"Instinto Feroz: Marcado pelo Alfa Rei" Capítulo 1
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Capítulo 1: O Retorno do Rei
A tempestade desabava sobre São Paulo. A água batia contra as janelas do terceiro ano do Instituto Santa Cruz, criando uma cortina cinzenta e barulhenta.
Luzes fluorescentes iluminavam as fileiras de carteiras. Ali, um grupo de alunos se amontoava em torno de uma única folha de respostas, as canetas correndo pelo papel.
— Lico, a sua letra é horrorosa... Quem vai entender isso antes do professor entrar?
Um garoto cochichou na última fileira, os olhos arregalados. Lico nem levantou a cabeça, os dedos manchados de tinta preenchendo a folha de física.
— Copia se quiser, cara. Ninguém te mandou deixar tudo para o último segundo.
Na fileira ao lado, perto da janela, o barulho batia contra uma barreira de puro desleixo. Debruçado sobre a mesa de madeira escura, Dante Valente mantinha o rosto escondido entre os braços cruzados.
Os dedos longos de Dante, apoiados na nuca, se contraíram quando o barulho subiu de tom. Ele coçou o cabelo preto bagunçado, endireitou o corpo devagar e jogou o peso para trás.
A cadeira de ferro balançou sobre as duas pernas traseiras. Dante esticou as pernas longas sob a mesa, deixando os braços penderem ao lado do corpo atlético.
Os olhos escuros de Dante se abriram a meio-mastro, as pálpebras pesadas de sono projetando uma sombra sutil sobre a pele muito clara. Ele sustentava um sorriso insolente no canto dos lábios, o queixo erguido.
Lico virou-se imediatamente na cadeira, medindo a expressão do amigo.
— Acordou, chefe? A gente fez muito barulho?
— Hum... Dá para o gasto.
A voz de Dante saiu grave, rouca, arrastada por uma preguiça que parecia ditar o ritmo do espaço. Lico soltou o ar dos pulmões, limpando a testa com as costas da mão.
— Mas o Branco vai recolher os relatórios de matemática agora... Você não vai mesmo abrir a mochila para terminar a lição de férias?
Dante ergueu o olhar devagar, arqueando uma sobrancelha.
— Eu tenho cara de quem gasta as férias com isso, Lico?
A frase ecoou pela sala de aula como um estalo. Num instante, as canetas pararam de correr. Várias cabeças se ergueram simultaneamente, encarando a última fileira com os olhos fixos.
— Obrigado, Dante, por nos abençoar com o seu desleixo!
Um garoto gritou do meio da sala, juntando as mãos. Outro completou logo em seguida, rindo alto:
— Ver você peitar a escola logo de manhã salva o meu dia.
— Mais um dia sendo marmita desse homem...
Luan, um Ômega algumas fileiras à frente, virou-se para trás, jogando o cabelo com um olhar dramático. Dante esticou a mão, puxando o celular de dentro da carteira.
— Eu avisei o Branco antes do recesso — Dante soltou o aparelho na mesa, cruzando os braços. — Aquelas folhas de férias estavam fáceis... Usei o tempo para resolver problemas de olimpíadas internacionais.
A sala inteira travou os movimentos.
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O Instituto Santa Cruz cobrava caro para manter a reputação de elite, entupindo os alunos com cento e vinte folhas do nível mais cruel dos vestibulares passados. Dante dizia que não tinha feito o dever pelo simples fato de ser fácil.
Os alunos se entreolharam, os maxilares travados de frustração. Alguns apertaram as canetas com força, mas ninguém deu um passo à frente.
Dante mantinha os punhos fechados sobre a mesa, os ombros largos ocupando o espaço de um vencedor.
Os garotos abaixaram as cabeças, voltando a rabiscar os cadernos em silêncio.
A porta da frente foi empurrada com força, batendo contra o batente.
Luan entrou correndo por ela após ter saído minutos antes, soltando um grito abafado que cortou o falatório:
— Gente... O ranking do simulado geral acabou de ser colado no mural do corredor! Mudou tudo no recesso! O Dante não está no topo!
