"O BEBÊ SECRETO DA SALA 307" Capítulo 5
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A descoberta de que o exame tinha desaparecido do sistema transformou o hospital num lugar ainda mais sufocante para Camila.
Na manhã seguinte, ela permanecia sozinha na Sala 307, observando a chuva cair do lado de fora da janela.
O bebê mexeu-se lentamente.
Camila passou a mão sobre a barriga.
Pela primeira vez desde o início daquele pesadelo, sentiu medo do futuro.
Não do exame.
Não de Rafael.
Mas do que aconteceria se todos continuassem acreditando que ela era culpada.
Do outro lado do corredor, Helena falava com Rafael.
Eles não perceberam que a porta estava entreaberta.
Nem que Camila conseguia ouvir parte da conversa.
“Você ainda está pensando?”
A voz de Helena estava carregada de impaciência.
“Pensando em quê?” respondeu Rafael.
“Em abandoná-la.”
O coração de Camila parou por um segundo.
Ela permaneceu imóvel.
Sem respirar.
Sem piscar.
“Você ouviu o que eu disse ontem,” continuou Helena. “Quanto mais tempo você ficar ao lado dela, mais difícil será sair dessa situação.”
Rafael não respondeu.
Helena soltou um suspiro irritado.
“Ainda está defendendo essa mulher?”
“Eu não estou defendendo ninguém.”
“Então tome uma decisão.”
Silêncio.
Camila apertou os lençóis.
As mãos começaram a tremer.
“Ela pode estar mentindo para você.”
“Eu sei.”
“Pode?”
Helena soltou uma risada amarga.
“O exame diz que o bebê não é seu.”
“Renata encontrou uma inconsistência.”
“Uma inconsistência não muda um resultado.”
Camila fechou os olhos.
As lágrimas começaram a surgir novamente.
Ela não queria ouvir aquilo.
Mas não conseguia parar.
“Você merece coisa melhor,” continuou Helena.
“Não é tão simples.”
“É exatamente simples.”
Helena aproximou-se de Rafael.
“Ainda dá tempo de sair antes desse bebê nascer.”
O mundo de Camila desabou.
Antes desse bebê nascer.
Ela levou a mão à barriga imediatamente.
Como se tentasse proteger o filho daquela conversa.
“Você não pode estar falando sério.”
A voz de Rafael parecia cansada.
Confusa.
Ferida.
“Estou falando muito sério.”
“Camila é minha esposa.”
“Por enquanto.”
Camila sentiu o estômago embrulhar.
Aquelas palavras foram mais dolorosas do que qualquer acusação.
Porque Helena não falava como alguém tentando ajudar.
Falava como alguém esperando o momento certo para destruir tudo.
“Ela destruiu sua confiança.”
“Eu ainda não sei o que aconteceu.”
“Então descubra longe dela.”
Silêncio.
Camila esperou.
Desesperadamente.
Esperou Rafael defender o casamento.
Esperou Rafael defendê-la.
Esperou ouvir alguma coisa.
Qualquer coisa.
Mas nada veio.
Nada.
Apenas silêncio.
E aquele silêncio foi pior do que qualquer resposta.
Lentamente, as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela.
Do outro lado da porta, Helena continuava.
“Você está pensando no bebê.”
“Claro que estou.”
“E se esse bebê não for seu?”
Rafael continuou calado.
“Vai passar os próximos vinte anos criando o filho de outro homem?”
Camila sentiu uma pontada no peito.
Ela nunca tinha se sentido tão humilhada.
Nem quando Rafael entrou gritando na Sala 307.
Nem quando Bianca a chamou de mentirosa.
Nem quando toda a família a julgou.
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Porque agora ela estava ouvindo algo pior.
Estava ouvindo que já tinham decidido o seu destino.
Sem provas.
Sem respostas.
Sem verdade.
“Você merece recomeçar.”
A voz de Helena ficou mais suave.
Mais manipuladora.
“Encontrar alguém melhor.”
“Para.”
“Estou tentando te proteger.”
“Eu disse para.”
Pela primeira vez, Rafael elevou a voz.
Helena ficou em silêncio.
Camila também.
“O que você quer que eu faça?” perguntou Rafael.
“Divórcio.”
A palavra ecoou pelo corredor.
Camila sentiu o corpo inteiro gelar.
Divórcio.
Era isso.
Helena já tinha decidido.
Bianca provavelmente também.
E talvez Augusto.
Talvez todos.
Talvez ela fosse a única que ainda acreditava que aquele casamento podia ser salvo.
“Não vou tomar nenhuma decisão agora.”
A resposta de Rafael veio depois de vários segundos.
Mas não trouxe alívio.
Porque também não trouxe esperança.
“Então quando?”
“Quando eu souber a verdade.”
“Você já sabe.”
“Não.”
Helena suspirou novamente.
“Você está sendo ingênuo.”
“Ou talvez você esteja sendo injusta.”
A frase surpreendeu Camila.
Também surpreendeu Helena.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Pesado.
Incômodo.
“Está defendendo ela?”
“Estou dizendo que ainda não sabemos tudo.”
“Eu sei o suficiente.”
“Eu não.”
Silêncio novamente.
Camila segurou a respiração.
Pela primeira vez em dias, ouviu algo que não era uma acusação.
Mas ainda não era defesa.
Ainda não.
Ainda estava longe disso.
Helena recuou alguns passos.
“Você está cometendo um erro.”
“Talvez.”
“Vai se arrepender.”
“Talvez.”
“E quando descobrir que eu estava certa?”
Rafael demorou a responder.
Muito.
“Então eu vou lidar com isso quando chegar a hora.”
Helena balançou a cabeça.
“Você sempre foi teimoso.”
“E você sempre julgou rápido demais.”
Outro silêncio.
Depois passos.
Helena estava indo embora.
Camila fechou os olhos rapidamente.
Não queria ser vista escutando.
Segundos depois, ouviu a porta do corredor bater.
Então tudo ficou quieto.
Quieto demais.
Camila abriu os olhos lentamente.
E começou a chorar.
Não um choro alto.
Não desesperado.
Mas um choro silencioso.
Daqueles que machucam mais.
Porque não existe força para gritar.
Ela olhou para a barriga.
“Talvez sejamos só nós dois.”
A voz saiu baixa.
Quebrada.
O bebê mexeu-se novamente.
Camila sorriu entre lágrimas.
Um sorriso triste.
Doloroso.
“Talvez eu tenha que criar você sozinha.”
As palavras doeram.
Muito.
Porque até poucos dias antes ela imaginava Rafael segurando o bebê pela primeira vez.
Imaginava os dois escolhendo nomes.
Imaginava aniversários.
Fotos.
Viagens.
Uma família.
Agora tudo parecia distante.
Como um sonho que alguém tinha roubado.
Ela encostou a cabeça no travesseiro.
As lágrimas continuavam escorrendo.
“Eu não sei o que vai acontecer.”
A mão acariciou a barriga lentamente.
“Mas eu prometo uma coisa.”
O bebê mexeu-se.
Como se estivesse ouvindo.
“Eu nunca vou abandonar você.”
Camila fechou os olhos.
E chorou em silêncio.
Do lado de fora do quarto, Rafael permaneceu parado no corredor.
Sozinho.
Olhando para a porta da Sala 307.
Sem entrar.
Sem ir embora.
Sem perceber que, naquele exato momento, Camila começava a aceitar uma possibilidade que nunca tinha imaginado.
A possibilidade de seguir em frente sem ele.
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