"Memórias de um Amor Perdido" Capítulo 14
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Ao chegarem à porta da casa da família Rocha, deram de cara com Dona Zilah, que voltava com sacolas de compras.
Zilah olhou surpresa para Sofia ao lado da filha e logo abriu um sorriso: "É uma amiga da Tali?"
Sofia ia confirmar com um aceno, mas Talita antecipou-se: "É a namorada do meu irmão."
O sorriso de Zilah aumentou visivelmente, e seu entusiasmo por Sofia subiu a um novo patamar.
"Entre, entre! Venha sentar um pouco."
Sofia sentiu o coração dar um solavanco ao ouvir a apresentação de Talita.
Sendo meio arrastada para dentro do pátio por Zilah, que pousou as compras e já ligava animadíssima para o marido, Sofia ficou sentada de forma rígida no sofá.
Talita falou primeiro: "Desculpe, Sofia, tomei a liberdade de te apresentar assim."
Como haviam conversado durante todo o trajeto, as duas tinham se tornado próximas, e Talita já a chamava carinhosamente pelo nome.
Sofia apertou o celular com força: "Por mim tudo bem, mas seu irmão talvez não goste muito."
"Não importa se ele gosta ou não, todos nós gostamos de você."
Sofia terminou o almoço sob a calorosa hospitalidade dos pais de Talita e depois partiu.
Zilah e o marido, porém, cercaram Talita com perguntas. Após hesitar por um tempo, Talita acabou revelando as preocupações e hesitações de Murilo.
Ao ouvir, os olhos de Zilah ficaram marejados: "Esse menino sempre guardou tudo para si, agora está pensando demais..."
Ela virou-se para a filha: "Tali, não se preocupe. Eu e seu pai vamos resolver isso com o seu irmão."
Só então Talita suspirou aliviada. Ela acariciou a cabeça de Babu aos seus pés, com um leve sorriso nos lábios.
...
Do outro lado da cidade, Xavier Silva massageava as têmporas enquanto ouvia o relatório interminável de seu assistente. Ele sentia que sua cabeça ia explodir.
"Essas coisas não eram sempre resolvidas pelo meu pai? Por que tudo está vindo para mim agora?"
O assistente baixou ainda mais a cabeça: "O Sr. Silva disse que, como o senhor está sozinho e sem compromissos agora, seria bom se dedicar mais ao trabalho."
Um brilho de resignação passou pelos olhos gélidos de Xavier. Ele fechou os olhos e disse: "Esqueça, por hoje chega."
Mal terminou de falar, o assistente sentiu apenas um deslocamento de ar; Xavier já havia desaparecido pela porta.
Ultimamente, o CEO andava matando o trabalho com frequência e não demonstrava mais a mesma dedicação de antes.
Sem entender o motivo, o assistente ficou para trás organizando a papelada restante.
Xavier caminhava apressado. Olhando para o relógio, faltava meia hora para Talita sair da floricultura.
Ele ainda não podia se aproximar dela, mas apenas observá-la por alguns instantes já era o suficiente.
Ao chegar ao Beco Treze, o sol já estava se pondo, restando apenas alguns feixes de luz.
Xavier estacionou o carro e caminhou rápido até um ponto próximo à loja. Ao ver a porta ainda aberta, sentiu um alívio; não chegara atrasado.
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Ele ficou parado ali, com os olhos fixos na entrada, como se a pessoa que esperava fosse sair a qualquer momento.
No entanto, mesmo após Bia trancar a porta e as luzes se apagarem, ele não viu o rastro de Talita.
Em um instante, inúmeras suposições cruzaram a mente de Xavier, e cada uma delas lhe causava um calafrio na espinha.
Instintivamente, ele caminhou para frente, querendo perguntar pelo paradeiro dela.
Bia, que terminava de fechar a loja cantarolando, virou-se e deu um pulo ao ver um homem alto parado logo atrás dela.
"O que o senhor..." Antes de terminar a frase, ela olhou para o rosto imponente e os olhos penetrantes do homem e emudeceu.
"A Tali não veio hoje?" a voz de Xavier era fria e urgente.
Capítulo 32
"Tali?" Bia estranhou, lembrando-se em seguida de Talita.
"Ah, o senhor está procurando a Tali? Ela foi para casa bem cedo hoje", respondeu Bia rapidamente.
O coração de Xavier relaxou, a agressividade em seu olhar se dissipou e, após agradecer educadamente a Bia, ele partiu apressado.
"Esse homem me parece familiar... onde será que eu o vi?" Bia murmurou para si mesma enquanto caminhava para casa.
Xavier sentou-se no carro e afrouxou a gravata.
A tensão que dominava seu corpo recuou como uma maré, dando lugar a um cansaço avassalador que o atingiu de repente.
Sem ter visto Talita, seu coração ainda flutuava, inquieto.
Por um segundo, sentiu-se como há três anos, no momento em que recebeu a notícia de que ela "morrera".
