"Ela Comprou um Mendigo... e Ele Era Bilionário" Capítulo 11 — Virando Favelado
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Leonardo acordou com um grito.
“PEDRINHOOOO!”
Foi seguido por outro.
“EU FALEI PRA NÃO SUBIR AÍ!”
Depois um terceiro.
“DESCER AGORA!”
Ele abriu os olhos lentamente.
Ficou alguns segundos olhando para o teto simples do quarto.
Ainda era estranho.
Acordar sem ar-condicionado.
Sem cortinas automáticas.
Sem silêncio.
Em Paraisópolis, silêncio parecia não existir.
Sempre havia alguém falando.
Cantando.
Discutindo.
Rindo.
Ou brigando.
Mais uma vez, ele percebeu algo curioso.
Não odiava aquilo.
Quando saiu do quarto, encontrou Dona Lourdes na cozinha.
Uma panela fumegava sobre o fogão.
O cheiro era forte.
Diferente.
“Bom dia.”
“Bom dia, meu filho.”
Dona Lourdes apontou para a mesa.
“Come.”
Leonardo sentou.
Observou o prato.
Depois observou Dona Lourdes.
Depois voltou a olhar o prato.
“Isso é o quê?”
“Cuscuz.”
“Parece areia.”
Dona Lourdes ficou indignada.
“Areia?”
“Um pouco.”
“Come primeiro.”
Leonardo pegou o garfo.
Experimentou.
Parou.
Mastigou.
Depois mastigou de novo.
Dona Lourdes cruzou os braços.
“E então?”
Ele demorou alguns segundos.
“É bom.”
A senhora sorriu imediatamente.
“Eu sabia.”
Nesse momento, Pedrinho surgiu na porta.
Como sempre.
Sem avisar.
Sem bater.
Sem pedir licença.
“ELE GOSTOU!”
“Eu não gostei.”
Leonardo respondeu.
“Gostou sim.”
“Não gostei.”
“Gostou.”
“Pedrinho.”
“Tá bom.”
O garoto respondeu.
“Mas você gostou.”
Mariana entrou logo depois.
Prendeu os cabelos rapidamente.
Pegou uma xícara de café.
“Pronto.”
Disse Pedrinho.
“Agora ele já é oficialmente brasileiro.”
“Por causa do cuscuz?”
Perguntou Leonardo.
“Não.”
“Então por quê?”
“Porque já começou a discutir durante o café da manhã.”
Mariana quase cuspiu o café de tanto rir.
Uma hora depois.
Os três caminhavam pela comunidade.
Leonardo carregava algumas caixas para a barraca.
Mas desta vez observava tudo de forma diferente.
Na primeira semana.
Ele enxergava apenas pobreza.
Agora...
Começava a enxergar pessoas.
O barbeiro que conhecia o nome de todo mundo.
A senhora que vendia bolo.
O rapaz que consertava celulares.
O vendedor de churrasquinho.
Todos pareciam fazer parte de uma engrenagem invisível.
Uma bagunça organizada.
“Leonardo!”
Ele virou.
Era um homem sentado na frente de uma mercearia.
“Bom dia.”
“Bom dia.”
O homem apontou para Mariana.
“Vocês estão namorando?”
Leonardo quase tropeçou.
Mariana fechou os olhos.
“Começou.”
Ela murmurou.
“Começou o quê?”
“Paraisópolis.”
O homem continuava esperando resposta.
“Não.”
Mariana respondeu.
“Ainda.”
O homem respondeu.
Pedrinho caiu na gargalhada.
Leonardo decidiu que não queria entender aquela conversa.
Chegaram à mercearia.
Mariana precisava comprar algumas coisas para a barraca.
“Pega duas caixas de leite condensado.”
Ela pediu.
Leonardo pegou.
“Mais alguma coisa?”
“Refrigerante.”
“Qual?”
“Qualquer um.”
“Existe uma diferença.”
“Leonardo.”
“Sim?”
“É refrigerante.”
“Mas existe uma diferença.”
“Você pensa demais.”
“Você pensa de menos.”
“Eu ouvi isso.”
Mariana respondeu.
