"O Preço da Minha Devoção" Capítulo 10
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Ele fechou os olhos, e a frase de Nancy ecoava em sua mente:
"O passado está enterrado e as contas estão quitadas."
Ela nem sequer o odiava mais.
Isso era o que mais doía.
Nos dias seguintes, Xavier tornou-se outra pessoa.
Dedicou toda a sua atenção às missões; onde havia perigo, ele ia; as missões mais difíceis eram as que ele disputava.
Em um ano, executou nove missões de alto risco, ganhando sete novas cicatrizes.
Outros sugeriam que ele descansasse, mas ele apenas sorria em silêncio e logo se inscrevia para a próxima.
Só ele sabia que não ousava parar.
Se parasse, o rosto de Nancy inundava sua mente.
Ela aos treze anos salvando-o no rio, encharcada.
Ela aos setenta e um sentada na casinha caindo aos pedaços, dizendo diante das câmeras: "Ainda sou virgem".
Ela segurando o braço de Arthur diante dele e indo embora.
Essas imagens eram como facas, cortando seu coração pedaço por pedaço.
Ele só podia correr, lutar, exaurir-se até cair de sono para não ter que pensar.
Certo dia, Xavier acabara de voltar de uma missão externa e, antes mesmo de trocar de roupa, foi chamado ao gabinete do comandante.
O comandante, sentado atrás da mesa, empurrou um envelope selado.
— Há uma nova missão no Norte, precisamos enviar alguém para infiltração. Os superiores indicaram você.
Xavier pegou o envelope e abriu; os detalhes eram simples: assumir uma identidade falsa em uma cidade do Norte para coletar informações. Na coluna do parceiro, havia um nome escrito.
Nancy.
A mão de Xavier hesitou, e seu coração falhou uma batida.
Ele encarou aquele nome por vários segundos antes de desviar o olhar.
— Desta vez, a identidade falsa será de dois irmãos. — Disse o comandante. — Lá, vocês serão uma família, vivendo juntos para facilitar o disfarce. A Tenente Nancy já está a caminho; arrume suas coisas, você parte depois de amanhã.
Xavier assentiu, fechou o envelope e saiu do gabinete.
Ao chegar no corredor, parou de repente e respirou fundo.
Irmãos.
Não marido e mulher.
Mesmo assim, ele não pôde evitar que seu coração batesse mais rápido.
Poder estar com ela, vê-la todos os dias, mesmo que apenas como irmão, já o deixava satisfeito.
Não ousava pedir mais nada; estar perto dela já bastava.
No dia da partida, Xavier fez questão de vestir roupas civis novas, barbeou-se com cuidado e cortou o cabelo.
Durante a viagem, apenas um pensamento martelava em sua cabeça:
Como ela passou esse último um ano e meio? Emagreceu? O bebê já deve estar andando, não é?
O trem sacolejou por um dia e uma noite até chegar à fronteira do Norte.
Xavier encontrou a casa conforme o endereço, parou à porta, respirou fundo e bateu.
A porta se abriu.
Quem abriu não foi Nancy, foi Arthur.
Ele usava um suéter caseiro, as mangas dobradas até os cotovelos, e segurava uma mamadeira.
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Ao ver Xavier, Arthur paralisou por um instante, mas logo deu passagem: — Entre, a Nancy está no quarto interno.
Xavier parou à porta, com o sorriso congelado.
Olhou para Arthur e depois para o interior da casa.
Nancy saiu do quarto carregando um menino de pouco mais de um ano; o pequeno era branquinho e gordinho, e mordia o próprio punho.
Ela não demonstrou surpresa ao ver Xavier.
— Você chegou? Entre, está frio lá fora.
Xavier entrou. O aquecimento da casa estava alto e tudo estava impecavelmente limpo.
O sofá tinha almofadas florais, a mesa de centro tinha frutas e lanches, e no canto havia brinquedos espalhados.
Aquilo era um lar.
Um lar completo, quente e que não tinha relação alguma com ele.
17
Nancy colocou a criança no tapete, e o pequeno imediatamente começou a engatinhar com vigor, rindo enquanto ia na direção de Arthur.
Arthur agachou-se e entregou a mamadeira; o pequeno deu algumas mordidas no bico, virou-se para Xavier e piscou seus olhinhos negros e brilhantes.
Nancy aproximou-se, com o tom calmo: — Este é o Neno. Neno, diga "tio".
Neno não sabia dizer "tio", apenas fazia bolhas de saliva.
Xavier agachou-se, observando o pequeno, e sorriu: — Ele se parece com você.
Nancy não respondeu, virando-se para servir água.
Arthur levantou-se, deixou a mamadeira de lado e olhou para Xavier.
— Você leu o plano da missão? Para o exterior, você e a Nancy são primos; você acabou de chegar da sua terra natal para se juntar a nós. Na fachada, eu toco um pequeno negócio, a Nancy fica em casa cuidando da criança e você cuida das comunicações externas.
Xavier assentiu.
