"Minha Filha Escolheu a Empregada" Parte 5
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A porta blindada se fechou atrás deles.
O som ecoou pelo abrigo subterrâneo.
Pesado.
Definitivo.
Como uma prisão.
Ou um túmulo.
Durante alguns segundos ninguém falou.
Apenas o som da chuva.
Batendo contra a estrutura acima deles.
Sofia continuava agarrada a Ana.
Como se tivesse medo de soltá-la.
Como se o mundo inteiro estivesse se desfazendo.
E talvez estivesse.
Daniel permanecia diante dos monitores.
Imóvel.
Tentando organizar os pedaços da própria vida.
Mas cada nova resposta criava mais perguntas.
Mais dúvidas.
Mais culpa.
Muito mais culpa.
Finalmente ele virou-se.
Olhou para Ana.
"Comece."
Ana baixou os olhos.
Parecia cansada.
Não fisicamente.
Mas de uma forma muito mais profunda.
Como alguém que carregava um segredo pesado demais por tempo demais.
"Isabela veio me procurar."
Silêncio.
"Quando?"
"Três semanas antes do acidente."
Daniel sentiu algo apertar dentro do peito.
Três semanas.
Apenas três semanas.
Enquanto ele estava ocupado com reuniões.
Viagens.
Contratos.
Sua esposa procurava ajuda em outro lugar.
"Por quê?"
Ana demorou para responder.
Porque sabia que a resposta machucaria.
"Ela disse que não sabia mais em quem confiar."
Daniel ficou imóvel.
A frase atingiu como um soco.
Porque Isabela deveria confiar nele.
Ele era o marido.
O companheiro.
O pai da filha dela.
Mas não foi ele quem ela procurou.
Foi Ana.
A empregada.
A mulher que todos ignoravam.
"Ela falou sobre mim?"
A pergunta saiu mais baixa do que pretendia.
Ana levantou os olhos.
Pela primeira vez.
"Todos os dias."
Daniel congelou.
"Ela ainda te amava."
O silêncio ficou pesado.
"Mas ela não acreditava mais que você estava ouvindo."
A frase destruiu alguma coisa dentro dele.
Porque era verdade.
Cruelmente verdade.
Daniel lembrava.
Os telefonemas interrompidos.
As conversas adiadas.
Os jantares cancelados.
As promessas de depois.
Sempre depois.
E depois nunca chegava.
Ana continuou.
"Ela tentou falar com você."
Daniel fechou os olhos.
Uma memória voltou imediatamente.
Isabela parada na porta do escritório.
Segurando alguns documentos.
Ele sem sequer levantar a cabeça.
"Agora não."
Outra memória.
Uma viagem para Londres.
Isabela dizendo que precisava conversar.
Ele respondendo:
"Quando eu voltar."
Outra memória.
Uma noite inteira em claro.
Ela chorando.
Ele trabalhando.
Agora aquelas lembranças pareciam diferentes.
Muito diferentes.
Porque talvez...
ela estivesse pedindo ajuda.
E ele nunca percebeu.
Sofia observava tudo em silêncio.
Pequena.
Assustada.
Mas ouvindo cada palavra.
Daniel respirou fundo.
Tentando controlar a própria voz.
"O que ela descobriu?"
Ana hesitou.
Tempo demais.
Marcos percebeu imediatamente.
Daniel também.
"Havia alguma coisa na empresa."
A sala inteira ficou imóvel.
Grupo Monteiro.
O império construído por Daniel.
O orgulho da família.
A herança que pretendia deixar para Sofia.
"O quê?"
"Ela não sabia tudo."
"Ana."
"Ela realmente não sabia."
A voz dela falhou.
"Mas alguém estava roubando informações."
Marcos levantou os olhos dos monitores.
Instantaneamente.
"Informações de que tipo?"
"Contratos."
Daniel sentiu o sangue gelar.
Contratos.
Não era um problema comum.
Não era apenas dinheiro.
Grupo Monteiro lidava com sistemas de segurança.
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Tecnologia.
Infraestrutura internacional.
Se informações estavam vazando...
as consequências poderiam destruir muito mais que uma empresa.
"Ela encontrou provas?"
Ana demorou alguns segundos.
Então assentiu.
Devagar.
"Algumas."
Daniel aproximou-se.
"Onde estão?"
Ana não respondeu.
Porque a resposta era pior.
"Ela estava reunindo tudo."
Silêncio.
"Mas não teve tempo de terminar."
A palavra tempo ficou suspensa no ar.
Porque todos pensavam a mesma coisa.
O acidente.
Ou o que agora talvez não fosse um acidente.
Daniel passou a mão pelo rosto.
Exausto.
Confuso.
Furioso.
"Por que ela não me contou?"
Ana ficou em silêncio.
Depois respondeu:
"Ela tentou."
Aquelas duas palavras doeram mais do que qualquer outra coisa naquela noite.
Ela tentou.
Daniel lembrou imediatamente.
Uma noite.
Dois meses antes da morte.
Isabela entrou em seu escritório.
Com uma pasta azul.
