"O Tirano do Apocalipse: Reivindicada pelas Chamas" Capítulo 1
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Capítulo 01: O Abandono das Cinzas
O pântano não tinha nome. Não tinha esperança. Tinha apenas o cheiro de lama pútrida, de carne em decomposição e o som rítmico, quase musical, dos passos dos mortos.
Lívia Salles sentiu o joelho direito ceder, o osso protestando contra a exaustão. Ela caiu, e o impacto contra o solo lodoso não doeu tanto quanto a percepção de que ela não tinha mais forças para se levantar. Seus dedos, manchados de terra e sangue seco, cavaram a sujeira, procurando uma âncora, um motivo, qualquer coisa que a impedisse de fechar os olhos.
À sua frente, a silhueta de Guilherme Alencar era uma mancha de autoridade fria contra o horizonte cinzento e opressor. Ele não estava sujo. Sua jaqueta tática estava impecável, um insulto direto ao caos que consumia o mundo ao redor deles.
— Guilherme, por favor... — a voz de Lívia não passou de um suspiro, rouca e quebrada. — Eu não consigo... o meu tornozelo...
O Capitão não se virou. O silêncio que emanava dele era mais cortante que qualquer lâmina.
Guilherme Alencar, o homem por quem ela dera três anos de sua vida, por quem ela enfrentara hordas e fome, o homem que ela amara com a devoção cega de quem não tem mais nada, agora era apenas um espectro de indiferença.
Ele olhou para a horda. O som dos gemidos guturais ficava mais alto, mais próximo. Eram centenas, talvez milhares, uma maré de braços decompostos e olhos leitosos avançando através da névoa.
— O risco de contaminação é total, Lívia — ele disse, a voz desprovida de qualquer vestígio de humanidade. Não havia tremor, nem hesitação. Era o tom de um homem fazendo um balanço de inventário. — Três anos, Lívia. Você foi uma companheira útil. Mas a logística não permite sentimentalismos. A horda está perto demais. Você é apenas um peso morto agora.
Aquelas palavras perfuraram o peito dela mais profundamente do que qualquer mordida que ela recebera nos meses anteriores. Peso morto.
— Você não pode... nós juramos... — a voz dela falhou quando ela tentou se arrastar.
Guilherme finalmente se virou. Seus olhos, antes cheios de uma falsa promessa de proteção, eram agora dois abismos gélidos. Ele não sentia nada. Nem piedade, nem remorso. Apenas a frieza brutal da sobrevivência pura.
— Não me faça repetir — ele ordenou, e então, com uma precisão cirúrgica, deu as costas.
Lívia o observou caminhar. Ela viu as costas dele se afastarem, cada passo uma estocada. Ela estava sozinha. A horda estava a menos de dez metros. Ela podia sentir o cheiro deles — um odor adocicado de podridão e terra molhada. Ela viu a primeira criatura, uma mulher com metade do rosto arrancado, estender as mãos em sua direção.
Lívia fechou os olhos. A traição de Guilherme era uma dor maior do que a morte iminente. Ela aceitou. Ela soltou o fôlego que prendia, permitindo que o medo a consumisse. O fim não era o pântano. O fim era o homem que ela amava ter escolhido que ela deveria morrer.
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As unhas apodrecidas tocaram o tecido de seu ombro. Ela sentiu o puxão. Ela sentiu a dor.
Mas, então, o mundo parou.
Não foi um silêncio absoluto. Foi uma mudança de pressão, uma vibração que começou no solo e subiu pelos seus ossos, fazendo seus dentes vibrarem.
O ar ao seu redor, antes gélido pela umidade, subitamente atingiu uma temperatura insuportável. A chuva que caía começou a evaporar antes mesmo de tocar o chão, criando uma névoa espessa e escaldante.
Lívia abriu os olhos, ofegante.
Os zumbis ao seu redor não estavam mais avançando. Eles estavam gritando. Um som sobrenatural, um guincho de metal sendo torcido.
