"Entre Lobos: A Herdeira Rejeitada" Capítulo 1
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PRÓLOGO
Tudo mudou no dia em que um exame de DNA foi entregue à porta da mansão.
Alice, que sempre foi a "Rosa de Ouro" do Rio de Janeiro, paparicada por todos, tornou-se da noite para o dia a filha da empregada. Ao perder sua identidade como herdeira e irmã biológica, a bela boneca de porcelana viu-se subitamente cercada por lobos famintos.
Sem perceber o perigo real, Alice apenas chorava, sentindo-se injustiçada: "Henrique, isso vai afetar minha viagem para o desfile em Paris no mês que vem? E minhas férias em Dubai? E a minha bolsa Kellydoll personalizada e o bolo de diamantes que eu encomendei?"
O homem, de ombros largos e braços fortes, sentado no sofá de couro, deu tapinhas suaves em suas costas com sua mão de veias marcadas. "Eu tenho uma solução."
Alice ergueu o rosto banhado em lágrimas para olhá-lo.
No entanto, o olhar de Henrique era profundo e sombrio. "Case-se comigo."
Alice admitiu que, em um momento de raiva e com um desejo de vingança, aceitou se casar com Henrique, sem levar a sério.
Mas o tempo passou, e a mídia carioca nunca conseguiu flagrar a ruína de Alice. Pelo contrário, ela continuava circulando livremente com a família Cavalcanti. O segundo irmão a levava para relaxar, o terceiro organizava festas em iates para ela.
E com aquele implacável primogênito dos Cavalcanti, ela mantinha uma intimidade suspeita. Quando a imprensa, incapaz de conter a curiosidade, perguntou sobre a relação deles, Alice explicou com sua voz doce e mimada: "Eles são apenas meus irmãos."
Tarde da noite, as lágrimas nos olhos de Alice foram fragmentadas pelo impacto do prazer.
Os dedos longos de Henrique acariciaram rudemente o canto de seus olhos avermelhados. "Apenas irmãos, é?"
"Aqueles dois fazem isso com você?"
Quando o segredo do casamento escondido veio à tona, Alice descobriu... que seus três irmãos haviam partido para a briga.
CAPÍTULO 1: Você se sentiu injustiçada?
— MEU DEUS! Vocês viram? A Alice não é filha biológica do Augusto Cavalcanti!
— Você só soube agora, fofa? Já faz um dia que o boato corre. A princesinha intocável da família Cavalcanti é uma farsa.
— Eu nunca suportei o jeito dela, sempre querendo aparecer. Agora a máscara caiu.
— Pois é. No leilão de dois dias atrás, a Alice gastou milhões para disputar aquela caixa de relíquia com a Roberta. Se ela não tiver como pagar o lance, o circo vai pegar fogo.
No balcão da cozinha, o celular que vibrava sem parar subitamente silenciou.
Alice, sentada em uma banqueta alta, observava o chat do grupo que finalmente se calou. Suas pernas bem torneadas estavam cruzadas, e a ponta do pé balançava preguiçosamente o chinelo de gatinho.
Até que surgiram as notificações:
"Mensagem apagada"
"Mensagem apagada"
...
Alice ergueu uma sobrancelha e pegou a última colherada de seu cheesecake de caramelo salgado.
Ora, finalmente lembraram que ela também estava no grupo.
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Afinal, não era exatamente um grupo de amigas verdadeiras; eram apenas algumas socialites que ela conheceu em uma festa quando voltou ao Brasil após a formatura no mês passado, e que a convidaram para o grupo visando o desfile em Paris.
Alice mal conseguia lembrar dos rostos delas e nem tinha os nomes salvos na agenda. Só lembrava que, no primeiro encontro, foram extremamente calorosas.
Em menos de dois minutos, todas as mensagens maldosas foram apagadas. A caixa de diálogo voltou ao silêncio absoluto.
Faziam exatamente vinte e quatro horas que Alice descobrira que não era filha biológica dos Cavalcanti.
Quando a notícia explodiu, ela estava feliz da vida entregando sua carta de apresentação para iniciar o processo de contratação em um museu. Somente após terminar a papelada é que ouviu colegas cochichando termos surreais como "bebês trocados", "ela não é legítima" e "falsa herdeira".
Alice, curiosa, chegou a se aproximar para ouvir a fofoca: "Ah é?", "Sério mesmo?", "Isso é de alguma novela ou série?".
O resultado foi que, ao sair, foi cercada por uma multidão de jornalistas na porta. A notícia já estava em todos os portais. Ela foi a última a saber. E soube diante de inúmeras câmeras.
