"Livre aos Trinta: O Diagnóstico que Mudou Tudo" Capítulo 2
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Do outro lado, a voz habitualmente controlada de Caleb vacilou de leve.
"Sophia, eu já te disse que a Juliana faz parte do passado. Só falei com ela por causa da sua saúde."
"Dá para parar de agir como uma criança birrenta? Volte logo. Já conversei com o Henrique sobre o seu protocolo de tratamento, se você colaborar, você vai..."
Antes que ele terminasse a frase, Sophia o cortou: "Vou o quê? Vou conseguir viver mais dois dias? Ou quem sabe mais um mês?"
Caleb emudeceu.
Sophia olhou com indiferença para as folhas que caíam das árvores do lado de fora e continuou: "Caleb, você também é médico. Por acaso não sabe que o meu caso não tem cura?"
"Você está fazendo isso pelo meu bem ou está apenas com medo do que os outros vão falar de você se eu morrer, dizendo que você foi um marido insensível?"
Caleb tentou formular uma resposta, mas nenhuma palavra saiu de sua boca.
Sophia nunca o achara tão hipócrita quanto naquele momento.
Sua voz esfriou completamente: "Por favor, não me procure mais. Eu pretendo aproveitar cada minuto e cada segundo que me restam."
Sophia desligou o telefone.
Ao dar entrada no hotel, ela se sentiu um pouco indisposta devido ao cansaço da viagem.
Precisou descansar por algumas horas antes de se recuperar.
No fim da tarde, ao notar o pôr do sol avermelhado e intenso através da janela de vidro, não resistiu e pegou a câmera para registrar a cena.
Em seguida, publicou a imagem em seu perfil.
"Ainda bem que tive a coragem de me demitir, caso contrário, teria perdido esse espetáculo."
Sophia sempre amou a fotografia e tinha o sonho de se tornar profissional, mas as pressões da vida a empurraram para a carreira de programadora.
Desde que começara a trabalhar na área, passara anos sem tocar no equipamento.
A foto mais recente salva na memória do aparelho era de três anos atrás, tirada no dia do seu aniversário ao lado de Caleb. Na imagem, ela exibia um sorriso radiante, enquanto ele permanecia com o rosto inexpressivo.
Olhando as fotos anteriores, quase todas mostravam apenas Caleb, sempre com uma fisionomia séria e distante.
Sophia começou a apagar todas as fotos ligadas a ele, uma por uma.
Uma vida com prazo de validade não deveria ser gasta com quem não valia a pena.
Após limpar a galeria de imagens, ela saiu do hotel para caminhar e fotografar os arredores.
Postou os novos cliques na rede social e foi deitar cedo.
No dia seguinte, Sophia acordou com o celular vibrando intensamente.
Ao abrir o aplicativo, percebeu que as fotos que havia publicado na noite anterior tinham viralizado.
A aba de notificações estava inundada de comentários e novos seguidores.
"As fotos da autora são incríveis, perfeitas para usar como papel de parede!"
"Invejo a coragem dessa garota, quem me dera ter a audácia de largar tudo assim."
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"Esse entardecer é simplesmente maravilhoso..."
"Você trabalha com fotografia profissional?"
...
Sophia lia aquelas mensagens sem conseguir acreditar, parecia um sonho.
No passado, não importava se estava em casa ou no trabalho, por mais excelente que fosse, ela nunca era notada.
Mas ontem, ela apenas tirou algumas fotos simples e, surpreendentemente, tantas pessoas gostaram...
Suas mãos tremiam de tanta emoção enquanto digitava uma a uma para agradecer aos fãs.
Quando terminou de responder a todos os fãs, já passava das dez da manhã.
Antigamente, Sophia costumava acordar religiosamente às seis para preparar o café da manhã e cuidar de seu marido, Caleb.
Hoje foi a primeira vez, desde que se casou, que ela se permitiu levantar tarde.
Depois de se levantar e se arrumar, Sophia deixou o hotel e partiu para ver o Mar de Pérolas.
No caminho, ela recebeu uma chamada de sua sogra.
"Sophia, o Caleb me contou sobre a sua doença. Por que você não está se tratando? Viajar para tão longe sozinha, o seu corpo vai aguentar?"
Ouvir a preocupação da sogra fez os cílios de Sophia tremerem de leve, mas antes que pudesse responder, a mulher continuou.
"Tudo bem você ter saído do emprego, já que está doente, mas você não pode ser egoísta. Você sabe como o Caleb é ocupado, são várias cirurgias por dia, às vezes ele chega de madrugada e não tem nem uma refeição quente esperando por ele. Meu coração de mãe fica partido."
"Seja ajuizada e volte logo para dar apoio a ele, para não deixar arrependimentos mais tarde."
Como assim, egoísta?
