"Sob o Sol Proibido: A Vingança do Espectro" Capítulo 2
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Clarice desceu as escadas correndo, mas quem encontrou não foi Dante. Era seu assistente, Ricardo — um dos poucos que sabia que ela ainda estava "viva".
— Senhora — disse Ricardo, sem expressão. — O chefe tem um compromisso esta noite e não poderá voltar.
— Ele disse... quando voltaria? — ela se ouviu perguntar. Sentia-se patética.
— Não há um horário definido. — Ricardo hesitou por um momento. — Senhora, cuide-se. O Sr. Dante pediu que a senhora tomasse seus remédios no horário.
Dito isso, ele se virou e desapareceu na escuridão da noite. Clarice permaneceu imóvel. Pela primeira vez em três anos, sentiu com clareza o gélido frio daquele corpo — não o frio da temperatura, mas o frio da morte.
Ele não voltou.
Na última noite para o seu renascimento, quando ela precisava de apenas duas horas do tempo dele, ele escolheu outra pessoa. Aquelas noites de oração, os cuidados dedicados, as promessas juradas de pés juntos... tudo era falso. Tudo mentira.
Clarice agachou-se lentamente, abraçando os próprios joelhos. Não havia lágrimas. Como poderia um fantasma chorar?
Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, ela se levantou, foi até o telefone da sala e discou um número.
— Vicente — disse ela ao bocal, com uma voz assustadoramente calma. — Preciso que investigue uma pessoa para mim. A mulher que esteve com Dante Ferraz no Cloud Hotel, suíte 1208, na noite passada.
Do outro lado da linha estava o antigo subordinado de seu pai. Vicente guardou silêncio por um instante.
— Senhorita, finalmente decidiu me procurar.
— Quero saber quem ela é.
Ao desligar, Clarice flutuou até a janela. O dia estava prestes a amanhecer e sua alma começava a perder a nitidez. Sem o ritual, ela realmente desapareceria.
Na manhã seguinte, risadas vieram do andar de baixo. Apoiando-se no corrimão, ela desceu as escadas. Viu Dante abraçando aquela mulher no meio da sala.
— Clari! — Dante caminhou apressado em sua direção, abrindo os braços para abraçá-la. — Desculpe, ontem foi impossível me desvencilhar. Como você está? Sentiu algum desconforto?
Clarice esquivou-se. Seu olhar passou por Dante e pousou na mulher. De perto, ela parecia ainda mais jovem, no máximo uns vinte e cinco anos, pele clara e um olhar doce — o tipo de beleza gentil que os homens mais apreciam.
— Clari, esta é a Bia. Minha prima distante. Ela está grávida e, como morar sozinha no exterior seria difícil, eu a trouxe para ficar conosco por um tempo.
— Prima? — ela repetiu, a voz plana.
— Sim — Dante sorriu, sem deixar brechas. — Você não vive dizendo que os empregados são desastrados? A Bia é detalhista e poderá lhe fazer companhia.
Clarice observou Beatriz. Ela sorria enquanto, inconscientemente, acariciava o ventre levemente saliente. Aquele gesto era como um punhal nos olhos de Clarice.
— Não precisa — Clarice afastou a mão de Dante. — Eu me viro sozinha.
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— Clari...
Ela olhou diretamente para ele. — O ritual de ontem... o prazo passou.
A expressão de Dante endureceu por um segundo, mas ele recuperou a compostura rapidamente. — Eu sei. Por isso vamos agora mesmo falar com o Mestre Santos. Deve haver outro jeito.
— Eu vou com vocês — Beatriz deu um passo à frente, entrelaçando naturalmente o braço no de Dante. — Posso ajudar a cuidar da cunhada. — Ela mordeu o lábio inferior, parecendo prestativa.
Dante pensou por um momento: — Tudo bem.
Ao saírem, Dante abriu um guarda-chuva preto especial. Feito de um material técnico, ele bloqueava totalmente os raios ultravioletas. Nos últimos três anos, sempre que Clarice precisava sair, ele segurava o guarda-chuva daquela forma, protegendo-a sob as sombras. Hoje ele fez o mesmo. Mas, para Clarice, aquele guarda-chuva subitamente pareceu pesado demais.
No carro, Beatriz sentou-se no banco do passageiro, virando-se o tempo todo para conversar. — Dante, você nem dormiu direito ontem, não é? A cunhada parece tão pálida... Temos que confiar no mestre, ele dará um jeito.
Clarice fechou os olhos. Algo nas profundezas de sua alma estava esfriando, centímetro por centímetro.
O mestre vivia em uma montanha nos arredores da cidade. Após ouvir Dante, o ancião de barba branca suspirou. — O ritual foi interrompido, a alma está instável... Só resta um último recurso.
Dante apertou a mão de Clarice. — Diga!
— Daqui a sete dias teremos uma Lua de Sangue. Vá ao desfiladeiro da montanha de trás e colha a "Erva do Espírito Carmesim". Se abrirmos o altar novamente na noite da lua, ainda haverá uma chance. — O mestre olhou para Clarice. — Mas esta é a última oportunidade. Se falhar de novo...
— Eu irei agora mesmo — Dante disse sem hesitar.
Clarice, parada nas sombras, observou o perfil determinado de Dante. Se fosse antes de ontem, ela estaria emocionada. Agora, sentia apenas vontade de rir.
Sete dias para a Lua de Sangue. Ela calculou o tempo mentalmente. Em sete dias, ela teria que encontrar um jeito de fugir dali. Tinha que partir, de qualquer maneira.
O desfiladeiro era íngreme. Dante insistiu em colher a erva pessoalmente. Beatriz o seguiu, preocupada, enquanto Clarice esperava no carro. Esperou por muito tempo.
Quando voltaram, Dante tinha o braço enfaixado e segurava uma planta de um vermelho vivo. — Fui picado por uma cobra — ele sorriu para Clarice —, mas valeu a pena.
Ao lado dele, Beatriz terminava o curativo com os olhos marejados: — Você me deu um susto terrível...
Ela levantou os olhos para Clarice. Naquele olhar não havia preocupação, apenas ódio.
No caminho de volta, Dante estava debilitado devido à perda de sangue e ao veneno. Beatriz assumiu a direção. Dante concordou e sentou-se no banco do passageiro, protegendo a erva sobre o colo. Clarice, no banco de trás, olhava pela janela.
Quando o carro atravessava a ponte sobre o rio, Beatriz gritou subitamente: — Ah! Um gato!
Ela deu um solavanco violento no volante. O veículo rompeu a barreira de proteção e mergulhou no rio.
BUM—!
A água invadiu tudo. A luz do sol penetrou na água, incidindo diretamente sobre Clarice. — Ahhh—!
Sua alma e seu corpo começaram a queimar simultaneamente. Ela viu que a primeira reação de Dante no caos foi lançar-se sobre o banco do passageiro, soltar o cinto de Beatriz e protegê-la enquanto nadavam para a superfície.
Ele não olhou para trás nem uma única vez.
A água inundava seus pulmões enquanto o fogo consumia sua pele. Com as últimas forças, Clarice olhou para o guarda-chuva preto que flutuava na água. Era sua única chance.
Movendo seus braços que já começavam a se dissipar, suportando a dor excruciante de ver sua alma ser destruída, ela nadou, centímetro por centímetro, em direção ao objeto. No instante em que seus dedos tocaram o cabo do guarda-chuva, ela usou toda a sua vontade—
Sua alma transformou-se em uma fumaça etérea e infiltrou-se na estrutura do guarda-chuva. No último segundo, ela viu Dante emergindo com Beatriz nos braços.
Então, a escuridão engoliu tudo.
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