"O BEBÊ SECRETO DA SALA 307" Capítulo 10
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A sensação de vazio dentro de Camila só aumentava.
Desde a conversa com Rafael no dia anterior, alguma coisa tinha mudado definitivamente.
Ela já não chorava o tempo todo.
Já não tentava explicar.
Já não corria atrás de ninguém.
E isso era assustador.
Porque até a dor parecia cansada.
Naquela tarde, a maternidade estava estranhamente silenciosa.
Renata tinha saído para investigar novos detalhes sobre o exame desaparecido.
Rafael não aparecia desde cedo.
E Camila permaneceu sozinha na Sala 307.
Observando a televisão desligada.
Observando a chuva.
Observando o próprio reflexo na janela.
O bebê mexeu-se.
Ela acariciou a barriga.
“Só mais um pouco.”
A voz saiu baixa.
“Só mais um pouco e tudo isso acaba.”
Naquele momento, sentiu sede.
Levantou-se lentamente.
Os médicos ainda recomendavam repouso.
Mas ela precisava caminhar.
Precisava respirar.
Precisava sair daquele quarto por alguns minutos.
O corredor estava quase vazio.
Algumas enfermeiras passavam apressadas.
Pacientes conversavam em voz baixa.
Nada parecia diferente.
Até que Camila ouviu uma voz conhecida.
Helena.
Instintivamente, ela parou.
A voz vinha de uma pequena sala de reuniões próxima ao final do corredor.
A porta estava entreaberta.
Camila não pretendia escutar.
Mas então ouviu seu nome.
E congelou.
“Isso não pode continuar.”
Era Helena.
A voz firme.
Autoritária.
A mesma voz que a condenava desde o primeiro dia.
“Quanto mais esperamos, pior fica.”
Camila aproximou-se devagar.
Sem fazer barulho.
O coração começou a acelerar.
“Eu concordo.”
Bianca.
Camila fechou os olhos.
Sentindo o estômago afundar.
“Rafael está adiando uma decisão que deveria ter tomado há muito tempo.”
“Ele ainda está confuso.”
Era Augusto.
A voz mais calma do grupo.
“Confuso?” respondeu Helena imediatamente.
“O exame apareceu.”
“Depois desapareceu.”
“Isso não muda nada.”
Silêncio.
Camila aproximou-se mais.
Agora conseguia ouvir tudo.
Cada palavra.
Cada respiração.
Cada golpe.
“Camila destruiu esta família.”
O coração dela apertou.
“Helena...”
Augusto parecia desconfortável.
“Talvez estejamos indo longe demais.”
“Não.”
A resposta veio rápida.
Fria.
“Estamos protegendo Rafael.”
“Protegendo de quê?”
“De uma mulher que mentiu para ele.”
Camila sentiu os olhos encherem de lágrimas.
Mas continuou ouvindo.
Porque precisava saber.
Precisava entender.
“Ela está grávida.”
Augusto tentou novamente.
“Ela também é vítima nessa situação.”
“Vítima?”
Bianca soltou uma risada.
“Ela é a causa da situação.”
Camila fechou os punhos.
Com força.
Tanta força que as unhas machucaram a própria pele.
Mas continuou parada.
Escutando.
Sofrendo.
“Precisamos convencer Rafael a pedir o divórcio.”
O mundo parou.
Por alguns segundos.
Camila achou que tinha ouvido errado.
Divórcio.
A palavra ecoou dentro da cabeça dela.
Repetidamente.
Divórcio.
Divórcio.
Divórcio.
“Quanto antes melhor.”
Helena continuou.
“Antes do bebê nascer.”
O ar desapareceu dos pulmões de Camila.
Antes do bebê nascer.
Ela levou uma mão à barriga imediatamente.
Como se quisesse proteger o filho.
Como se pudesse impedir aquelas palavras de alcançá-lo.
“Não podemos obrigar Rafael.”
Augusto parecia cada vez mais desconfortável.
“Mas podemos mostrar a realidade.”
“Qual realidade?”
“Que ele ainda pode recomeçar.”
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Bianca respondeu antes da sogra.
“Encontrar alguém melhor.”
Camila sentiu as pernas fraquejarem.
Precisou apoiar-se na parede.
O corredor começou a girar.
“E se o bebê for dele?”
Augusto insistiu.
