"Minha Filha Escolheu a Empregada" Parte 7
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O abrigo ficou em silêncio.
Ninguém falou.
Ninguém respirou.
Apenas o som distante da chuva.
E o rosto de Elias Valente iluminado pelo monitor.
Calmo.
Controlado.
Perigoso.
Daniel Monteiro continuava olhando para a tela.
Sem conseguir desviar os olhos.
Porque aquele homem não era apenas seu advogado.
Não era apenas um executivo.
Era um amigo.
Quinze anos.
Quinze anos de confiança.
Quinze anos de lealdade.
Ou pelo menos era o que Daniel acreditava.
Até esta noite.
"Elias."
A voz saiu rouca.
Pesada.
"Você discutiu com Isabela na noite em que ela morreu."
Silêncio.
Elias não respondeu imediatamente.
O que foi suficiente.
Porque pessoas inocentes negam rápido.
Pessoas culpadas pensam antes.
Daniel percebeu.
Marcos também.
Ana também.
Finalmente Elias suspirou.
"Sim."
A palavra caiu como uma pedra.
Sofia se encolheu no colo de Ana.
Daniel ficou imóvel.
"Por quê?"
Outra pausa.
Outra hesitação.
"Porque ela estava cometendo um erro."
Daniel sentiu a raiva subir.
"O erro dela foi morrer?"
"Ela não deveria ter continuado investigando."
O abrigo inteiro ficou imóvel.
Investigando.
Outra vez aquela palavra.
Outra vez aquele medo.
Outra vez Isabela.
Sempre Isabela.
Mesmo morta.
Ainda controlando tudo.
Daniel aproximou-se da tela.
"Investigando quem?"
Silêncio.
"Elias."
"Vítor."
Ana imediatamente levantou a cabeça.
"Mentira."
Elias olhou diretamente para ela.
Sem emoção.
"Você realmente acredita nele?"
Ana não respondeu.
Porque acreditava.
Desde o início.
Desde a fotografia.
Desde as histórias que Isabela deixou.
Desde o medo que viu nos olhos dela.
Elias continuou.
"Vítor estava seguindo Isabela."
"Não."
Ana respondeu imediatamente.
"Ele estava protegendo ela."
Elias soltou uma risada amarga.
Curta.
Fria.
"Foi exatamente isso que ele disse?"
Daniel fechou os olhos.
Porque era exatamente isso.
As mesmas palavras.
A mesma explicação.
Os mesmos argumentos.
Vítor dizia que Elias mentia.
Elias dizia que Vítor mentia.
E cada um parecia conhecer apenas metade da história.
Marcos cruzou os braços.
"O problema é que os dois têm acesso."
Silêncio.
"Os dois tinham contato com Isabela."
Silêncio.
"Os dois estavam perto dela antes da morte."
Ninguém respondeu.
Porque era verdade.
E isso tornava tudo pior.
Daniel passou a mão pelo rosto.
Exausto.
Confuso.
Furioso.
"Eu quero fatos."
Elias assentiu.
Como se esperasse aquilo.
Então falou.
"Isabela descobriu movimentações financeiras."
Daniel ficou atento imediatamente.
"E daí?"
"Eram ilegais."
Silêncio.
"Milhões de dólares."
Silêncio.
"Transferidos através de empresas fantasmas."
Marcos ficou tenso.
"Você tem provas?"
"Eu tinha."
Daniel ergueu os olhos.
"Tinha?"
"Ela levou."
Outra vez.
Isabela.
Sempre Isabela.
Elias continuou.
"Ela achava que Vítor estava envolvido."
Ana balançou a cabeça.
"Não."
"Você estava lá?"
"Não."
"Então não sabe."
A resposta veio rápida.
Cortante.
Ana ficou em silêncio.
Mas seus olhos continuavam firmes.
Porque havia uma diferença.
Ela não acreditava em Vítor.
Ela acreditava em Isabela.
E Isabela confiava nele.
Daniel percebeu aquilo.
E pela primeira vez começou a entender.
Ana não defendia Vítor.
Defendia a memória de Isabela.
Defendia as escolhas dela.
Defendia a mulher que lhe estendeu a mão quando ninguém mais fez.
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Elias voltou a falar.
"Daniel."
"Fale."
"Você lembra da última reunião da diretoria antes do acidente?"
Daniel franziu a testa.
Lembrava.
Claro que lembrava.
Uma reunião tensa.
Longa.
Exaustiva.
"E daí?"
"Ela estava lá."
O coração de Daniel acelerou.
Porque era verdade.
Isabela apareceu.
Por poucos minutos.
Quase ninguém percebeu.
Mas agora...
aquilo parecia importante.
Muito importante.
"Ela estava procurando alguém."
Silêncio.
