sobreviver à sua proteção.
Ela não sabia quanto tempo passara, mas ouviu passos firmes se aproximando. Eram lentos, metódicos. Alguém estava vigiando a vitrine.
O Tirano estava perto. E, estranhamente, o silêncio do Bastion começou a sussurrar promessas que ela ainda não estava pronta para decifrar.
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