"Amor de Infância, Destino de Adulto-Gabriel Martinelli" Capítulo 38
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Point of View — Ana Gabriela
Entrei no quarto sentindo a cabeça girar. Queria acreditar que aquilo que Gabriel tinha dito era só efeito da maconha, mas sabia que não era.
Era mais simples… e ao mesmo tempo, mais complicado. Ele gosta de mim. Mas de que jeito? Como amiga? Como algo mais? Namorada? Eu não era idiota, sabia ler sinais… mas meu coração insistia em negar a verdade.
Nunca tinha rolado nada concreto entre nós que indicasse que poderíamos nos gostar além da amizade. Quando eu tinha treze anos, existia aquele sentimento confuso de que ele era meu príncipe encantado. Mas o tempo me fez perceber: ele sempre foi meu amigo. Só isso. Só que agora aquela lembrança parecia saltar da adolescência direto para o presente.
Me joguei na cama, sentindo o corpo leve graças à pequena quantidade de maconha que tinha usado. Pelo menos o peso do julgamento dos torcedores e fãs não estava sobre mim. Olhei para o relógio: 03h42.
Peguei o celular. Uma mensagem de Gabriel:
"Vem ficar comigo"
Pelo menos, achei que tinha sido ele. Cinco minutos depois, ouvi batidas na porta. Me levantei e abri. Ele estava ali, com o rosto marcado por lágrimas recentes.
— Você vai ficar de boca fechada, por favor. Já aconteceu muita coisa hoje — puxei sua mão, fazendo-o entrar.
Deitamos, cada um em uma ponta da cama de casal. Ele segurou minha mão com cuidado, como se medisse cada gesto.
— Acho que você está chapada… quantos você fumou? — perguntou, a voz rouca.
— Não o suficiente — respondi, sorrindo.
— Duvido. Amanhã você mal vai se lembrar disso.
— Fumar não faz esquecer — ri — só deixa a realidade um pouco… duvidosa.
— Nunca fumei maconha, hoje foi a primeira vez. Mas dizem que o efeito é diferente em cada um.
— Jura?
— Me deu uma súbita coragem…
— Uau. Hora de dormir — fechei os olhos, e ele riu antes de apagar a luz.
— Parece que você está voltando a ser o caos Ana Gabriela que eu conheço…
— Nunca fui um caos — murmurei.
— Ah, sim… você era.
Ri baixinho e apaguei.
No dia seguinte, mantive os olhos fechados por alguns minutos, absorvendo a noite anterior. O que tinha sido real? O que era só efeito da maconha? A quadra, ele comigo, o que ele disse…
Abri os olhos e ele ainda dormia ao meu lado, a mão agora agarrada à minha perna. Era impossível dormir agarrada à mão dele a noite inteira sem perceber. O que ele falou era verdade.
Suspirei. Eu não sentia o mesmo… ou, pelo menos, não estava pronta para sentir.
— Para de me encarar — ele murmurou, a voz rouca, olhos fechados.
— Bom dia, Tinelli — falei, e ele riu.
— Eu amo o Lorenzo — disse, passando a mão pelo rosto enquanto se sentava. — Próximo jogo é em dois dias, contra a Coreia…
— Isso — respondi.
— Tenho que ir para meu quarto.
Assenti, e ele se levantou, se espreguiçando. Olhou para mim, abriu a boca uma, duas vezes, mas nada disse.
— Bom dia, preta — falou por fim, e saiu.
Me deitei, cobrindo o rosto com o travesseiro.
— POR QUE O MARTINELLI ESTÁ SAINDO DO SEU QUARTO ÀS DEZ DA MANHÃ?! — o grito de Amanda ecoou.
Olhei para ela, me perguntando como tinha entrado. A ruiva se jogou sobre mim.
— Não falamos sobre o Martinelli nesse ambiente — pontuei, e ela levantou as mãos.
— Vim te buscar pra tatuar, amor. Vamos continuar o processo de gostosa tatuada.
Ri, levantei e fui tomar banho, escovar os dentes. Vesti-me e desci para o café antes de irmos para o hotel.
Amanda desenhou o escudo do Corinthians na costela. Duas horas de tatuagem depois…
— Vamos mais uma? — ela perguntou, empolgada.
— Quero — sorri. — Quero tatuar palavras.
— Hum, reflexiva. Qual? — pegou o papel para escrever.
— O caos… — sorri de lado.
— O caos? — Amanda fez bico. — Por quê? Não fez sentido. Quero contexto. Se tiver meia frase citando seu ex, vou te dar um soco.
— NÃO, AMANDA! — gritei. — É por causa do Gabriel.
— Pior ainda… Não vou tatuar. O Martinelli é sonso, lerdo, sem atitude… Pera, que relação isso tem com caos? — Ela fez careta.
— Ele sempre falou que eu era o caos… — mordi o lábio. — Às vezes, até o Higor falava. Mas a lembrança dele dizendo isso quando éramos mais novos é tão viva…
Amanda me encarou.
— Mulher chata. E onde vai ser? Grande ou pequena? — começou a escrever.
Sorri, já ansiosa para ver o resultado.
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Continua....
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