"Ela Comprou um Mendigo... e Ele Era Bilionário" Capítulo 5 — O Pior Ajudante de Paraisópolis
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A manhã em Paraisópolis começou barulhenta, como quase todas.
Do lado de fora da casa de Dona Lourdes, uma moto subia a viela fazendo mais barulho do que força. Uma vizinha gritava para o filho colocar chinelo antes de sair correndo. Alguém, mais abaixo, vendia pão francês em sacola plástica, anunciando como se estivesse cantando.
O cheiro de café coado, óleo quente e roupa úmida no varal misturava-se ao ar quente que subia do chão ainda marcado pela chuva dos últimos dias.
O desconhecido estava sentado perto da porta, observando tudo em silêncio.
Mariana fingia que não percebia.
Mas percebia.
Ele olhava para a rua como se tentasse entender um idioma novo. As casas coladas umas às outras, os fios pendurados, as crianças passando descalças, os vendedores improvisando preço, os vizinhos sabendo da vida uns dos outros antes mesmo do almoço.
Para Mariana, aquilo era rotina. Para ele, parecia um mapa sem legenda.
Ele estava melhor.
Ainda pálido.
Ainda machucado.
Mas de pé.
E isso, na cabeça de Mariana, significava uma coisa muito simples.
Se conseguia ficar de pé, conseguia trabalhar.
Ela apareceu segurando duas bandejas de brigadeiro e colocou uma delas nas mãos dele.
“Segura.”
Ele olhou para a bandeja.
Depois para ela.
“Por quê?”
“Porque você tem duas mãos.”
“Eu ainda estou me recuperando.”
“E eu ainda estou pagando a dívida emocional de ter gastado quinhentos reais em você. Anda.”
Ele ficou parado por um instante, como se esperasse que ela estivesse brincando.
Não estava.
Mariana já caminhava em direção à barraca.
Pedrinho apareceu correndo logo atrás, com uma camisa larga demais para o próprio corpo e o cabelo todo amassado.
“Ele vai trabalhar?”
“Vai.”
Pedrinho abriu um sorriso enorme.
“Hoje vai ser bom.”
O desconhecido olhou para ele.
“Por que você fala isso como se fosse uma ameaça?”
“Porque é.”
Mariana quase riu, mas segurou. Ainda era cedo demais para dar esse gosto a Pedrinho.
A barraca de doces ficava numa esquina movimentada da comunidade, perto de uma vendinha, de uma banca de frutas e de uma parede pintada com propaganda antiga de vereador que ninguém mais lembrava. Não era grande. Não era bonita como Mariana sonhava. Mas era limpa, colorida e organizada do jeito dela. As bandejas ficavam alinhadas. Os potinhos tinham etiqueta. O pano da mesa, apesar de velho, era passado com cuidado.
O desconhecido olhou ao redor.
“Você monta isso todo dia?”
“Todo dia.”
“Sozinha?”
“Quase.”
Pedrinho levantou a mão.
“Eu ajudo.”
Mariana olhou para ele.
“Você come.”
“Eu faço controle de qualidade.”
“Você rouba brigadeiro.”
“Controle de qualidade com fome.”
O homem soltou um quase sorriso.
Mariana percebeu.
E resolveu ignorar.
Ela colocou a bandeja no balcão e cruzou os braços.
“Antes de qualquer coisa, tem uma questão.”
Ele ficou sério.
“Qual?”
“Você tem nome?”
Ele piscou.
Pedrinho parou de mexer numa caixa.
Até a dona Célia, que passava com uma sacola de pão, diminuiu o passo para ouvir.
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O homem demorou um pouco para responder.
Foi pouco.
Mas Mariana notou.
Ele sempre demorava quando a resposta podia revelar alguma coisa.
“Leonardo.”
Pedrinho arregalou os olhos.
“Leonardo?”
“Sim.”
“Nome de galã de novela.”
Dona Célia concordou sem nenhum constrangimento.
“E rosto também.”
Mariana apontou para a bandeja.
“Galã de novela ou não, aqui vai trabalhar.”
Leonardo olhou para ela.