Uma escuridão avassaladora o consumira, e ele sentia que não suportaria passar por aquele desespero e tristeza uma terceira vez.
As pontas dos dedos de Xavier apertaram o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
Suas emoções turbulentas pareciam retalhar seus órgãos internos, fazendo-o suar frio de dor.
Com a mão trêmula, ele discou o número de seu psiquiatra. Desde que soubera que Talita estava viva, ele não voltara mais às consultas.
"Preciso ir aí agora...", Xavier ofegava levemente, com o olhar sombrio.
As luzes da clínica de psicologia já estavam acesas, e o local estava quase vazio.
Xavier seguiu direto para o consultório do médico que o acompanhava.
O psiquiatra observou o homem à sua frente, com os cabelos escuros úmidos de suor na testa, e entendeu imediatamente: ele estava tendo uma crise.
"Por que não veio à última consulta?" a voz do médico era calma, sem qualquer tom de recriminação.
"Porque encontrei a pessoa que eu queria ver", disse Xavier com uma ternura incomum.
O psiquiatra sentiu um aperto no peito; ele lembrava bem da causa da doença de Xavier: depressão e estresse pós-traumático causados pela perda da amada.
"Perda", naquele contexto, significava morte.
A mente do médico trabalhou rápido e seu olhar mudou.
Xavier percebeu imediatamente. Sua voz trazia um tom de leve euforia: "Não é o que o senhor está pensando. Ela não é uma alucinação. Ela está mesmo viva."
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O psiquiatra não relaxou com a afirmação e prosseguiu: "Como você a encontrou?"
Xavier explicou toda a situação.
Ao ouvir um relato lógico, coerente e verossímil, o médico relaxou por um momento.
Mas então ouviu Xavier continuar: "Hoje fui à loja procurá-la e ela tinha ido embora mais cedo. Entrei em pânico e, desde então, não consigo controlar minhas emoções. Eu... estou ficando pior?"
Três anos atrás, no momento em que Xavier teve pensamentos suicidas, ele percebeu que estava doente.
Embora perder Talita o deixasse insano, o suicídio, para alguém que dedicara a vida ao resgate, era uma traição às suas convicções profissionais.
Ele não deveria ter esse tipo de sentimento.
Assim, ele buscou ajuda psicológica por conta própria. Os pensamentos suicidas foram abandonados, mas ele passou a se viciar nas sessões de hipnose quinzenais.
"É difícil dizer, mas ela deve ser a chave para a sua cura. O que vai acontecer depois que a porta for aberta dependerá da natureza da sua obsessão."
"Obsessão?"
Xavier baixou a cabeça. Ao ouvir aquela palavra, um brilho estranho surgiu em seus olhos.
Sua obsessão?
Ele era obcecado por muitas coisas.
Que Talita estivesse viva, que ela fosse feliz, que ela o perdoasse.
Ele desejava desesperadamente estar perto dela, que ela voltasse a olhar para ele, que ela não dissesse mais "não te devo nada".
Sua maior ambição, porém, era ainda poder estar ao lado dela, ser seu companheiro, ser o homem que passaria o resto da vida com ela.
Mesmo que a esperança fosse mínima, Xavier estava disposto a lutar por isso.
Capítulo 33
Talita Rocha não sabia de nada do que acontecia com Xavier.
Ela estava sentada no pátio da casa da família Rocha conversando com Sofia. Sofia andava visitando a casa com frequência ultimamente; desde que Zilah soubera que a moça não tinha família, passou a tratá-la com um carinho especial.
Murilo Rocha também soubera da situação por telefone e ligara para Sofia.
No início, Talita ficou apreensiva, temendo que Murilo achasse que ela agira por conta própria.
Mas ao ver Sofia voltar da ligação com os olhos brilhando, Talita suspirou aliviada.
Ela ouvia Sofia contar histórias divertidas da época da faculdade com Murilo, e isso a fazia lembrar inevitavelmente de Xavier Silva.
Desde que acordara, ninguém mais mencionara o nome de Xavier.
Ela tentava esquecer, mas memórias relacionadas a ele sempre surgiam nos pequenos detalhes do dia a dia.
"Tali, Tali..." o chamado de Sofia fez Talita virar o rosto em direção à voz.
No instante seguinte, algo morno e com aroma de ervas foi colocado sobre o rosto de Talita.
"O que é isso?" perguntou ela, erguendo o rosto para Sofia.
Sofia respondeu em voz baixa: "É uma receita de um médico tradicional que eu conheço, é apenas para uso externo. Eu fiz em formato de máscara de dormir."
Ao ouvir o assunto, a expressão de Talita vacilou por um segundo, mas ela sorriu e agradeceu.
"Tali, não desista do tratamento. Vamos tentar de tudo. Você é tão jovem, se puder recuperar a visão será maravilhoso, mas se não puder, seu irmão vai cuidar de você para sempre."
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