Helena soltou um suspiro irritado.
“Então por que o exame deu negativo?”
Ninguém respondeu.
“Exatamente.”
Silêncio.
Depois Bianca voltou a falar.
“Se esperarmos demais, ele vai acabar criando apego à criança.”
Camila sentiu um choque percorrer o corpo.
A criança.
Nem sequer chamavam o bebê pelo nome.
Nem sequer chamavam de filho.
Era apenas uma criança.
Um problema.
Um obstáculo.
Algo que precisava desaparecer.
“Quanto mais rápido Camila sair da vida dele, melhor.”
O coração dela se partiu.
Completamente.
Porque agora entendia.
Entendia tudo.
Não era apenas sobre o exame.
Não era apenas sobre dúvidas.
Eles nunca tinham gostado dela.
Nunca.
E agora estavam usando aquela situação para expulsá-la definitivamente.
“Precisamos fazer Rafael enxergar.”
Helena continuou.
“Ele ainda está emocionalmente envolvido.”
“Por quanto tempo?”
Bianca perguntou.
“Não muito.”
Helena respondeu.
“Homens superam rápido quando percebem que foram enganados.”
Camila sentiu uma lágrima escorrer.
Depois outra.
Depois outra.
Mas não entrou na sala.
Não gritou.
Não discutiu.
Porque alguma coisa dentro dela estava quebrando.
Silenciosamente.
Definitivamente.
“Eu vou falar com ele novamente hoje.”
Helena levantou-se.
“Essa situação precisa acabar antes do nascimento.”
O nascimento.
Tudo girava em torno disso.
Como se o bebê fosse uma ameaça.
Como se o filho dela fosse um erro.
Camila deu um passo para trás.
Depois outro.
Precisava sair dali.
Precisava respirar.
Precisava fugir.
Antes que alguém abrisse aquela porta.
Antes que alguém descobrisse que ela tinha ouvido tudo.
As lágrimas já escorriam livremente.
Ela virou-se.
E começou a caminhar.
Rápido.
Cada vez mais rápido.
Até transformar a caminhada numa fuga.
Os corredores passavam borrados diante dos seus olhos.
Enfermeiras chamavam seu nome.
Mas ela não ouvia.
Ou talvez não quisesse ouvir.
Tudo que conseguia escutar eram as palavras de Helena.
Divórcio.
Antes do bebê nascer.
Expulsá-la.
Recomeçar.
Encontrar alguém melhor.
Cada frase era uma facada.
Cada lembrança era uma ferida.
O bebê mexeu-se.
Fortemente.
Camila segurou a barriga.
“Desculpa.”
A voz saiu entre lágrimas.
“Desculpa.”
Ela não sabia para quem estava pedindo desculpas.
Para o filho.
Para si mesma.
Ou para o amor que estava morrendo.
Ao virar um corredor, esbarrou em alguém.
Rafael.
Os dois ficaram imóveis.
Por um segundo.
Apenas um segundo.
Mas foi suficiente.
Porque Rafael viu.
Viu o rosto molhado.
Viu os olhos vermelhos.
Viu o desespero.
“Camila?”
Ela não respondeu.
Tentou passar por ele.
Mas Rafael segurou seu braço.
“Camila, o que aconteceu?”
Silêncio.
“Quem fez você chorar?”
A pergunta quase a fez rir.
Porque a resposta era simples.
Todos.
Sua mãe.
Sua irmã.
Sua família.
Você.
Mas nenhuma palavra saiu.
“Olha para mim.”
Camila ergueu lentamente os olhos.
E Rafael sentiu um aperto estranho no peito.
Porque nunca tinha visto aquele olhar antes.
Era um olhar vazio.
Cansado.
Derrotado.
“Camila...”
“Me solta.”
A voz saiu baixa.
Mas firme.
“Por favor.”
Rafael soltou imediatamente.
Confuso.
Preocupado.
Assustado.
Mas Camila já estava indo embora.
Cada passo aumentando a distância entre eles.
Cada lágrima afastando-os ainda mais.
E Rafael ficou parado no corredor.
Observando.
Sem saber que, naquele exato momento, Camila tinha descoberto a conspiração da família inteira contra ela.
Sem saber que algo dentro dela acabava de morrer.
E sem imaginar que talvez já fosse tarde demais para consertar tudo.
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