“Só Leonardo?”
Mariana repetiu, desconfiada.
Ele sustentou o olhar dela por um segundo.
“Só Leonardo.”
Ela entendeu que não ganharia mais nada naquele momento.
“Tá bom, Só Leonardo. Primeira tarefa: enrolar brigadeiro.”
Pedrinho gargalhou antes mesmo de qualquer coisa acontecer.
Leonardo olhou para a panela, depois para a massa de chocolate, depois para as próprias mãos.
“Isso parece simples.”
Mariana soltou uma risada curta.
“Todo mundo diz isso antes da humilhação.”
Ela pegou um pouco de manteiga, passou nas mãos dele e colocou uma porção de brigadeiro na palma.
“Faz uma bolinha.”
Leonardo começou com confiança.
Confiança demais.
A massa grudou nos dedos.
Ele tentou girar.
Grudou mais.
Tentou soltar.
Piorou.
Em menos de dez segundos, a mão dele parecia ter sido atacada por uma panela de chocolate.
Pedrinho encostou o queixo no balcão.
“Parece barro.”
“Não parece barro”, Leonardo respondeu, concentrado.
“Parece barro doce.”
Dona Célia, que ainda não tinha ido embora, apontou com a sacola.
“Menino, com essa mão você não arruma nem casamento.”
Mariana virou o rosto para esconder o riso.
Leonardo percebeu.
“Você está rindo.”
“Não estou.”
“Está.”
“Estou avaliando meu prejuízo.”
Ele tentou formar a bolinha de novo. Dessa vez saiu alguma coisa redonda, mas achatada de um lado, torta do outro e com granulado grudado em apenas metade.
Pedrinho pegou, examinou como se fosse especialista.
“Esse aqui nasceu sofrendo.”
Leonardo fechou os olhos por um segundo.
“Eu não acredito que estou sendo julgado por uma criança.”
“Uma criança com experiência em brigadeiro.”
Mariana tirou o doce da mão de Pedrinho.
“Chega. Próxima tarefa. Atendimento.”
“Isso eu consigo fazer.”
Ela olhou para ele de cima a baixo.
“Essa frase vai envelhecer mal.”
O primeiro cliente chegou logo depois.
Um homem com camisa de time, chinelo gasto e cara de quem já tinha discutido com três pessoas antes das nove da manhã.
“Bom dia, Mari. Me vê quatro brigadeiros e dois beijinhos.”
Mariana apontou para Leonardo.
“Ele vai atender.”
O cliente olhou para Leonardo.
Depois olhou para Mariana.
“Ele sabe?”
“Vai descobrir.”
Leonardo respirou fundo, pegou um saquinho e começou a colocar os doces. Dois brigadeiros. Um beijinho. Outro brigadeiro. Mais um beijinho. Depois parou, olhando para a bandeja como se tivesse perdido a conta da própria vida.
O cliente inclinou a cabeça.
“Você tá rezando pro doce?”
“Estou contando.”
“Tá difícil?”
Mariana mordeu o canto da boca.
Pedrinho já tremia de vontade de rir.
Leonardo terminou o pacote e entregou com dignidade.
Pelo menos tentou.
O saquinho abriu por baixo.
Dois brigadeiros caíram no balcão.
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Um beijinho rolou para o chão.
Pedrinho gritou como se narrasse final de campeonato.
“CAIU!”
Dona Célia voltou do nada.
“Eu sabia que ia dar ruim.”
Mariana pegou outro saquinho, respirando fundo.
“Leonardo.”
“Foi o saco.”
“Claro. O saco se revoltou contra você.”
O cliente riu.
“Deixa ele treinar, Mari. Bonito assim, algum defeito tinha que ter.”
Leonardo olhou para Mariana.
“Ele disse isso como elogio?”
“Na favela, às vezes elogio vem com tapa.”
A próxima tragédia veio no troco.
Uma senhora comprou doces para os netos e pagou com uma nota de cinquenta. A conta dava dezessete.
Leonardo pegou o dinheiro.
Olhou para a caixa.
Olhou para as moedas.