E então, eles começaram a brilhar. Não com a luz da vida, mas com a luz da combustão. Eles se tornaram tochas humanas em questão de segundos.
A pele se esturricava, os músculos se soltavam, e o pântano, antes dominado pela podridão, começou a cheirar a ozônio, carvão e carne queimada.
Uma figura surgiu das sombras do caos.
Ele não corria. Ele caminhava, imponente, um deus de fogo em um mundo de cinzas. Onde ele pisava, a lama secava e rachava sob a intensidade do calor emanado de suas botas.
Julian Valerius.
O Tirano do Bastion. O homem que as histórias de sobreviventes pintavam como um monstro mais temível do que o próprio vírus.
Ele vestia roupas escuras, feitas de um material que parecia absorver a luz, e seus olhos... os olhos de Julian não eram humanos. Eles brilhavam com uma luminosidade alaranjada, faminta, como se houvesse uma fornalha viva pulsando dentro de suas íris.
Ele não olhou para a carnificina ao seu redor. Ele ignorou os corpos que desmoronavam em cinzas. Ele caminhou diretamente até Lívia.
Quando ele parou diante dela, a proximidade do seu corpo blindado pelo calor era tão opressora que Lívia sentiu a pele de seu rosto arder. O suor em sua testa evaporou instantaneamente.
— Guilherme sempre foi um tolo em desperdiçar o que não compreende — a voz de Julian era um rosnado grave, um som que parecia vir das profundezas da terra. Não havia piedade ali. Havia apenas uma autoridade absoluta que fazia os joelhos de Lívia vacilarem ainda mais.
Ele se ajoelhou. O calor que emanava de suas mãos fez Lívia recuar instintivamente, mas seus movimentos eram lentos, hipnóticos. Quando ele tocou o queixo dela com os dedos — luvas de couro carbonizado que revelavam a pele bronzeada e febril por baixo — um choque percorreu o sistema nervoso de Lívia.
Era como se ela tivesse sido conectada a um fio de alta tensão. A dor em seu tornozelo desapareceu, substituída por uma queimação intensa, mas diferente... uma queimação que parecia curar, em vez de destruir.
Julian a observou. Ele não viu uma vítima. Ele viu um troféu que acabara de ser roubado do lixo. Seus olhos alaranjados varreram o rosto dela, analisando cada contusão, cada gota de sangue, com uma intensidade que beirava a demência.
— Olhe para mim — ele ordenou.
Lívia forçou o pescoço, encontrando o brilho sobrenatural dos olhos dele. Havia uma fome ali. Não era uma fome de carne. Era uma fome de possessão, de domínio.
— Você me deixou morrer — ela sussurrou, a voz ainda rouca, referindo-se ao traidor que já não estava mais à vista.
— Ele te descartou — Julian corrigiu, a voz carregada de um desprezo venenoso. — Ele te jogou para os cães como se você fosse uma mercadoria barata.
Ele passou o polegar pelo lábio inferior dela, limpando uma mancha de sangue. O toque era possessivo. Era uma marca. Lívia sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o frio do pântano.
— Você me pertence agora, Lívia Salles — ele declarou, e não havia espaço para contestação. Não era um pedido. Era a promulgação de uma lei. — E eu não permito que nada, nem mesmo o próprio apocalipse, destrua o que é meu.
Ele a levantou. Ele não a carregou como quem carrega um ferido; ele a tomou contra o corpo, o braço firme circulando suas costas, a mão espalmada contra a sua cintura com uma firmeza que dizia ao mundo inteiro que ela era propriedade privada.
A última coisa que Lívia viu antes que o cansaço vencesse foi o rosto de Julian — uma máscara de ferocidade e uma fixação inabalável — e o cheiro dele. Cinzas, ozônio e uma promessa estranha, sufocante e perigosa, de que o seu inferno particular acabara de mudar de dono.
Ela fechou os olhos. A escuridão do desmaio a recebeu como um abraço. E, pela primeira vez em três anos, ela não se sentiu vazia. Ela se sentiu consumida.
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