Naquele dia, ela já havia esgotado quase todas as suas emoções. Agora, além de fome, não sentia mais nada.
Alice deu a última mordida no cheesecake com certa melancolia.
No início, por pirraça, ela se trancou no quarto e chorou até perder o fôlego. Não importava o quanto o pai e a mãe batessem à porta, ela não abria, pretendendo deixá-los mortos de preocupação. Afinal, eles cometeram um erro enorme ao trocar os bebês; mereciam algum castigo.
Mas agora, Alice sentia que eles não pareciam tão preocupados assim. E ela estava morrendo de fome.
Alice abriu a geladeira de embutir, entrou, deu uma volta e, desanimada, pegou apenas uma soda de limão. Ela detestava cozinhar. Na geladeira do quarto, só guardava bebidas, petiscos e máscaras faciais. Em um dia inteiro trancada, sua única refeição fora aquela pequena fatia de bolo.
Ela checou o celular. Nem mesmo a governanta tinha enviado mensagem chamando para comer.
Antes não era assim. Mesmo para as refeições diárias, sempre havia alguém perguntando o que ela gostaria de comer. Nos últimos vinte anos, ela nunca precisou pedir nada; tudo o que desejava era colocado à sua frente.
Alice pensou que talvez fosse porque Augusto e Helena decidiram buscar a filha biológica hoje, tentando fugir da mídia. Por isso, a mansão Cavalcanti parecia tão agitada, preparando um novo quarto para receber a nova dona da casa.
Seu quarto, por outro lado, estava mergulhado em um silêncio absoluto. Pareciam ter esquecido que ela ainda existia.
Alice pensou que, se seus irmãos estivessem aqui, as coisas seriam diferentes. Mas um deles estava em São Paulo como professor convidado, outro estava em um congresso de negócios nos Estados Unidos e o mais novo estava em uma competição de corrida nos Alpes europeus. Nenhum voltaria tão cedo.
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E mesmo que voltassem, o que aconteceria? Alice não ousava imaginar a cena. E se, ao se encontrarem, eles não a considerassem mais como uma irmã de verdade?
Inquieta e com um nó na garganta, ela despejou a soda de limão em um copo e voltou para o balcão para tentar enganar o estômago. Ligou a tela do celular novamente e, com as pontas dos dedos finos e claros, deslizou sem rumo pelas notícias.
A fofoca bombástica já fervia há um dia, e quase todas as ofensas possíveis já tinham sido ditas. Mas a hashtag #VidaRoubada ainda a incomodava.
Internautas curiosos já tinham revirado sua vida: listaram o fundo fiduciário que ela recebeu ao nascer, o diamante azul de milhões que ganhou da avó na festa de cem dias, e ainda inventaram mansões, iates e listas de gastos bilionários que nem eram dela.
Em seguida, encontraram em um edital de bolsas da universidade a "vítima" da vida roubada, postando fotos dela vestida de forma simples, trabalhando em um restaurante popular no Rio para pagar os estudos.
Com o contraste, todos começaram a defender a filha biológica, "trabalhadora, corajosa e inteligente", enquanto atacavam Alice, chamando-a de "ladra que ocupou o lugar alheio".
Alice não conseguia entender por que tantas pessoas a atacavam, e ninguém entendia como ela se sentia. Todos achavam que ela deveria estar apavorada, ansiosa ou culpada.
Culpada de quê? O amor fora falso, o lar fora falso. O carinho extremo dos pais por vinte anos podia ser descartado em um instante por causa de um erro deles mesmos. E ela, que fora enganada, ainda era a culpada.
Ninguém gosta de ser chamada de ladra. Especialmente a orgulhosa Alice.
Ela sabia que deveria fechar o aplicativo para não se afundar naquelas opiniões, mas não resistiu e deslizou o dedo. Ampliou a tela e viu o nome: Vitória.
Alice comprimiu os lábios e, após hesitar, abriu a foto da moça trabalhando.
O quarto imenso estava às escuras. A noite caía ao seu redor, e apenas a luz fria do celular iluminava o rosto delicado e translúcido de Alice, como uma porcelana fina. Na tela, a garota usava uma jaqueta simples e calças largas, com o cabelo preso em um rabo de cavalo prático.
Os pratos sujos nas mãos não escondiam seus traços nobres. Dava para notar a semelhança com a mãe quando jovem, com aquele ar clássico e o contorno profundo e invejável dos olhos.
