"Ela Comprou um Mendigo... e Ele Era Bilionário" Capítulo 9 — A Primeira Vitória
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Mariana não dormiu direito.
Toda vez que fechava os olhos, lembrava da cara de Nando Cobra.
Do sorriso debochado.
Da forma como ele olhava para a barraca.
Como se tudo ali pertencesse a ele.
Como se o trabalho dos outros existisse apenas para encher o bolso dele.
Por isso, quando o despertador tocou às cinco da manhã, ela já estava acordada.
Sentada na cama.
Pensando.
Calculando.
Se Nando voltasse...
O que ela faria?
Porque desta vez não era apenas sobre ela.
Agora havia Dona Lourdes.
Pedrinho.
A barraca.
E Leonardo.
Quando chegou à praça improvisada onde montava o negócio todos os dias, o céu ainda estava alaranjado.
Alguns comerciantes já trabalhavam.
Outros montavam suas barracas.
A comunidade despertava lentamente.
Mas Mariana continuava inquieta.
Tão inquieta que colocou açúcar no lugar errado.
Derrubou uma caixa.
Quase queimou uma panela.
E só percebeu quando ouviu uma voz atrás dela.
“Você está fazendo tudo duas vezes.”
Ela virou a cabeça.
Leonardo carregava uma caixa de leite condensado.
“Não estou.”
“Está.”
“Não estou.”
“Você organizou essa bandeja três vezes em cinco minutos.”
Mariana suspirou.
“Você anda observando demais.”
“Você anda preocupada demais.”
Ela ficou em silêncio.
Porque ele tinha razão.
Pedrinho apareceu correndo logo depois.
Como sempre.
Parecia incapaz de caminhar normalmente.
“Bom dia!”
“Você grita até de manhã?”
Mariana reclamou.
“Claro.”
“Por quê?”
“Porque estou vivo.”
Leonardo soltou uma risada curta.
Pedrinho apontou imediatamente.
“Ele riu.”
“Não.”
“Riu sim.”
“Você imaginou.”
“Eu sou testemunha.”
“Você não sabe nem multiplicar.”
“Mas sei reconhecer uma risada.”
A manhã começou bem.
Clientes apareceram.
Os brigadeiros venderam.
As crianças correram pela praça.
Por algumas horas, Mariana quase conseguiu esquecer Nando Cobra.
Quase.
Porque perto das dez horas...
Ele apareceu.
A conversa da praça morreu instantaneamente.
Não completamente.
Mas o suficiente.
As pessoas continuaram trabalhando.
Continuaram andando.
Continuaram falando.
Mas agora observavam.
De longe.
Em silêncio.
Nando caminhava devagar.
Como alguém que gostava de ser notado.
Dois homens vinham atrás dele.
Nenhum deles sorria.
Mariana sentiu o estômago apertar.
Pedrinho parou de brincar.
Até Dona Célia fingiu reorganizar os bolos apenas para poder escutar melhor.
Nando parou diante da barraca.
Olhou para os brigadeiros.
Depois para Mariana.
“Bom dia.”
Mariana não respondeu.
“Que educação.”
“Você quer o quê?”
O sorriso dele aumentou.
“Hoje eu vim resolver as coisas de forma tranquila.”
“Ótimo.”
“Então vamos começar.”
Ele apontou para a barraca.
“Essa barraca tem autorização?”
Mariana franziu a testa.
“Autorização?”
“Isso.”
“Autorização de quem?”
“Minha.”
Alguns vizinhos trocaram olhares.
Leonardo continuou em silêncio.
Observando.
“Eu vendo aqui há três anos.”
Mariana cruzou os braços.
“Nunca precisei da sua autorização.”
“Agora precisa.”
“Por quê?”
“Porque eu estou dizendo.”
Pedrinho revirou os olhos.
Tão forte que quase parecia uma convulsão.
Nando continuou.
“Talvez eu precise fechar essa barraca.”
“Talvez eu precise impedir suas vendas.”
“Talvez eu precise avisar os clientes que este lugar não é seguro.”
Algumas pessoas começaram a se afastar.
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Exatamente como ele queria.
Criar medo.
Criar insegurança.
Criar prejuízo.
Mariana sentiu a raiva crescer.
Mas também sentiu medo.
Porque sabia que ele podia cumprir as ameaças.
Foi então que Leonardo finalmente falou.
“Uma pergunta.”
Nando virou a cabeça.
“Você?”
“Sim.”
“Fala.”
“Você disse que essa barraca precisa da sua autorização.”
“Precisa.”
“Interessante.”
“Por quê?”
Leonardo inclinou a cabeça.
“Porque eu sou novo aqui.”
“E estou tentando entender.”
“Você trabalha para a prefeitura?”
Alguns vizinhos começaram a prestar mais atenção.
Nando franziu a testa.