— Tudo bem, então não há problemas. — Disse Arthur. — Tem um quarto vago no andar de cima, já está arrumado, você fica lá.
Xavier subiu com sua bagagem.
O quarto era pequeno, mas limpo; os lençóis e cobertas eram novos.
Ele parou à janela e olhou para baixo, vendo o quintal dos fundos.
Havia algumas verduras plantadas e um varal com roupas de bebê e meias minúsculas balançando levemente ao vento.
Xavier observou aquelas roupinhas por um longo tempo, perdido em pensamentos.
Os dias seguintes foram, para Xavier, uma tortura doce.
Durante o dia, Nancy cozinhava e Arthur ajudava, conversando e rindo, ocasionalmente encostando ombro com ombro.
Xavier sentava-se na sala lendo o jornal, com os ouvidos atentos; ao ouvir as risadas deles, sentia o coração azedar como se estivesse mergulhado em vinagre.
Ao entardecer, a família saía para caminhar; Arthur empurrava o carrinho, Nancy segurava seu braço, e o pôr do sol alongava a sombra dos três.
Xavier seguia sozinho atrás, carregando a cesta de compras, parecendo um ajudante.
À noite, quando Neno se recusava a dormir, Nancy o carregava pela sala enquanto Arthur contava histórias.
Xavier assistia àquela cena familiar, apertando o copo de chá até os dedos estalarem.
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O que mais o abalava eram as refeições, onde eles não deixavam de demonstrar afeto.
Certa noite, Nancy fez sopa de costela; serviu a primeira tigela para Arthur e a segunda para Xavier.
As costelas ficaram todas para Arthur; a tigela de Xavier estava cheia de nabos.
Nancy disse: — O Arthur tem trabalhado muito ultimamente, precisa se fortalecer.
Xavier mordeu o nabo, pensando: "Eu também trabalho muito. Que injustiça! Humph!".
Certa noite, Neno começou a chorar sem parar por algum motivo.
Nancy estava suando de preocupação e Arthur tentou acalmar o bebê por meia hora, sem sucesso.
Xavier observou por um tempo, hesitou, aproximou-se e estendeu as mãos: — Deixe-me tentar.
Arthur olhou para ele e entregou a criança.
Na vida passada, Xavier tivera três filhos com Wanessa; cuidar de bebês era algo que ele dominava.
Dito e feito, o pequeno logo se acalmou em seus braços.
Nancy riu: — Parece que ele gosta de você.
Xavier segurava Neno, olhando para o rostinho alvo; o pequeno subitamente abriu um sorriso para ele, mostrando dois dentinhos de leite.
O coração de Xavier amoleceu instantaneamente.
Outro dia, Nancy e Arthur precisaram sair para resolver assuntos e deixaram Neno aos cuidados de Xavier.
Xavier agiu como se estivesse diante de um grande inimigo: protegeu as quinas dos móveis com panos, cobriu as tomadas com fita adesiva e trocou os copos de vidro por plástico.
Neno engatinhava pelo tapete e Xavier sentava-se no chão, seguindo-o passo a passo.
Onde o pequeno ia, ele ia atrás.
Quando o pequeno se apoiava em um banquinho para levantar, ele ficava com as mãos prontas para ampará-lo.
O pequeno mordia o dedão do pé e ele observava, rindo sem perceber.
Quando Nancy e Arthur voltaram, depararam-se com esta cena:
Xavier sentado no tapete, com o cabelo bagunçado por Neno e um risco vermelho no rosto, feito talvez com giz de cera.
Neno dormia profundamente sobre suas pernas, babando em sua calça.
Nancy parou à porta, surpresa com a visão.
Arthur foi o primeiro a rir: — Xavier, se o pessoal do quartel te visse assim, ririam por um ano inteiro.
Xavier, sentado com o pequeno Neno adormecido nos braços, não disse nada.
Ele levantou o olhar para Nancy, com uma expressão pidona, como uma criança esperando aprovação.
Nancy aproximou-se, curvou-se para pegar o filho e disse suavemente: — Obrigada pelo esforço.
Bastaram aquelas três palavras para o coração de Xavier disparar.
Ele abriu a boca, mas as palavras morreram antes de sair.
Ao ver Nancy virar-se com a criança, ele levantou-se num salto e soltou de uma vez: — Nancy, eu posso ser o padrinho do Neno?
18
Nancy ficou paralisada por um instante, olhou para o Neno em seu colo e depois virou-se para Arthur.
Arthur aproximou-se e lançou um olhar para Xavier.
Xavier estava visivelmente tenso, algo raro para ele; seus dedos apertavam a costura da calça e seus olhos estavam fixos no rosto de Arthur.
Arthur permaneceu em silêncio por dois segundos antes de se voltar para Nancy: — Você decide.
Nancy olhou para o Neno adormecido em seus braços e depois para Xavier.
Ele estava parado ali, com o cabelo bagunçado, um risco vermelho no rosto e a calça manchada de baba, mas seus olhos brilhavam intensamente.
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