Alice sentiu um aperto no peito. Ela se parecia tanto com os irmãos. O avô materno deles tinha ascendência eslava. Não era à toa que todos na família tinham traços marcantes, enquanto apenas ela tinha uma beleza mais suave.
Alice passou foto por foto e, com as descrições dos posts, quase começou a sentir pena da garota junto com os internautas. Mas logo sua barriga roncou, e ela voltou a ter pena de si mesma.
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Se não era filha biológica, que fosse. Mas não podia morrer de fome. Nada era mais importante do que comer.
Só que Alice não queria descer e ver aquelas pessoas celebrando a chegada da outra. Olhou para o closet, hesitou por um momento e finalmente se levantou.
A mansão dos Cavalcanti na Vila dos Horizontes tinha cinco andares. Os quartos de Alice e Henrique eram vizinhos, dividindo o terceiro andar. Mas a separação não era total; havia uma passagem interna que levava ao quarto ao lado através do closet dela.
Ninguém sabia dessa interligação, exceto Alice e Henrique.
Embora o irmão mais velho estivesse fora, Alice sabia que ele costumava cozinhar e que a geladeira dele estava sempre cheia.
Ao entrar no closet, as luzes se acenderam em camadas, revelando vestidos de alta costura e joias de ambos os lados. Um gatinho branco estava deitado sobre um vestido azul-claro, dormindo. Ao ouvir a porta, ele acordou e olhou para ela.
Ao vê-la, o gato se levantou e começou a miar, parecendo ansioso. Mingau era um gato que Henrique resgatara anos atrás. Na noite anterior, enquanto ela discutia com os pais, ouvia Mingau chamando por ela através do closet. Ele não tinha saído dali.
Alice o pegou no colo. "Você ainda está aqui?"
"Vou procurar algo para comer no quarto do seu pai."
Alice foi até o fundo do closet e viu que a porta giratória do armário tinha sido deixada com uma fresta pelo gato. Ao empurrar a porta, ela entrou no quarto de Henrique.
Apenas uma parede de distância, e o estilo era completamente diferente do dela. Exatamente como ele.
Alice entrou carregando Mingau e foi imediatamente envolvida pelo tom frio e sóbrio de cinza e preto. O ambiente parecia exercer uma pressão silenciosa sobre ela. Alice prendeu a respiração. Talvez pelo fato de Henrique estar fora há tanto tempo, o quarto parecia gélido e impessoal, aumentando a sensação de autoridade e distanciamento.
Ele estava em São Paulo há quase um mês. Logo que ela se formou e voltou para casa, ele recebeu o convite para ser professor convidado e expandir os negócios do grupo na capital paulista. Ela não sabia quando ele voltaria.
Mas não estava com pressa. Só esperava que ele não voltasse enquanto ela estivesse roubando sua comida.
Alice foi até a pequena cozinha da suíte, colocou Mingau no chão e escolheu cuidadosamente uma caixa de macarrão instantâneo na geladeira. Feliz, arregaçou as mangas, ferveu a massa e aqueceu o molho.
Nesse exato momento, lá embaixo, um carro preto de luxo entrou sem aviso na propriedade e parou diante da porta principal. O assistente desceu rapidamente e abriu a porta traseira com reverência.
Os funcionários no jardim ficaram surpresos ao ver o carro com placa de circulação interestadual e se apressaram em recebê-lo. Sapatos de couro sob medida tocaram o chão, e a calça social impecável trouxe consigo um ar frio e autoritário.
Como o mordomo não estava, os empregados ficaram sem direção. Empurraram a Dona Neide, que tinha mais intimidade com a família, para falar com Henrique. Ela explicou que o patrão e a patroa ainda não tinham voltado com "a moça".
Eles tinham receio do primogênito dos Cavalcanti. Entre os netos, ele era o que mais se parecia em temperamento com o falecido patriarca. E não tinha o rosto suave do avô; seus traços eram marcantes, com olhos profundos e escuros que exalavam uma aura de comando absoluto e implacável.
Henrique parecia já saber de tudo. Ao entrar e subir as escadas, perguntou diretamente: "Já verificaram a mídia?"
"Ah?" Dona Neide, sem saber o que dizer, gaguejou: "O senhor Augusto... deve estar verificando os portais responsáveis."
"Diga a ele que não precisa mais verificar", disse Henrique de forma direta. "Eu já cuidei disso. Peça para ele me procurar quando chegar."
Dona Neide assentiu prontamente.
O espelho do elevador refletia o paletó de corte impecável de Henrique. O elevador chegou ao destino com um sinal sonoro. Dona Neide olhou para o painel e sentiu um calafrio.