“Não.”
“Então você é fiscal?”
“Não.”
“Polícia?”
“Também não.”
“Bombeiro?”
“Claro que não.”
Pedrinho começou a sorrir.
Porque finalmente entendeu onde Leonardo queria chegar.
“Então deixa eu ver se entendi.”
Leonardo continuou.
“A barraca não precisa da prefeitura.”
“Não precisa da polícia.”
“Não precisa de um fiscal.”
“Mas precisa da sua autorização.”
“É isso?”
Uma risada escapou de algum lugar da praça.
Nando lançou um olhar irritado na direção do som.
“Você está brincando comigo?”
“Não.”
Leonardo respondeu calmamente.
“Estou tentando aprender.”
Mais pessoas começaram a parar.
Agora ninguém fingia desinteresse.
A comunidade inteira adorava uma boa fofoca.
E Leonardo tinha acabado de transformar a cobrança de proteção em um espetáculo público.
“Você está fazendo muitas perguntas.”
Nando respondeu.
“E você está dando poucas respostas.”
Leonardo devolveu.
Outra risada surgiu.
Desta vez mais alta.
Pedrinho precisou esconder o rosto.
“Tem recibo?”
Leonardo perguntou.
A praça inteira ficou em silêncio.
“Recibo?”
Nando repetiu.
“Claro.”
Leonardo deu de ombros.
“Se eu pago uma taxa.”
“Normalmente recebo um comprovante.”
“Ou estou errado?”
Agora até Dona Célia ria.
“Boa pergunta.”
Ela comentou.
“Eu também quero saber.”
“Eu também.”
Disse o dono da banca de frutas.
“E eu.”
Falou outro comerciante.
De repente...
Nando não estava discutindo com Mariana.
Estava discutindo com metade da comunidade.
“Vocês estão me tirando de idiota?”
Ele rosnou.
“Não.”
Leonardo respondeu.
“Estamos tentando entender como funciona o negócio.”
“Talvez você possa explicar.”
A praça explodiu em gargalhadas.
Pela primeira vez desde que apareceu.
Nando parecia desconfortável.
De verdade.
Porque não havia violência.
Não havia agressão.
Não havia ameaça.
Mas havia algo muito pior.
Vergonha.
Todos estavam olhando.
Todos estavam ouvindo.
Todos estavam percebendo como aquelas cobranças absurdas soavam ridículas quando alguém fazia as perguntas certas.
Nando percebeu que estava perdendo.
E percebeu rápido.
“Isso não acabou.”
Ele rosnou.
Pedrinho respondeu antes que alguém pudesse impedir.
“Já ouvi essa frase ontem.”
A praça inteira caiu na risada.
Até Mariana.
Até Leonardo.
Nando ficou vermelho.
Olhou para Pedrinho.
Depois para Leonardo.
Depois para Mariana.
Por um instante.
Pareceu que faria alguma coisa.
Mas não fez.
Porque havia gente demais observando.
Porque qualquer erro agora seria comentado em toda Paraisópolis antes do almoço.
Ele virou as costas.
E foi embora.
Os dois homens seguiram atrás dele.
O silêncio durou apenas dois segundos.
Então a praça explodiu.
“Finalmente alguém enfrentou esse cara.”
“Já estava na hora.”
“Boa pergunta aquela do recibo.”
“Eu quase morri de rir.”
Pedrinho parecia ter ganhado na loteria.
“Eu sabia!”
“Eu sabia que o Leonardo era diferente!”
“Você não sabia de nada.”
Mariana respondeu.
“Sabia sim.”
“Quando?”
“Desde ontem.”
“Mentira.”
“Talvez.”
A comunidade continuou rindo.
Mariana virou-se para Leonardo.
Ele já voltava a organizar as bandejas.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se não tivesse acabado de salvar o faturamento do dia.
“Você fez aquilo de propósito.”
Ela disse.
“Fiz.”
“Você sabia que ele perderia a cabeça.”
“Eu sabia que ele não suportaria ser questionado.”
Mariana ficou observando o rosto dele.
Calmo.
Seguro.
Inteligente.
Cada dia revelava uma nova peça daquele quebra-cabeça.
Quem era aquele homem?
Como alguém que apareceu inconsciente perto do lixo conseguia pensar daquela forma?
Por que parecia sempre enxergar dois passos à frente de todo mundo?
Ao longe.
Pedrinho continuava contando a história para qualquer pessoa que passasse.
Já exagerando os fatos.
Obviamente.
Enquanto isso...
Do outro lado da comunidade.
Nando Cobra observava a praça de longe.
Os olhos cheios de ódio.
“Leonardo...”
Ele murmurou.
E naquele instante.
Mariana ainda não sabia.
Mas acabara de nascer uma guerra que nenhum dos dois estava preparado para enfrentar.
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