Olhou para Mariana.
Ela cruzou os braços.
“Não olha pra mim.”
“Eu não olhei.”
“Olhou.”
A senhora esperou três segundos.
Depois cinco.
Depois dez.
“Filho, você tá me dando troco ou escrevendo tese?”
Pedrinho caiu sentado de tanto rir.
Leonardo tentou manter a calma.
“Trinta e três.”
“Isso.”
A senhora sorriu.
“Agora me dá.”
Ele entregou duas notas de dez, uma de cinco, algumas moedas e, sem perceber, um brigadeiro junto.
A senhora olhou para o doce na mão.
“Esse é juros?”
Mariana arrancou o brigadeiro de volta.
“Não, dona Neide. Esse é desespero.”
Danda apareceu exatamente nesse momento, como se tivesse sentido o cheiro da fofoca antes do cheiro do chocolate.
Parou diante da barraca.
Olhou para Mariana.
Olhou para Leonardo.
Olhou para a caixa de dinheiro.
Olhou para Pedrinho no chão.
“O que eu perdi?”
Pedrinho levantou a mão.
“Tudo.”
Danda apoiou as mãos na cintura.
“Finalmente descubro o nome do homem?”
Mariana respondeu antes dele.
“Leonardo.”
Danda abriu um sorriso lento.
“Leonardo.”
“Só Leonardo”, Mariana completou.
Danda entendeu o tom.
Entendeu que havia mistério.
E, como boa amiga, decidiu não perguntar ali.
Ainda.
“Nome bonito.”
Leonardo agradeceu com um aceno.
Danda pegou um brigadeiro torto da bandeja.
“Esse foi ele?”
Pedrinho respondeu:
“Foi.”
Danda mordeu o doce.
Fez uma pausa dramática.
“Feio, mas comestível.”
Leonardo respirou como se aquilo fosse a primeira avaliação positiva do dia.
Mariana percebeu.
O jeito como ele tentou disfarçar o alívio.
O jeito como seu orgulho estava machucado por coisas pequenas.
Aquilo a divertia.
Mas também a tocava um pouco.
Porque ele parecia um homem acostumado a saber tudo.
E ali, naquela barraca simples, não sabia quase nada.
Não sabia enrolar doce.
Não sabia atender cliente.
Não sabia dar troco sem parecer que enfrentava uma prova.
Não sabia lidar com as piadas das vizinhas.
Não sabia onde colocar as mãos.
E, ainda assim, estava tentando.
Mariana aproximou-se dele quando o movimento diminuiu.
“Ei.”
Leonardo olhou para ela.
“Você é ruim.”
“Obrigado.”
“Muito ruim.”
“Está ajudando bastante.”
“Mas ninguém nasce sabendo.”
Ele ficou em silêncio.
A frase pareceu acertá-lo de um jeito estranho.
Mariana pegou uma massa de brigadeiro e colocou na própria mão.
“Eu também errei muito no começo.”
“Você?”
“Eu. Uma vez coloquei sal no lugar de açúcar.”
Pedrinho apareceu entre os dois.
“Foi horrível.”
Mariana apontou para ele.
“Você comeu três.”
“Eu era pequeno. Não tinha critério.”
Danda riu.
Leonardo tentou segurar o sorriso.
Não conseguiu muito.
“Então você também já foi ruim.”
“Claro.”
Mariana enrolou uma bolinha perfeita e colocou na bandeja.
“A diferença é que eu não tinha cara de quem achava que podia mandar no mundo inteiro.”
Leonardo levantou uma sobrancelha.
“Eu tenho essa cara?”
Danda respondeu de longe.
“Tem.”
Dona Neide, ainda na calçada, completou:
“Muita.”
Pedrinho levantou a mão.
“Demais.”
Quando a risada finalmente diminuiu, Mariana limpou uma lágrima do canto do olho.
E, pela primeira vez desde que o encontrou caído na chuva, Mariana teve a sensação perigosa de que aquele homem talvez não fosse apenas um problema.
Talvez fosse também o começo de alguma coisa que ela ainda não sabia nomear.
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