"Quem?"
Elias respirou fundo.
"Vítor."
Ana fechou os olhos.
Como se recusasse ouvir.
Mas Daniel continuava olhando.
Atento.
Porque agora qualquer detalhe podia mudar tudo.
"Por quê?"
"Porque ela acreditava que ele escondia alguma coisa."
A frase ficou suspensa no ar.
Marcos olhou para Daniel.
Daniel olhou para Ana.
Ana olhou para o chão.
E ninguém sabia o que fazer.
Porque toda história parecia possível.
E toda história parecia falsa.
A pior combinação possível.
Então Daniel perguntou a única coisa que realmente importava.
"Você amava minha esposa?"
O abrigo inteiro congelou.
Até Elias pareceu surpreso.
"Isso importa?"
"Responda."
Longo silêncio.
Então Elias respondeu.
"Como amiga."
Daniel continuou observando.
Tentando detectar uma mentira.
Qualquer mentira.
Mas não conseguiu.
Porque talvez fosse verdade.
Ou talvez Elias fosse simplesmente bom demais nisso.
Marcos voltou-se para os monitores.
Tentando localizar algum sinal de Vítor.
Nada.
Somente estática.
Somente corredores vazios.
Somente chuva.
Então Elias falou novamente.
Mais baixo.
Mais sério.
"Daniel."
"Fale."
"Vítor não entrou aqui por acaso."
Silêncio.
"Ele quer alguma coisa."
Daniel sentiu um arrepio.
Porque já suspeitava.
Desde o início.
Desde a chave.
Desde a sala de música.
Desde a fotografia.
"Que coisa?"
A resposta veio imediatamente.
"Uma prova."
O coração de Ana disparou.
Daniel percebeu.
Elias percebeu.
Marcos percebeu.
Todo mundo percebeu.
Porque aquela palavra tinha peso.
Prova.
Não teoria.
Não suspeita.
Prova.
"Que prova?"
Elias aproximou-se da câmera.
"Isabela escondeu algo antes de morrer."
O abrigo inteiro ficou imóvel.
Até Sofia levantou a cabeça.
"Escondeu?"
Silêncio.
"Evidências."
Daniel sentiu o sangue acelerar.
"Evidências de quê?"
"Da pessoa responsável."
Ninguém falou.
Porque aquela frase mudava tudo.
Se existia uma prova...
então existia um culpado.
Se existia um culpado...
então Isabela realmente foi assassinada.
E se Isabela realmente foi assassinada...
então os últimos três anos foram uma mentira.
Daniel sentiu o chão desaparecer.
Outra vez.
Sempre outra vez.
Elias continuou.
"Ela não confiava mais em ninguém."
Silêncio.
"Nem em Vítor."
Silêncio.
"Nem em mim."
Silêncio.
"Nem mesmo em você."
A última frase acertou Daniel como um tiro.
Porque era verdade.
Cruelmente verdade.
Ela não confiou nele.
Não no final.
Não quando mais precisava.
E aquilo doía mais do que qualquer acusação.
Ana enxugou discretamente uma lágrima.
Porque também sabia.
Isabela tentou.
Tentou inúmeras vezes.
E ninguém ouviu.
Nem Daniel.
Nem Vítor.
Nem Elias.
Agora era tarde demais.
Ou quase.
O monitor piscou novamente.
Uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
O sinal começou a falhar.
Elias percebeu.
"Não temos muito tempo."
Daniel aproximou-se.
"Onde está a prova?"
Silêncio.
Pela primeira vez.
Elias hesitou.
Como se realmente não soubesse.
Ou como se não quisesse dizer.
"Eu não sei."
Marcos praguejou.
Ana fechou os olhos.
Daniel sentiu a frustração explodir.
"Então por que está aqui?"
"Porque Vítor também não sabe."
A frase deixou todos imóveis.
"Ele está procurando."
Silêncio.
"Há três anos."
Silêncio.
"E ainda não encontrou."
Daniel ficou olhando para o monitor.
Pensando.
Calculando.
Tentando encaixar as peças.
Vítor procurando.
Elias procurando.
Isabela escondendo.
Sofia lembrando.
Ana protegendo.
Tudo parecia conectado.
Mas nada fazia sentido.
Então uma voz pequena surgiu atrás deles.
Tão baixa que quase passou despercebida.
"Eu sei."
Todos se viraram.
Sofia.
Sentada no colo de Ana.
Segurando seu coelho de pelúcia.
Os olhos assustados.
Mas determinados.
Daniel ajoelhou imediatamente.
"O quê, princesa?"
Sofia engoliu em seco.
Olhou para Ana.
Depois para o monitor.
Depois para o pai.
E finalmente sussurrou:
"Eu sei onde a mamãe escondeu."
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