Quando chegaram ao caixa...
Outra surpresa.
“Quanto deu?”
Perguntou Leonardo.
O dono da mercearia sorriu.
“Depois você paga.”
Leonardo ficou parado.
“Depois?”
“Depois.”
“Mas eu estou comprando agora.”
“Eu sei.”
“E vou pagar depois?”
“Isso.”
“Mas e se eu não voltar?”
O homem deu de ombros.
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“Você volta.”
“Como sabe?”
“Porque a Mariana volta.”
“Isso não responde minha pergunta.”
“Responde sim.”
Leonardo ficou olhando para ele.
O homem continuou sorrindo.
Pedrinho ria tanto que quase caiu.
“Ele ainda não entendeu.”
“Entender o quê?”
“Que aqui todo mundo conhece todo mundo.”
“Isso é assustador.”
“É prático.”
Mariana respondeu.
No caminho de volta...
A terceira surpresa do dia aconteceu.
“Oi, Leonardo.”
Uma senhora acenou.
“Oi.”
“Ouvi dizer que você quase beijou a Mariana.”
Silêncio.
Silêncio absoluto.
Mariana congelou.
Pedrinho explodiu.
Leonardo ficou imóvel.
“Como é que a senhora sabe disso?”
“Minha filha me contou.”
“Quem contou para sua filha?”
“Não sei.”
“Quando isso aconteceu?”
“Hoje de manhã.”
Leonardo olhou para Mariana.
Mariana olhou para Leonardo.
Pedrinho estava morrendo de rir.
“Eu falei.”
“Falou o quê?”
“Paraisópolis.”
Durante o resto do caminho...
Pelo menos quatro pessoas fizeram comentários.
“Casal bonito.”
“Quando sai o casamento?”
“Já escolheram os nomes dos filhos?”
“Eu conheço um buffet.”
Leonardo começou a acreditar que toda a comunidade sofria da mesma doença mental.
Já perto da barraca...
Pedrinho decidiu apresentar outra parte importante da cultura local.
Comida de rua.
“Você nunca comeu coxinha?”
“Não.”
“Pastel?”
“Não.”
“Caldo de cana?”
“Também não.”
O garoto ficou chocado.
“Você teve uma infância muito triste.”
“Você já disse isso.”
“Porque continua sendo verdade.”
Dez minutos depois...
Leonardo experimentava caldo de cana pela primeira vez.
Parou.
Piscou.
Tomou mais um gole.
“Isso é bom.”
“Eu sabia!”
Pedrinho comemorou.
“Tudo aqui é bom.”
“Nem tudo.”
Mariana respondeu.
“Seu Jorge faz cachorro-quente horrível.”
“Verdade.”
Pedrinho concordou imediatamente.
“Parecia importante vocês me contarem isso.”
“É uma informação vital.”
O resto da tarde passou rápido.
Clientes.
Risadas.
Crianças.
Música.
Sem perceber...
Leonardo já se movia pela barraca quase naturalmente.
Já sabia quem gostava de desconto.
Quem sempre esquecia troco.
Quem falava demais.
Estava aprendendo.
Rápido demais.
No final do dia...
O movimento diminuiu.
O sol começava a descer.
Mariana conversava com algumas vizinhas.
Estava sorrindo.
Um sorriso verdadeiro.
Sem preocupações.
Sem medo.
Sem discussões.
Apenas feliz.
Leonardo ficou observando.
Por alguns segundos.
Talvez mais do que deveria.
Porque havia algo naquele sorriso.
Algo simples.
Algo que fazia aquele lugar parecer um pouco mais leve.
“Você tá olhando.”
A voz de Pedrinho surgiu ao lado dele.
Leonardo quase levou um susto.
“Eu não estou olhando.”
“Tá sim.”
“Não estou.”
“Tá.”
“Pedrinho.”
“Tá bom.”
O garoto respondeu.
Depois sorriu.
“Acho que você está virando favelado.”
Leonardo observou Mariana mais uma vez.
Depois olhou para a comunidade.
Para a praça.
Para as crianças correndo.
Para os vizinhos conversando.
E pela primeira vez...
Não conseguiu discordar.
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