Ele estava numa videoconferência.
Nem sequer olhou para ela.
Nem sequer perguntou o que era.
Nem sequer percebeu que ela chorou ao sair.
Agora a lembrança voltava inteira.
Nítida.
Brutal.
E irreversível.
Daniel baixou a cabeça.
Pela primeira vez naquela noite.
Porque compreendeu algo terrível.
Sua esposa pediu ajuda.
E ele não ouviu.
Ana observava em silêncio.
Sem julgamento.
O que tornava tudo ainda pior.
Porque ela sabia.
Sabia exatamente o que Isabela sentia.
Sabia exatamente quantas vezes ela tentou.
E quantas vezes falhou.
Sofia saiu do sofá.
Aproximou-se devagar.
E segurou a mão do pai.
Daniel olhou para baixo.
Os olhos começaram a arder.
"Você parece triste."
A voz dela era pequena.
Inocente.
Mas quase o destruiu.
Porque crianças percebem dor antes dos adultos admitirem que ela existe.
Daniel beijou a testa da filha.
E respirou fundo.
"O que mais?"
Ana fechou os olhos.
Depois colocou a mão no bolso.
Marcos imediatamente ficou alerta.
Mas ela apenas retirou um envelope.
Velho.
Amassado.
Gasto pelo tempo.
"Ela me pediu para guardar isso."
Daniel recebeu o envelope.
As mãos começaram a tremer.
Pela primeira vez em anos.
Dentro havia uma fotografia.
Ele puxou lentamente.
E congelou.
Porque era Isabela.
Viva.
Sorrindo.
Mas não era isso que importava.
Ela estava ao lado de Ana.
Sentadas numa cafeteria.
Conversando.
Pareciam tensas.
Preocupadas.
Assustadas.
E ao fundo...
quase escondido.
Havia um homem.
Dentro de um carro preto.
Observando as duas.
Daniel aproximou a foto dos olhos.
O coração acelerando.
Não.
Impossível.
Mas era.
Ele reconheceu imediatamente.
Vítor Alves.
Um dos executivos mais antigos do Grupo Monteiro.
Seu conselheiro.
Seu amigo.
Um homem em quem confiava há mais de dez anos.
Marcos soltou um palavrão.
Baixo.
Incrédulo.
"Tem certeza?"
Daniel continuava olhando a fotografia.
Sem conseguir desviar os olhos.
"Sim."
O sangue parecia ter desaparecido do próprio corpo.
Vítor.
Ali.
Seguindo Isabela.
Observando Isabela.
Vigiando Isabela.
Ana falou baixinho.
"Ela disse que ele aparecia em vários lugares."
Silêncio.
"Estacionamentos."
Silêncio.
"Cafeterias."
Silêncio.
"Reuniões."
Daniel apertou a fotografia.
Com força.
Porque agora algumas peças começavam a se encaixar.
Vítor tinha acesso.
Vítor conhecia contratos.
Vítor conhecia sistemas internos.
Vítor conhecia praticamente tudo.
E, pela primeira vez...
Daniel não sabia mais em quem confiar.
Marcos aproximou-se.
Observando a fotografia.
"Por que esconder isso durante três anos?"
Ana respondeu imediatamente.
"Porque Isabela pediu."
"Por quê?"
A voz dela falhou.
"Porque ela tinha medo de acusar a pessoa errada."
A frase ecoou pela sala.
Medo.
Tudo voltava para medo.
Os carros.
As lágrimas.
As conversas escondidas.
A chave da sala de música.
Sofia.
Tudo.
Isabela estava assustada.
E ninguém percebeu.
Nem mesmo Daniel.
Principalmente Daniel.
O silêncio voltou.
Pesado.
Insuportável.
Até que Marcos falou.
"Senhor."
Daniel ergueu os olhos.
O monitor principal mostrava o corredor superior da Mansão Monteiro.
Chuva refletindo nos vitrais.
Luzes vermelhas girando.
Tudo parecia vazio.
Normal.
Então algo apareceu.
Uma figura.
Alta.
Vestida de preto.
Caminhando lentamente pelo corredor.
Sem correr.
Sem se esconder.
Como se pertencesse àquela casa.
Como se estivesse exatamente onde queria estar.
Sofia ficou pálida.
Ana parou de respirar.
Marcos segurou a arma.
E Daniel sentiu o sangue gelar.
Porque o homem parou.
Bem diante da câmera.
E olhou diretamente para ela.
Como se soubesse.
Como se soubesse que eles estavam assistindo.
Então levantou a mão.
Devagar.
E sorriu.
Não como um criminoso.
Não como um invasor.
Mas como alguém cumprimentando velhos conhecidos.
A tela piscou.
Uma vez.
Duas vezes.
E ficou preta.
O monitor perdeu sinal.
O abrigo inteiro mergulhou num silêncio mortal.
E Daniel compreendeu uma coisa.
O invasor não estava procurando a Mansão Monteiro.
Ele estava procurando alguma coisa dentro dela.
Alguma coisa que Isabela escondeu antes de morrer.
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