Durante os cinco anos de matrimônio, Sophia considerava ter sido uma excelente nora.
Comprava roupas e calçados para os sogros em todas as estações e cuidava deles pessoalmente sempre que adoeciam.
No entanto, agora que ela estava doente, a única preocupação deles era com o bem-estar do próprio filho.
A voz de Sophia soou carregada de mágoa: "Dona Helena, o Caleb pode ser o seu tesouro, mas eu também era o tesouro dos meus pais."
"Eu estou morrendo! Por que eu deveria me importar se o seu filho tem comida quente na mesa?"
"A senhora não vivia dizendo que me considerava uma filha? Se a sua filha Bianca estivesse com câncer e tivesse poucos dias de vida, a senhora iria exigir que ela se preocupasse se o marido dela almoçou bem?"
Dona Helena emudeceu do outro lado.
Sophia sempre se dirigira a ela com um tom de voz doce, obediente e contido. Como ela ousava responder daquela forma hoje?
A mulher logo explodiu em indignação.
"Sophia, onde estão os seus modos? Como você se atreve a rogar pragas contra a minha filha, você..."
Sophia a interrompeu: "A senhora deve ter muita educação, não é? Muita educação para exigir que uma nora à beira da morte cozinhe para o seu filho."
A voz do sogro surgiu ao fundo na ligação: "Sophia, peça desculpas à sua mãe agora mesmo."
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"Desculpas?", Sophia soltou uma risada amarga. "Eu não tenho mãe, a minha mãe já faleceu."
Se os pais dela ainda estivessem vivos, ninguém ousaria tratá-la com tanto desdém.
Sophia desligou o telefone e, em seguida, bloqueu o número dos dois.
Após o estresse da ligação, sentiu um aperto no peito seguido de uma forte cólica abdominal.
Ela tomou dois analgésicos para conter o desconforto.
Meia hora depois, o veículo chegou ao Mar de Pérolas.
Sophia desceu, apontou a câmera para si mesma, fez um autorretrato e publicou com a legenda:
"A partir de hoje, não sou nora de ninguém, não sou esposa de ninguém. Vou viver apenas por mim."
Nos três dias seguintes, ela percorreu vilas históricas, vales e montanhas da região.
Cada registro compartilhado atraía uma nova onda de admiradores para o seu perfil.
Ela desfrutava de cada instante com alegria, sentindo a mente e o corpo mais leves do que nunca.
Durante esse período, as mensagens e ligações de Caleb não paravam de chegar.
"O plano de tratamento já está pronto, quando você volta?"
"Você não pode ser tão negligente com a sua própria saúde."
Sophia ignorou todas as tentativas.
O histórico de conversas dos dois, que antes exibia longos blocos de texto enviados por ela demonstrando afeto, agora estava preenchido por mensagens dele cobrando respostas.
Antes era Caleb quem a ignorava, agora era ela quem não dava a mínima.
Depois de concluir seu itinerário pela região sul, Sophia partiu para o norte do país.
Assim que desembarcou na região das dunas, recebeu um longo texto de Matheus, seu antigo chefe.
"Sophia, quando você pretende retornar à empresa?"
"Você vai precisar de dinheiro para o tratamento, além de ter suas obrigações com o seu marido, seus sogros e o seu lar. Não dá para chutar o balde e sumir assim, é preciso tel responsabilidade com os outros."
"Por isso, eu não aprovei a sua demissão. Você já descansou por um mês, está na hora de voltar ao posto."
Sophia encarou aquela mensagem impositiva com os dedos trêmulos de indignação.
Matheus fora seu colega de faculdade e seu gestor por oito anos.
Ela sempre o considerara um amigo, alguém em quem confiar.
Trabalhou por oito anos e nunca criara problemas para ele.
No entanto, há pouco mais de um mês, quando se sentira mal e pedira dispensa para fazer exames, ele a olhara com impaciência.
"Você me parece muito saudável, para que folga?"
"Só posso te liberar por meio período, como falta justificada."
Mais tarde, ele chegara a publicar um aviso no grupo da empresa: "Proibido solicitar dispensas em períodos de alta demanda."
Aquele episódio insignificante fora o suficiente para Sophia enxergar o caráter dele.
Se fosse no passado, para preservar o emprego, ela teria engolido o orgulho, mas agora não aceitaria mais aquilo.
Sophia digitou imediatamente uma resposta para Matheus.
"Matheus, descobri que quando a gente fica doente, a visão clareia. Percebi que não vale a pena manter certas aparências ou redes de contatos por pura conveniência. A vida é curta demais, o que importa é ser feliz."
Logo após enviar a mensagem, ela tirou um print da conversa onde ele exigia seu retorno e jogou o arquivo diretamente no grupo principal da empresa, acompanhado de uma pergunta:
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