Keng!
A cadeira de Dante bateu com as quatro pernas no chão, arrancando um estalo do mármore.
A vibração fez Lico encolher os ombros, o ar mudando de temperatura em volta da mesa.
Dante deu um pulo da carteira, as mãos se fechando em garras dentro dos bolsos.
— O que você falou, Luan?
— É real, chefe... Entrou um aluno novo direto na nossa turma de elite este semestre. O nome dele está no topo do mural. Um tal de Bernardo Imperial.
O sorriso desleixado sumiu do rosto de Dante. Os maxilares se travaram com tanta força que uma linha rígida se desenhou na lateral do seu rosto.
A hostilidade por Bernardo Imperial vinha de longe, cravada na memória desde os tempos de infância, quando as duas famílias ricas competiam por tudo em São Paulo.
O choque de realidade atingiu o ego de Dante como uma marretada física; o rei da escola havia sido destronado antes mesmo da primeira aula começar.
Dante marchou em direção à saída, empurrando a porta da sala com violência.
O corredor central do colégio estava lotado de alunos amontoados ao redor do grande quadro de avisos de vidro. Os sussurros apontavam diretamente para a folha de papel timbrado.
Dante abriu caminho pela multidão com passos pesados, os ombros rígidos exigindo espaço. Seus olhos escuros focaram o topo da lista impressa.
1º Lugar: Bernardo Imperial — Nota: 100
2º Lugar: Dante Valente — Nota: 99
O número noventa e nove ardeu na retina de Dante. O ódio antigo, camuflado por anos de distância, reacendeu com a força de um incêndio florestal.
Decidido a sair dali, Dante girou o corpo abruptamente para retornar à sala.
Baque.
Seu ombro esquerdo chocou-se contra o peito de alguém que vinha logo atrás. O impacto físico foi firme, forçando Dante a dar meio passo para trás para recuperar a base.
O jovem recém-chegado estava parado exatamente na sua frente. Tinha um metro e oitenta e nove de altura, os ombros largos desenhando perfeitamente a linha do uniforme do colégio.
A luz do corredor batia direto na pele muito branca do rapaz, destacando os traços finos e frios do rosto esculpido. Sobre o nariz imponente, repousava um par de óculos de armação dourada fina, as lentes escondendo parcialmente os olhos cor de âmbar.
O colarinho da camisa branca estava fechado até o último botão, cobrindo o pomo de Adão proeminente. Ele exalava uma contenção rígida, e logo abaixo do canto do olho esquerdo, uma pequena pinta escura quebrava a frieza do rosto.
Bernardo Imperial olhava para baixo, sustentando o impacto com uma calma calculista.
Antes que Dante pudesse abrir a boca para xingar, o ar entre os dois sumiu.
Uma lufada invisível e concentrada de feromônios escapou do bloqueador de Bernardo.
O cheiro denso de madeira de sândalo misturado ao frescor gélido da chuva atingiu o nariz de Dante à queima-roupa.
Dante travou, os dedos colando-se na lateral da própria calça.
Um calor estranho e completamente desconhecido explodiu na base de sua espinha, subindo em linha reta até atingir a nuca com a força de uma febre súbita.
Seus instintos de Alfa, até então adormecidos e seguros, desestabilizaram-se instantaneamente diante daquela fragrância provocadora.
Dante prendeu a respiração, o peito subindo e descendo freneticamente enquanto lutava contra o calafrio que amolecia suas pernas.
Ele fixou os olhos escuros diretamente nos olhos cor de âmbar de Bernardo, sustentando o confronto visual com pura fúria e ressentimento.
Bernardo manteve a postura impecável, os braços caídos ao lado do corpo largo.
Os cantos dos lábios do novato se moveram milimetricamente para cima.
Ele devolveu o olhar estático de Dante com um sorriso imperceptível, gélido e carregado de uma fixação oculta que apenas os dois conseguiram decifrar.
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