"Ela Comprou um Mendigo... e Ele Era Bilionário" Capítulo 10 — O Quase Beijo
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A notícia da derrota de Nando Cobra se espalhou por Paraisópolis mais rápido do que qualquer fofoca dos últimos meses.
No dia seguinte, todo mundo ainda comentava.
Na vendinha.
Na barbearia.
Na fila do pão.
Na praça.
Até Dona Lourdes já tinha ouvido cinco versões diferentes da mesma história.
Em uma delas, Leonardo havia enfrentado dez homens sozinho.
Em outra, Nando tinha fugido chorando.
Nenhuma era verdade.
Mas ninguém parecia se importar.
“Você virou celebridade.”
Mariana comentou enquanto organizava os brigadeiros.
Leonardo suspirou.
“Excelente.”
“Pedrinho contou a história para metade da comunidade.”
“Só metade?”
“Ele ainda está trabalhando na outra metade.”
Como se tivesse sido convocado pelo universo...
Pedrinho apareceu correndo.
“Vocês vão hoje, né?”
Mariana levantou a cabeça.
“Hoje o quê?”
O garoto arregalou os olhos.
“Você esqueceu?”
“Esqueci o quê?”
“A festa!”
Mariana congelou.
A festa comunitária.
Todo ano acontecia.
Com música.
Comida.
Quadrilhas improvisadas.
Forró.
Churrasco.
E praticamente toda Paraisópolis reunida.
“Eu realmente tinha esquecido.”
Ela admitiu.
“Impossível.”
Pedrinho colocou as mãos na cabeça.
“É o melhor dia do mês!”
“Você fala isso sobre qualquer evento.”
“Porque todos são os melhores do mês.”
Leonardo observava a conversa.
Sem entender nada.
“Que festa?”
Perguntou.
Pedrinho olhou para ele.
Como se a pergunta fosse um crime.
“Você nunca foi numa festa comunitária?”
“Não.”
“Meu Deus.”
“Para de falar como se eu tivesse crescido numa caverna.”
“Você cresceu pior.”
“Pedrinho.”
Mariana advertiu.
“Desculpa.”
O garoto respondeu.
“Mas é verdade.”
Leonardo balançou a cabeça.
Já tinha desistido de vencer discussões contra aquele menino.
Naquela noite...
Paraisópolis parecia diferente.
Luzes coloridas atravessavam a praça.
Bandeirinhas decoravam os postes.
Música saía das caixas de som.
O cheiro de churrasco dominava o ar.
Crianças corriam entre as barracas.
Casais dançavam.
Famílias conversavam.
Leonardo parou por alguns segundos.
Observando tudo.
Era estranho.
Porque nunca tinha visto tanta gente feliz ao mesmo tempo.
Sem luxo.
Sem riqueza.
Sem grandes eventos.
Apenas pessoas aproveitando a própria companhia.
“Está bonito.”
Ele admitiu.
Mariana sorriu.
“Eu sabia que você ia gostar.”
Ela estava diferente naquela noite.
Usava um vestido simples.
Colorido.
Os cabelos soltos.
Os brincos grandes balançavam sempre que ela sorria.
Leonardo percebeu.
E imediatamente desviou o olhar.
O que foi um erro.
Porque Mariana percebeu que ele desviou.
E agora estava se divertindo com isso.
“Está tudo bem?”
Ela perguntou.
“Claro.”
“Tem certeza?”
“Sim.”
“Porque você parece nervoso.”
“Eu não estou nervoso.”
“Está sim.”
“Não estou.”
“Está.”
“Não.”
“Está.”
Pedrinho surgiu entre os dois.
“Ele está.”
“PEDRINHO!”
O garoto saiu correndo antes que alguém pudesse pegá-lo.
Rindo.
Claro.
A música mudou.
O forró começou.
E imediatamente metade da praça foi para a pista improvisada.
Mariana observou.
Depois olhou para Leonardo.
“Você dança?”
“Não.”
“Nem um pouco?”
“Nem um pouco.”
“Mentira.”
“Por quê?”
“Porque você tem cara de quem sabe fazer tudo.”
“Você claramente não me viu tentando vender brigadeiro.”
Mariana riu.
“Justo.”
Então estendeu a mão.
“Vem.”
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Leonardo olhou para a mão dela.
Depois para a praça.
Depois para a mão novamente.
“Não.”
“Sim.”
“Não.”
“Sim.”
“Mariana.”
“Leonardo.”
“Não.”
“Você me deve quinhentos reais.”
Silêncio.
“Isso foi golpe baixo.”
“Funcionou.”
Cinco minutos depois...
Ele estava na pista.
Infeliz.
Muito infeliz.
Ou pelo menos tentando parecer.
Porque a verdade era outra.
A mão de Mariana segurava a dele.
E isso estava dificultando bastante sua capacidade de pensar.
“Relaxa.”
Ela disse.
“Eu estou relaxado.”
“Você está duro igual um poste.”
“Obrigado.”
“Não foi elogio.”
“Percebi.”
A música continuava.
E aos poucos...
Leonardo começou a acompanhar o ritmo.
Primeiro devagar.
Depois melhor.
Depois muito melhor.
“Mentiroso.”
Mariana acusou.
“O quê?”
“Você disse que não sabia dançar.”
“Eu não sabia.”
“Sabia sim.”
“Estou aprendendo.”
“Em cinco minutos?”
“Talvez.”
Ela balançou a cabeça.
Impressionada.
E um pouco curiosa.
Porque quanto mais conhecia aquele homem...
Mais perguntas surgiam.
A distância entre eles diminuiu.
Naturalmente.
Sem perceber.
Sem planejar.
Apenas aconteceu.
Os rostos ficaram próximos.
Muito próximos.
Próximos demais.
Mariana percebeu primeiro.
Leonardo percebeu logo depois.
Nenhum dos dois se afastou.
Por alguns segundos...
A praça desapareceu.
A música desapareceu.
O mundo desapareceu.
Só existiam os dois.
E aquela distância ridiculamente pequena.
Os olhos dela.
O sorriso dele.
A respiração compartilhada.
“Leonardo...”
Ela sussurrou.
“Hum?”
Mas ela não respondeu.
Porque naquele instante...
Um clarão explodiu.
FLASH.
Os dois se afastaram imediatamente.
Confusos.
Surpresos.
O momento desapareceu.
“Foi um celular?”
Mariana perguntou.
“Pareceu.”
“Você viu quem foi?”
“Não.”
Pedrinho apareceu correndo.
“Vocês viram?”
“Ver o quê?”
“Alguém tirou uma foto!”
O sorriso desapareceu do rosto de Mariana.
“Quem?”
“Não sei.”
“De onde?”
“Também não sei.”
“Pedrinho.”
“Estou ajudando.”
“Não está.”
“Talvez um pouco.”
Mas Leonardo já não estava ouvindo.
Porque algo dentro dele ficou alerta.
Muito alerta.
Aquela sensação familiar.
A sensação de estar sendo observado.
Vigiado.
Ele ergueu os olhos.
Do outro lado da praça.
Perto da saída.
Uma figura desaparecia na multidão.
Rápido demais.
Como alguém que não queria ser reconhecido.
Leonardo observou por alguns segundos.
Pensando.
Calculando.
Tentando entender.
Enquanto isso...
Mariana observava ele.
E pela primeira vez naquela noite...
Sentiu um frio estranho na barriga.
Porque tinha a sensação de que aquele flash...
Não era coincidência.
E que aquela foto...
Talvez trouxesse problemas muito maiores do que um simples quase beijo.
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