Terceiro andar. Não era apenas o andar de Henrique, mas também o de Alice. Eles passaram o dia arrumando o quarto para Vitória e simplesmente esqueceram que Alice ainda estava lá.
No entanto, Alice não tinha feito escândalo hoje; apenas se trancara no quarto. Dona Neide logo arranjou uma desculpa para se isentar: "A menina Alice está muito triste, se trancou e não sai por nada. Não comeu nem bebeu nada o dia todo, estamos muito preocupados."
Henrique segurou a maçaneta de seu quarto, com o olhar sombrio levemente erguido.
Dentro do quarto, o barulho na cozinha era alto o suficiente para que Alice não ouvisse os bipes da fechadura digital. Mas Mingau ouviu. Ele correu para ver e voltou com o rabo erguido.
Alice estava concentrada, de chinelos de gatinho, pegando vários petiscos e arrumando-os sobre a mesa para levar depois. Ela voltou rápido para escorrer o macarrão, enrolou dois fios no garfo e provou.
Mingau pulou ao lado dela e cutucou seu braço. Alice entendeu errado e o afastou gentilmente: "Comida de gente, gatinho não pode."
Alice, protetora com sua comida, virou-se mordendo o garfo, mas para sua surpresa, a porta do quarto se abriu sem aviso.
Ela deu de cara com o homem que deveria estar a quilômetros de distância! Alice paralisou, sentindo um arrepio de culpa e choque.
Henrique observou a "menina que não comia nem bebia" instalada em sua cozinha, usando suas coisas e saqueando sua geladeira. Ele arqueou levemente a sobrancelha.
Então, com um clique seco, ele trancou a porta por dentro.
O coração de Alice saltou com o som da porta fechando. Olhando para o homem que acabara de chegar, ela quase achou que era uma alucinação. O quarto foi preenchido pelo perfume amadeirado e marcante que ele exalava, uma presença tão dominante que, em instantes, Alice sentiu como se estivesse mergulhada naquele aroma.
Realmente, quando a sorte está ruim, tudo conspira contra. Foi só ela tentar pegar algo escondido pela primeira vez que foi pega em flagrante.
Alice mordia o garfo com a testa franzida. Henrique caminhou calmamente em sua direção. O som de seus sapatos no mármore era pesado, cada passo parecendo ecoar no peito de Alice.
Ele parou diante dela e estendeu a mão, segurando com os dedos longos a base do garfo que ela mordia. Com uma voz grave e calma, ele ordenou: "Abra a boca."
Ao exercer uma leve pressão, Alice sentiu a força deslocar o garfo de seus dentes. Ela foi obrigada a soltar. O garfo deslizou por seus lábios e foi tomado por Henrique. Ele desviou o olhar da ponta da língua rosada dela e disse: "Não se deve morder o garfo assim."
"Eu já sei", resmungou ela, tentando pegar o garfo de volta.
Henrique ergueu a mão, e ela não alcançou nada. Ele a olhou, pegou o prato de massa da mão dela e o colocou de volta na bancada.
Alice inventou uma desculpa qualquer: "O Mingau estava com fome, ele foi até o meu quarto e eu só o acompanhei para buscar comida."
Mingau: "?"
Henrique limpou rapidamente a bancada. "A ração do gato não fica na geladeira."
"Eu não sabia."
"E ele provavelmente não come macarrão."
Alice nunca achou que suas desculpas esfarrapadas fossem convincentes; era apenas que, não importa o que ela dissesse, seus irmãos sempre aceitavam seus motivos malucos. Normalmente, ela deixaria por isso mesmo, mas hoje, subitamente, ela se importou.
Alice baixou o olhar. "Como eu ia saber o que ele come ou não?"
"Você o conhece tão bem, mas ficou fora tanto tempo", disse ela, acariciando o pelo de Mingau enquanto sua voz diminuía. "Aquelas pessoas lá fora só tratam bem quem lhes convém. Você não estava aqui para cuidar dele, ele se sentiu injustiçado e você nem soube. Ele foi me procurar, mas eu..."
Alice parou no meio da frase, com a garganta seca e a voz falhando, incapaz de continuar.
Pouco depois, uma mão grande e de dedos fortes entrou em seu campo de visão, acariciando gentilmente o queixo de Mingau. Os pelos brancos cobriam o dorso da mão dele, onde as veias se destacavam. Dava para sentir que o gato estava adorando o carinho, ronronando alto.
A voz profunda e suave do homem veio de cima:
— Você se sentiu injustiçada?
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